O fado do antes e do depois

Há uns dias, fui ver uma grande amiga atuar na peça “Fado Alexandrino”, no Teatro Nacional São João, no Porto. A peça é uma adaptação da obra, com o mesmo nome, de António Lobo Antunes, onde cinco personagens se reúnem num restaurante e contam as suas vidas 10 anos depois de regressarem da Guerra do Ultramar. Passa-se em três partes – antes, durante e depois da Revolução de 25 de Abril de 1974.

Sou uma pessoa relativamente bem informada quanto ao que significa o 25 de Abril. Mesmo tendo nascido depois de 1974 e não ter vivido os tempos da ditadura, li bastante sobre o que significou a liberdade. Para as pessoas e, muito particularmente, para as mulheres portuguesas.

Mas sentada ali, na plateia, a assistir à atuação de personagens que vestiam os sentimentos de gente como eu, mas há 50 anos, bateu-me de uma forma diferente.

No palco, vivia-se o ano de 1974. Nas cadeiras do teatro, estávamos em 2024. Mas as pessoas eram as mesmas: éramos maridos, mulheres, pais e filhos, empregados e chefias. Revolucionários e submissos. Gente com defeitos e qualidades.

Em 1974, uma geração de homens regressava da Guerra do Ultramar, altamente traumatizada. Chegaram e encontraram famílias destruídas, perdas de entes queridos sem a possibilidade de se despedirem, a solidão profunda. Mesmo os que mostravam patentes mais altas procuravam um sentido para o que sabiam dentro de si não fazer sentido nenhum. Dentro de si carregavam ações incompreensíveis que cometeram em terras africanas, uma dor lacerante que transpirava para as filas de pessoas que os olhavam em silêncio e no escuro. Alguns torturados pela PIDE, retirados da sua liberdade, da sua dignidade mais básica. O meu marido comentou: “nós não fazemos ideia do que isto foi”. Isto. A guerra. A censura. A polícia política. Em 2024, assistimos pela televisão, mas, para a maioria dos portugueses de hoje, é apenas um livro, uma notícia ou uma peça de teatro.

A liberdade trouxe a paz.

As mulheres que os esperavam tinham sobrevivido como podiam. No palanque, escondiam-se abortos em vãos de escada, frutos de violações, mantinham-se casamentos infelizes e mentirosos pelo “bem social”, a pobreza extrema de não ter o que dar de comer aos filhos, a violência doméstica, o analfabetismo. Histórias de meninas trazidas do interior profundo, para “servir” com menos de 10 anos. Quebradas, marcadas, zangadas, manipuladas. A sua raiva contida transpirava para nós.

A liberdade trouxe a igualdade.

Muitos saberão que, antes da revolução, éramos o país com maior taxa de mortalidade infantil, mais de metade das casas não tinha água corrente (mais de 70 % não tinha chuveiro ou banheira), um em cada quatro portugueses era analfabeto (sendo que dois terços eram mulheres). Havia fome, havia miséria, o corpo das mulheres e das meninas eram pertença do sexo masculino. O divórcio estava proibido em casamentos celebrados na igreja católica.

Para o sexo feminino, o voto estava proibido, exceto se tivessem o ensino secundário concluído (ora, se dois terços nem sabia ler…), o papel da mulher estava marcado pelo governo doméstico e a mulher casada tinha estatuto de dependente, sendo o homem o “chefe de família”. A licença de parto era de 30 dias e o subsídio seria apenas atribuído, caso assim o entendesse, pelo empregador. Para trabalhar e para viajar as mulheres precisavam de autorização escrita do marido e havia profissões onde casar era proibido – enfermeiras, hospedeiras de bordo.

Sentada na minha cadeira, na assistência do “Fado Alexandrino”, regressada de uma viagem de trabalho onde a única autorização que precisei foi a do cartão de crédito aquando do pagamento, ao lado do marido que escolho todos os dias, que divide comigo uma família e uma casa, celebra o meu trabalho e eu o dele, comentámos a situação política atual, tendo ao lado um ex-ministro, sem receio de represálias.

Vi a minha amiga encarnar personagens que parecem de outra vida. E são. A interagir com outros intérpretes de “Fado Alexandrino” em papéis de gente que podíamos ser nós, nenhum inocente, nenhum culpado. Todos fruto dos tempos que se viviam. Pareciam tão assustadoramente próximos, apenas um fosso curto nos separava. Apenas 50 anos, apenas umas gerações nos trouxeram saúde, educação, paz, riqueza, anos de vida, igualdade, a família e o amor que escolhemos.

A minha amiga atriz livre, como eu, livre de movimentos, de pensamentos, de palavras, de escolhas. A minha amiga dona, como eu, do seu corpo, do seu destino, das suas escolhas, dos seus amores.

Quando passaram o “E Depois do Adeus”, o sinal tocado na rádio para avanço das tropas no dia 25 de Abril de 1974, comovi-me, como sempre me comovo quando ouço esta canção. Mesmo não tendo estado lá.

A memória das memórias dos outros a regressar, a chegar de rompante e a gritar:

Nunca Mais!

 

Inês Brandão é fundadora e Global Business Manager da Frenpolymer. Leia mais artigos de Inês Brandão.

Publicado a 24 Abril 2024

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