Encontro com as águas nas aldeias de xisto

Texto e fotos: José Miguel Dentinho

 

 

A água daquele riacho de montanha onde enfiei a mão estava gelada, e ainda bem. Quando voltei a olhar a palma, já não tinha a dezena de furos a brotar sangue que fizera quando, sem ver, me tentei segurar àquilo que pensava ser uma rocha e era uma silva. Ainda de cócoras sobre a margem daquele estreito riacho de montanha da Serra da Lousã, abençoei todas as lições que tinha aprendido na minha formação e durante vida, que me levam sempre a procurar soluções para problemas como este ou outro qualquer, antes de olhar em redor e apreciar o fluir da água, a junção de um regato bem perto, que vinha de bem de cima, ao ribeiro, e disse-me, para mim, que aquilo tudo era bonito demais para deixar de fotografar. Foi o que fiz.

 

De vez em quando, casas

Um pouco mais acima ficava a aldeia de xisto da Cerdeira, a primeira que visitámos no fim de semana prolongado que fizemos pelas terras da Lousã. Foi tempo de visitar ribeiros, riachos, cascatas, de percorrer trilhos montanha abaixo e acima, numa paisagem marcada pelo verde, pontuada pela cor da rocha, sobretudo em tons de cinzento e castanho. De vez em quando um conjunto de casas de xisto, diferentes, de janelas e portas pequenas, por vezes talvez demasiado pequenas, de paredes de um castanho que parece querer integrar-se na paisagem.

Naquele fim-de-semana não havia quase gente e estava tudo fechado na primeira aldeia. Ou quase tudo, já que decorria um atelier de iniciação à construção de um forno para cerâmica, por parte de uma artista residente, ao que parece, onde algumas pessoas se atarefavam a cortar e empilhar tijolos. Depois de deambularmos um pouco pelo emaranhado das suas casas típicas e belas da Cerdeira, saímos para visitar algumas das outras aldeias, incluindo a Pena, Candal, Casal Novo, Gondramaz e Talasnal, num percurso feito em dois dias de descoberta da uma região de natureza encantadora, onde valeu mesmo a pena ir e estar. Claro que puxa bastante pelo físico, porque nenhuma das aldeias fica em terreno plano, e é preciso subir e descer escadas e rampas para ir a todos os seus cantos e, é claro, para se usufruir das vistas que se podem apreciar a partir dali. Mas só assim se consegue sentir a Serra da Lousã em todo o seu esplendor.

 

Dia de romaria

O primeiro dia em que explorámos a Serra da Lousã era de romaria da Nossa Senhora da Piedade e, por isso, deixámos o carro a cerca de um quilómetro e fomos até lá pelo passadiço de beira da estrada, sempre com uma vista magnífica para o vale, as colinas à volta, o castelo, que é apenas uma torre de menagem que emerge do arvoredo de forma fotogénica, e a ermida onde a figura permanece até à altura em que lá estivemos, para passar a pernoitar na vila durante um mês. Pelo menos foi isso que nos contaram. Depois foi a descida até piscina fluvial, com muitas fotos às diversas quedas de água, uma caminhada pela área do santuário e um pequeno percurso no caminho que entra pela floresta adentro em direção às aldeias de xisto, que não fizemos por já serem cinco da tarde. Este é um dos sítios mais belos onde estive e vale certamente a visita.

Água entre pedras

A dormida foi no Lousã Varanda’s House, um apartamento com dois quartos independentes, espaçosos, onde fomos muito bem recebidos pela proprietária, a D. Margarida, que nos explicou todos os caminhos que devíamos seguir nas nossas explorações pela serra, as aldeias a visitar e as suas características, e nos deu sugestões de restaurantes apesar de, naqueles dias, só receberem gente por marcação e estarem fechados ou cheios. Pelo menos foi isso que me foi sendo transmitido a cada telefonema que fui fazendo. Por isso, desistimos de repastos mais elaborados na Lousã e optámos por comer uma tosta mista no café abaixo, na companhia de uma cervejinha bem fresca. Ainda andámos um pouco a pé pela vila e demos um salto à sua Igreja Matriz, que já estava engalanada, pronta para receber a Senhora da Piedade, guardada a maior parte do ano em capela montada no cimo de uma pequena colina. O dia seguinte foi a fazer o que mais gostamos: andar por aí, neste caso por terras da Lousã, a visitar as aldeias de xisto, que vão sendo recuperadas a pouco e pouco, mas onde ainda há muito por fazer, e as terras à volta, quando as veredas estavam suficientemente limpas de vegetação e o permitiam. O objetivo foi quase sempre os pequenos riachos de montanha, ou levadas que levam a água de cima para baixo naquela serra, onde foi sempre bom parar, para olhar em volta ao som sempre calmante da água a correr entre pedras.

Publicado a 14 Fevereiro 2024

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