O que trava as mulheres no acesso ao investimento (e como resolvê-lo)

Continua a existir preconceito no financiamento a empresas lideradas por mulheres. Um estudo recente descobriu que quando elas enfatizam o impacto social do seu projeto têm mais hipóteses de conseguirem capital. Mas esta não pode ser a única forma de ultrapassar a desigualdade, dizem algumas investidoras.

Os negócios liderados por mulheres são considerados menos viáveis do que os masculinos, um preconceito que afeta o acesso a investimento e o aparecimento de mais empreendedoras.

As empreendedoras que procuram financiamento para projetos com uma forte componente social conseguem captar impressões mais positivas por parte dos investidores de capital de risco do que aquelas que centram as suas ideias de negócio em moldes mais tradicionais. As conclusões são do estudo “Gender Bias, Social Impact Framing and Evaluation of Entrepreneurial Ventures”, publicado pela Harvard Business School no início de março.

Os investigadores levaram a cabo duas experiências. Na primeira, aliaram-se a uma incubadora vocacionada para apoiar negócios de âmbito social, para estudarem como se processam as avaliações. Enquanto em alguns casos mais de um quarto dos planos de negócio enfatizavam o lado social do projeto, outros mal o mencionavam. Em 43 novos negócios e 421 avaliações, as empresas lideradas por mulheres eram, de modo geral, entendidas como menos viáveis que as empresas com líderes masculinos. No entanto, os negócios femininos que destacavam fortemente o âmbito social do projeto tinham tendência a ser mais bem-sucedidos nas intenções de financiamento, independentemente do género dos investidores que os avaliavam.

Numa segunda experiência criaram dois pitchs diferentes para um negócio fictício, apresentados por um homem e uma mulher. Ambos focavam os aspetos comerciais do negócio, embora só um deles enfatizasse o impacto social do projeto. A versão meramente comercial era vista de forma mais positiva quando o pitch era feito pelo homem, enquanto o pitch que também focava o âmbito social do negócio era visto de forma igualmente positiva em ambos os género. Ou seja: na prática, só uma abordagem de impacto comunitário dava alguma vantagem às empreendedoras no acesso a investimento.

Gap de género no investimento: apenas 2% dos fundos de capital de risco são atribuídos a mulheres e só 8% dos partners das empresas de investimento são mulheres.

As conclusões confirmam como os preconceitos continuam a moldar a forma como as mulheres são entendidas no mundo dos negócios e do investimento. Para serem vistas como sendo tão competentes como um homem, vêm-se muitas vezes forçadas a conformarem-se com estereótipos de género ou com esta imagem de empresária dedicada a fazer o bem à comunidade de forma desinteressada, argumentam os autores da pesquisa.

O estudo vai também de encontro aos números ao que já se conheciam: apenas 2% do investimento dos fundos de capital de risco é atribuído a mulheres e só 8% dos partners das empresas de venture capital são mulheres, factor que aumenta as probabilidade de concessão de financiamento a outras mulheres.

Num artigo a propósito deste tema, a Fortune quis saber quais as melhores medidas para combater esta desigualdade de oportunidades no acesso ao investimento e falou com partners e executivas das maiores companhias norte-americanas de venture capital.

Para Susan Lyne, fundadora e presidente da BBG Ventures, a mudança virá quando existirem pelo menos meia dúzia de empresas dirigidas e criadas por mulheres que cheguem à fase de IPO (initial public offering) ou de unicórnio (uma start-up avaliada em mais de mil milhões de dólares). Casos de sucesso servem para revolucionar o paradigma e estimular a mudança de atitude, como aconteceu com Katrina Lake, CEO da Stitch Fix, empresa online de serviços de styling pessoal e uma das primeiras companhias norte-americanas fundadas e dirigidas por mulheres a conseguir chegar à fase oferta pública inicial. O exemplo “altamente fortalecedor” de Lake é também dado por Kirsten Green , fundadora e partner da Forerunner Ventures: “É importante termos modelos inspiracionais. Ser capaz de usar um exemplo, mostrar como foi feito e imaginar-se na mesma situação é algo de muito poderoso.”

“Estamos sempre a dizer que as mulheres precisam de ter uma voz. Não precisamos de uma voz — do que precisamos é de poder. Dinheiro é poder. Os dados demonstram que, quando as mulheres têm poder, retribuem-no no futuro. Investem em outras mulheres e nas suas comunidades.” Cindy Whitehead, CEO da Pink Ceiling

Kimmy Scotti, partner fundadora da 8VC, acredita que a solução passa por convencer empreendedoras bem-sucedidas a darem o passo em frente na carreira, tornando-se elas próprias investidoras à medida que forem vendendo ou delegando responsabilidade de gestão dos seus negócios. “A esperança é que invistam na diversidade dos empreendedores, muitos dos quais serão mulheres. As mulheres precisam de criar empresas que resolvam os seus problemas. Penso que, durante muito tempo, foram os homens a criarem empresas que achavam que resolviam os problemas das mulheres.”

“Estamos sempre a dizer que as mulheres precisam de ter uma voz. Não precisamos de uma voz — do que precisamos é de poder”, diz pragmaticamente a CEO da Pink Ceiling, Cindy Whitehead. “Dinheiro é poder. Digo isto com confiança porque os dados demonstram que quando as mulheres têm poder retribuem-no no futuro. Investem em outras mulheres e nas suas comunidades. Quero ajudar dando acesso a capital, apostando cedo em mulheres inteligentes e dando-lhes acesso a mentoria.”