Gabriela Teixeira: “As mulheres são mais rápidas a decidir”

Entrou na PwC há 20 anos, onde começou a trabalhar como assistente de auditoria, e hoje é partner da consultora, liderando a área de Management Consulting. Gabriela Teixeira conta-nos o seu percurso profissional, fala dos segredos para o sucesso e ainda sobre as aptidões femininas que podem ser uma mais-valia para a liderança.

Gabriela Teixeira lidera a área de Management Consulting da PwC.

Nasceu em Luanda há 43 anos, mas foi no Porto que cresceu e é lá que ainda vive com a família, apesar de trabalhar em Lisboa — há 18 anos que as viagens semanais entre a Invicta e a capital são rotineiras para ela. Em 1997, assim que se licenciou em Gestão de Empresas pela Universidade Católica, já tinha três ofertas de trabalho na mesa e foi a intuição que fez decidir-se pela PwC, onde tem feito uma carreira notável. Entrou como assistente de auditoria, mas dois anos mais tarde já a convidavam para trabalhar no complicado e fascinante mundo das fusões, aquisições e privatizações, das quais tratava o departamento de Transaction Services, onde esteve 17 anos e no qual foi sócia nos últimos quatro. Há alguns meses aceitou novo convite para dirigir o departamento de Management Consulting da PwC, onde gere uma extensa equipa em três cidades. O segredo para fazer carreira na mesma empresa durante duas décadas passa pela paixão e dedicação, sim, mas sobretudo por essa capacidade de nos reinventarmos e aceitarmos novos desafios, diz.

Mãe de duas raparigas, apaixonada por trekking e pela natureza, Gabriela Teixeira falou-nos da sua carreira, dos segredos para se ser bom nela e progredir, e da importância dos anos sabáticos para se refletir no percurso profissional.

A consultoria era o seu objetivo quando escolheu o curso de Gestão? Como idealizava o seu futuro então?
Inicialmente, quando escolhi o curso pensava em ir para uma empresa privada, eventualmente com funções numa área financeira, algo mais calmo e organizado. Ou talvez até trabalhar num banco — o meu pai trabalhava nessa área. Mas com o evoluir do curso e a exposição a outras situações, falando com colegas que tinham ido para as big four [as quatro maiores corporações de auditoria: KPMG, EY, Delloite e PwC] comecei a abrir horizontes. Considero que fiz parte de uma geração de privilegiados porque acabei o curso em 1997 e pude escolher para onde queria ir. Na altura tinha três ofertas em cima da mesa: a Sonae, a Arthur Andersen e a PwC. Mas, como quase sempre na minha vida, vou muito por intuição e achei que o que me estavam a oferecer na PwC, a forma como me trataram e como a proposta foi feita, se adaptava melhor a mim. Comecei a minha carreira como assistente de auditoria.

E o que encontrou, quando chegou aqui?
Sou do Porto e lá a PwC era constituída por um grupo muito pequeno, mas de pessoas que ficaram minhas amigas para a vida toda e que me marcaram. No início, a chegada a esta área tem sempre algum impacto em termos de adaptação, dada a sua exigência. Havia muita entreajuda, também pelo facto de ser um grupo pequeno e com muito trabalho. Ao fim de dois anos, fui convidada para entrar para a consultoria. Mais uma vez, a minha intuição funcionou: recebi uma chamada de um senior manager da área de Transaction Services, respondi logo que sim e desliguei o telefone. Só depois é que reparei no que tinha acabado de fazer e comentei com o meu colega. Achava muito interessante o trabalho que faziam e fiquei lisonjeada pelo convite. Na altura, o Transaction Services era uma equipa muito pequena, de 5 ou 6 pessoas, que faziam trabalhos especiais e confidenciais relacionados com fusões, aquisições, privatizações, de elevado risco e com grande pressão.

“Considero que para fazer uma carreira de 20 anos numa organização multinacional temos que ter alguma resiliência, o que por vezes não é fácil. O que faço hoje é diferente do que fazia há 10 anos. Essa evolução dá-me um enorme prazer porque me sinto a crescer profissionalmente.”

Muitas executivas dizem que é essa atitude que falta a muitas mulheres, quando lhes propõem a progressão profissional: duvidarem menos de si e aceitarem de imediato os convites. A juventude ajudou a essa tomada de decisão rápida?
Sim, ajuda. Na altura só tinha uns 24 ou 25 anos. Mas fui muito guiada pela intuição de que aquilo seria bom para mim, da mesma forma como teria respondido logo que não se fosse algo que não me atraísse. Não consigo estar num trabalho em que não acredito. Uma das coisas que me pautou sempre foi a paixão por aquilo que faço; não consigo estar em algo em que não acredito. Sinto-me privilegiada por, aos 43 anos, me levantar de manhã gostando e acreditando genuinamente naquilo que faço. Venho com garra e dinâmica e tento transmitir isso a quem trabalha comigo.

É esse o segredo para se fazer uma progressão como a que fez nesta empresa, sempre em trajetória ascendente?
Em parte, penso que sim. Gostarmos do que fazemos é muito importante porque isso passa para tudo aquilo em que tocamos. Há uns tempos uma amiga definiu-me como uma “resiliente positiva”. Considero que para fazer uma carreira de 20 anos numa organização multinacional como a nossa temos que ter alguma resiliência, o que por vezes não é fácil. Além disso, o que faço hoje é diferente do que fazia há 10 anos, quando as minhas funções eram muito mais técnicas. Hoje são muito mais de gestão de clientes, de equipas e pessoas. Somos como os maestros de uma orquestra, que é preciso pôr a funcionar de forma perfeita e com todos ao mesmo ritmo. Essa evolução dá-me um enorme prazer porque me sinto a crescer profissionalmente.

Em que consistem as suas funções atualmente?
Há alguns meses fui convidada para liderar a área do Management Consulting. Foi outro momento de decisão por paixão. É um desafio profissional grande, que implica liderar uma equipa de 85 pessoas, entre Lisboa, Porto e Luanda, profissionais fantásticos e com competências muito diferentes. Implica gerir a relação com clientes, fazer um trabalho comercial de angariação, pôr as equipas corretas a trabalhar em cada caso e a tomarem decisões sobre abordagens. O Management Consulting está em crescimento, embora as áreas de foco vão mudando ao longo dos anos, conforme a nossa economia e o desenvolvimento das empresas. As necessidades dos clientes estão em constante evolução, por isso esta é uma área que precisa de inovação e conhecimento constantes. Os desenvolvimentos tecnológicos são uma área bastante desafiante, em que é necessário estar constantemente a inovar e a atualizar conhecimentos.

Quais os principais desafios destas suas novas funções?
O maior desafio é fazer um crescimento significativo, em termos de posicionamento no mercado. Temos pessoas fantásticas e é preciso fazê-las crescer em termos de competências e dinâmica. Dá-me um grande prazer conseguir que as pessoas desta nova equipa sejam reconhecidas, tal como aumentarmos o nosso posicionamento e quota de mercado nesta área.

Que competências valoriza mais nas pessoas que recruta para as suas equipas?
Pessoas com boas bases técnicas, que saibam utilizar bem essas competências. Hoje é vital ter a capacidade de team building e de relacionamento interpessoal — precisamos de pessoas que saibam trabalhar em equipa, internamente, e que tenham boas relações com os nossos clientes. E que também sejam resilientes, que saibam pensar e desafiar intelectualmente e tenham uma boa capacidade de trabalho.

Sobre os anos sabáticos: “Em algumas situações é muito positivo os profissionais terem tempo para pensar, porque a vida é tão intensa que não temos tempo de refletir no que nos está a acontecer — se estamos a seguir aquele caminho porque é mesmo isso que queremos ou porque estamos a ser empurrados nesse sentido.”

Nunca pensou em sair da consultoria?
Quando estamos há 20 anos numa empresa, por vezes temos desafios de entidades privadas e eu tive duas ou três situações em que o ponderei seriamente. Mas houve sempre quem me conseguisse convencer a ficar. Hoje agradeço-lhes bastante. Foi uma boa aposta, gosto muito desta casa.

A meio da sua carreira fez um mestrado em Finanças. Foi com o objetivo de se atualizar ou sentia necessidade de formação nesta área? Essa formação foi decisiva para as funções que assumiu depois?
Sim e fiz um ano sabático para isso. O conhecimento que adquiri no mestrado foi importante para as minhas funções, sim, mas sobretudo esse ano ajudou-me a refletir sobre o meu posicionamento profissional. Até chegar a manager era completamente workaholic. Esse ano permitiu-me parar para ver outras coisas, ter experiências que andava a adiar há anos. Quando acabei o mestrado decidi que queria continuar aqui na PwC e voltei. Em algumas situações é muito positivo os profissionais terem tempo para pensar, porque a vida é tão intensa que não temos tempo de refletir no que nos está a acontecer — se estamos a seguir aquele caminho porque é mesmo isso que queremos ou porque estamos a ser empurrados nesse sentido por várias forças.

Quais as qualidades necessárias para se ser boa naquilo que faz?
Inteligência emocional é uma característica muito importante em liderança atualmente, de modo a percebermos quem nos rodeia e tentarmos pôr-nos no lugar das pessoas. Se não a tivermos, não conseguimos ter as pessoas connosco. Também é preciso acreditarmos em nós e no que queremos, lutarmos muito por isso, sermos persistentes e gostarmos muito do que fazemos. Não temos que ser bons em tudo, mas todos somos bons em alguma coisa e é muito importante encontrarmos esses talentos. Sou bastante orientada para resultados e penso que tenho a característica de conseguir levar um grupo de pessoas comigo em direção a um objetivo.

Qual a conquista profissional de que mais se orgulha?
O nível a que o Transaction Services chegou — é o número 1 no mercado nacional, com uma equipa fantástica e muito motivada que integra as pessoas mais experientes na área das transações. Para mim isso foi um enorme orgulho. Quero agora levar este mesmo objetivo para o Management Consulting e acredito que vou conseguir.

E o momento mais difícil que enfrentou?
Não sei se foram momentos difíceis, mas houve alturas em que achava que a promoção podia ter chegado mais rápido e em que demorou mais. Nesses momentos é importante termos a capacidade de nos automotivarmos e sermos resilientes.

“Acho que as mulheres têm uma inteligência emocional e uma intuição mais apuradas. Enquanto gerimos pessoas e clientes isso traz-nos uma mais-valia. Podemos fazer leituras e tomar decisões para resolver questões de forma mais rápida.”

Este ainda é um setor com uma presença masculina muito marcada nas funções de liderança ou há equilíbrio? Como tem a PwC conduzido este processo?
Em toda a empresa talvez até existam mais mulheres, ou então a presença feminina é muito equilibrada, mas quando chegamos a cargos de topo existem mais homens. Estamos a trabalhar para que isto se altere, mas quando as mulheres são mães acabam por fazer opções e, muitas vezes, por prescindir de um nível de responsabilidade maior em prol da vida familiar. No Transaction Services lembro-me de promovermos a diretora uma pessoa que estava há vários meses em licença de maternidade. Foi uma decisão que apoiámos porque ela merecia ser promovida pelo trabalho que fez durante muitos anos, não apenas avaliada pelos últimos meses. Temos mais situações de pessoas que foram promovidas enquanto estavam em licença de maternidade. Tentamos facilitar a flexibilidade de horários para que possa haver uma melhor conciliação com a vida pessoal.

Acha que as mulheres podem trazer alguma mais-valia a esta área específica, a nível de aptidões pessoais?
Completamente! Sempre trabalhei muito com homens e mulheres e penso que o segredo está na diversidade. Mas acho que temos uma inteligência emocional e uma intuição mais apuradas. Enquanto gerimos pessoas e clientes isso traz-nos uma mais-valia. Podemos fazer leituras do que está a acontecer e até tomar decisões para resolver questões de forma mais rápida. Sei que muitas pessoas pensam o contrário, mas tenho observado que as mulheres são mais rápidas na tomada de decisão do que os homens, que por vezes têm as suas agendas. Não serão todas assim, e também conheço muitos homens rápidos a tomar decisões, mas penso que somos mais assertivas de um modo geral.

Como recarrega baterias, quando não está a trabalhar?
Com as minhas filhas, que têm 7 e 10 anos. Mas também gosto muito de viajar e de fazer trekking em montanha, caminhar ao ar livre — ajuda-me a refletir sobre a vida. Vou fazer em breve o Caminho de Santiago e isso vai-me recarregar baterias. Também gosto muito de ler, mas ultimamente não tenho tido muito tempo.

Como resumiria o seu lema profissional ou de gestão?
Costumo dizer às minhas equipas: “Tudo se consegue, nada fica por fazer nesta casa.” Sempre com muita paixão e dedicação.

Que conselho daria a uma jovem profissional que esteja a iniciar carreira nesta área?
Quem está a começar deve olhar muito à volta e beber o máximo de conhecimentos que possa, não se fechar em si própria. Ao longo da carreira isso também é importante, mas ainda mais no início, para nos tornarmos profissionais com mais capacidades. A humildade é uma característica essencial nas pessoas, a capacidade de aprender e saber ouvir os mais velhos e experientes. É importante fazer o equilíbrio entre a vida pessoal e profissional — e quem trabalha comigo sabe que as minhas filhas são prioridade para mim — mas a capacidade de dedicação ao trabalho é essencial. Se não o fizermos em início de carreira vamos fazê-lo quando, aos 50 ou 60 anos? É preciso expormo-nos às situações para podermos evoluir enquanto profissionais e estes primeiros anos são a base que nos ajuda a crescer para outros voos.