Figuras obrigatórias

(Só um momento para eu voltar a encaixar a rótula do joelho esquerdo)

Lembro-me de pensar que um dia que tivesse filhos seria daquelas mães super activas, como as que via todos os fins de semana no paredão, skate numa mão, carrinho de bebé na outra. Mas quando os filhos vieram, chegaram também as maratonas noturnas e todos os sprints diários. Nos primeiros anos, só chegar ao fim do dia já dava direito a medalha de ouro e nos seguintes tornei-me recordista em arranjar desculpas.

Até que janeiro de 2016 chegou. Num lindo sábado de inverno saí de casa decidida a fazer nova rodagem aos patins em linha, há mais de uma década encostados à box da garagem. Rumo à beira-rio, todos sobre rodas, o marido de skate, um filho de trotinete e outro de bicicleta.

(Como é que se fideliza uma criança à bicicleta? Ameaça-se pôr-lhe os patins…).

Já na margem ainda hesitei. A minha falta de treino tornava-me uma séria candidata a veículo anfíbio, concorrência leal ao autocarro Hippo amarelo a rir-se lá longe no Tejo. Mas já era tarde para ficar no banco, até porque o trio de ataque acenava-me com o cartão encarnado. Fiz-me à estrada e correu bem. Fui ganhando confiança. Andei para lá e para cá, olhando do alto dos meus 5cm extra para a minha concorrência, duas meninas com pelo menos mais de três anos. Abstraí-me das cotoveleiras e joelheiras, patinei graciosamente (e aquela mãe, ri-se de quê?), preparada para ultrapassar as tendinites e, no fim, recolher os ramos de flores atirados por uma platéia em êxtase.

-Mãe!!!!!

-Sim filho?

– Tens um saco plástico preso às rodas do patim esquerdo.
(E não é que parecia mesmo o som de aplausos?!)