Aurélia Sousa: “Sou uma pessoa de pessoas”

Aurélia Sousa, managing director na Accenture Technology e SAP Lead na Accenture Portugal, acredita que na felicidade e motivação das pessoas reside o sucesso da organização e, consequentemente, o seu.

Aurélia Sousa fez toda a sua carreira na Accenture.

Licenciada em Gestão e Organização de Empresas, Aurélia Sousa ingressou na Accenture em 1998 onde desde então trabalha na área de Tecnologias de Informação relacionadas com as áreas de Human Capital Management e o portfolio de soluções SAP. Nesta atividade de “médica de empresas”, esteve alguns anos a trabalhar fora de Portugal, acompanhando projetos e clientes do Lisbon Delivery Center da Accenture. “Estou na Accenture vai fazer 20 anos em julho e continuo a vibrar com o que faço “, garante nesta entrevista à Executiva. Apaixonada por gestão de pessoas, recebeu vários prémios pelo seu desempenho, entre os quais o de “Melhor Gestor de Pessoas”, em 2014.  Aurélia Sousa defende que a procura por talento em TI é um dos maiores desafios que enfrenta.

Como começou a sua atividade profissional e com que objetivos norteou a sua carreira? Licenciei-me em Organização e Gestão de Empresas no ISCTE e tinha como objetivo começar a trabalhar o mais depressa possível, após a conclusão do curso. Sou da zona Oeste, venho de uma família de três irmãos e os meus pais tiveram que se esforçar muito para me permitir vir para Lisboa fazer a licenciatura. A eles, o meu “obrigada”, pois devo-lhes tudo o que sou e o que tenho alcançado. Estava na altura de começar a retribuir. Recordo ter-me candidatado a várias oportunidades, nos mais variados tipos de empresas e indústrias. A consultoria surgiu como uma aparente opção óbvia de saída profissional para o meu curso, apesar de eu na altura não perceber bem o que se fazia neste tipo de trabalho. A senior manager da Accenture que me entrevistou na altura, hoje uma querida amiga, definiu um consultor como sendo um “médico das empresas” que deve estar sempre no auge do seu conhecimento e excelência para “avaliar corretamente as doenças de que as empresas padecem ou podem vir a padecer” e “dar o melhor diagnóstico e tratamento disponível no mercado”. Gostei da definição, passei nas diferentes fases do processo de recrutamento e fui selecionada. Tinha outras opções na altura, nomeadamente na área de auditoria, mas acabei por decidir ingressar na Accenture (então Andersen Consulting). Começou uma nova fase da minha vida e o meu principal objetivo nessa altura era, curiosamente, o mesmo que tenho hoje: ser o melhor possível naquilo que me comprometo a fazer.

Como foi feito o seu percurso dentro da empresa? Ingressei em 1998, ainda a empresa tinha apenas cerca de 500 pessoas em Portugal (hoje conta com mais de 2100). Pensava que iria fazer algo relacionado com a área financeira, uma vez que me tinha especializado nesta área no ano final de curso. No entanto, fui integrada numa área denominada de Change Management, na qual lidávamos com processos de mudança e com a gestão das pessoas nesse contexto. Estive quase dois anos a trabalhar nesta área, até que surgiu a oportunidade de ser inserida num projeto de implementação do sistema SAP, para a área de Gestão de Recursos Humanos, no Porto. Como já lidava com a gestão das pessoas, pareceu-me natural dar este passo e aceitei o desafio. Desde então trabalho nas áreas de TI relacionadas quer com a área de Human Capital Management bem como com o portfolio de soluções SAP, para todas as áreas. Foi nesse momento também que iniciei a mobilidade na minha carreira, que depois do Porto se tornou internacional. Estive vários anos a trabalhar fora de Portugal, a acompanhar projetos e clientes para os quais fazemos projetos através do Lisbon Delivery Center da Accenture.

Apaixona-me todos os dias poder aprender, ensinar, ser desafiada e fazer a diferença.

Quais os maiores desafios que enfrenta na sua área? Os desafios na área de TI são vários, mas vou resumi-los em dois principais que derivam nos restantes. O primeiro consiste na constante evolução/transformação/disrupção a que assistimos ao nível das diferentes tecnologias, que exige da nossa parte, como consultores, ter a necessária agilidade, estar em permanente aprendizagem e não só a acompanhar essa evolução mas, a maior parte das vezes, a ajudar os hardware/software providers a definir as tendências e a concretizar em parceria a transformação inerente, ao mesmo tempo que a implementamos no mercado para os nossos clientes. O segundo passa pela captação e retenção do talento, necessárias para enfrentar o primeiro desafio. Num mundo em que a tecnologia faz parte de tudo o que fazemos, as pessoas são quem faz a diferença. Os skills técnicos e funcionais necessários à evolução tecnológica que vivemos estão em constante mutação e adaptação e são necessárias as pessoas para adotarem essa mudança. Para além da qualidade dos skills, também aumentou a quantidade necessária. A procura por talento de TI é também cada vez maior em volume, especialmente em Portugal, dado também ao crescente posicionamento do país no ecossistema de inovação e de startups.

O que mais a apaixona naquilo que faz? É todos os dias poder aprender, ensinar, ser desafiada e fazer a diferença. Estou na Accenture vai fazer 20 anos em julho e continuo a vibrar com o que faço e com as inúmeras possibilidades que tenho para trazer a excelência do que fazemos na Accenture aos nossos clientes e ao mundo.

Flexibilizar-se e mudar não é uma opção, é uma necessidade.

As empresas estão preparadas para acompanhar as rápidas mudanças do universo digital e o impacto que elas terão nos negócios, nos seus colaboradores e na vida das pessoas? A maior parte das empresas não está ainda preparada para acompanhar toda a mudança necessária. A transformação digital com a agilidade que é necessária obriga a que a empresa tenha que transformar o seu negócio, o seu modelo operativo, muitas vezes adaptando a sua cultura. Existe, no entanto, neste momento, uma maior consciência e aceitação da necessidade da transformação digital, o que é definitivamente o primeiro passo fundamental para uma empresa se começar a preparar. Grande parte do trabalho em que estou envolvida neste momento com os nossos clientes versa exatamente sobre essa fase de preparação e avaliação das mudanças digitais necessárias para o seu negócio e o desenho do caminho mais adequado para as efetivar. É fundamental que as empresas tomem efetivamente consciência que as tendências tecnológicas preveem que estejamos só no início destas mudanças e que o facto de cada vez interagirmos mais digitalmente com os nossos clientes, colaboradores, fornecedores, etc. está a transformar a vida das pessoas e como estas interagem de volta com as empresas. É um ciclo que está a levar a uma reciprocidade cada vez maior entre a forma como uma empresa disponibiliza os seus produtos e serviços e como as pessoas o consomem, imprimindo o seu cunho pessoal. As empresas, desta forma, cada vez sabem mais sobre as pessoas, podendo estar em constante adaptação dos seus produtos e serviços e assim sucessivamente. Flexibilizar-se e mudar não é uma opção, é uma necessidade.

Que competências e características considera cruciais para se ser boa na sua função? Para desempenhar bem a minha função é necessário ser-se um bom líder. A minha atividade está totalmente alinhada com as áreas de TI mas é feita por pessoas pelo que é essencial ser-se líder, capaz de dar o exemplo e mobilizar as equipas na direção da estratégia da empresa. Uma competência basilar é ter carácter. Outra é ter características pessoais diferenciadoras, na sua área técnica, na vertente da inovação e é absolutamente necessário estar disponível para aprender e fazê-lo todos os dias. Adicionalmente, é ser orientado aos resultados e focado. A capacidade de liderar a mudança, definindo uma visão e perspetiva estratégica para o meu negócio é naturalmente também crítico. Por fim, na minha função é também fundamental desenvolver relações com as pessoas, clientes e parceiros, comunicando frequentemente, inspirando e motivando os outros, para construir relações com base na confiança. Para mim as relações são assentes na confiança e esta é sempre o meu pressuposto base em qualquer relação, profissional ou pessoal.

Tenho os meus momentos de reflexão diários, sozinha para respirar fundo, organizar as ideias, redefinir prioridades e recomeçar.

Que atitudes ou hábitos diários acredita que têm contribuído para o seu sucesso? Acredito ser fundamental manter a autenticidade e ser verdadeiramente humano, sem filtros. Sou uma pessoa simples com valores fortes, ligada à terra, que gosta de desfrutar de momentos e sensações. Manter a minha individualidade, apesar de ter uma relação excelente e muito cúmplice com o meu marido que amo. Ter os meus momentos de reflexão diários, tenho sempre nem que seja 10 minutos por dia sozinha para respirar fundo, organizar as ideias, redefinir prioridades e recomeçar. Saber integrar a vida pessoal com a profissional, pondo limites em ambas. Não tenho notificações de redes sociais nem direct push do email no smartphone, por exemplo, apesar de ser grande utilizadora de ambos, pelo que, quando estou nos momentos fora do trabalho, estou focada na minha vida pessoal e escolho os momentos em que quero trabalhar, e vice-versa. Outra atitude que considero fundamental é dar tempo às pessoas que me procuram como uma prioridade, a nível profissional e pessoal. A minha função é gerir pessoas pelo que acredito que na sua felicidade e motivação reside o sucesso da organização e, consequentemente, o meu.

Que conselho daria a uma jovem executiva prestes a iniciar a sua atividade profissional? O meu conselho é que, primeiro, seja resiliente: depois de identificar as empresas e funções em que admitiria trabalhar, fazer por ser aceite numa com esse perfil. Depois confiar, confiar na estrutura em que for inserida, nas suas chefias e procurar um role model na empresa com quem possa aprender. Estar disponível para aprender, aprender, aprender e ter a iniciativa para o fazer. A partir de aí, dar o seu melhor em tudo o que fizer, sem questionar. E claro, ser autêntica.

Procuro pessoas que tenham valores como honestidade, transparência, vontade de aprender, empenho, que confiem e que sejam audazes.

Que competências e atributos procura ou mais valoriza nas pessoas que trabalham na sua equipa? Procuro pessoas que tenham valores como honestidade, transparência, vontade de aprender, empenho, que confiem e que sejam audazes, sendo capazes de sair da sua zona de conforto, assumir compromissos e tomar decisões. Procuro perfis de líderes, mesmo que ainda não tenham esse titulo no nível em que está a sua função. É claro que temos um conjunto de competências técnicas que buscamos na seleção de CV para cada posição mas são as características interpessoais que acabam por ser absolutamente diferenciadoras e que definem o ADN a longo prazo da equipa que procuro gerir.

Os valores e características pessoais serão sempre o diferenciador de um colaborador

Na sua visão, como será o colaborador do futuro? Acredito que os valores e características pessoais serão sempre o diferenciador de um colaborador. É claro que não podemos descurar a evolução geracional e a evolução tecnológica e as características que daí advêm. O colaborador do futuro terá que se diferenciar ainda mais pela sua capacidade de adaptação, flexibilidade, aprendizagem constante e abertura de espírito para usar o mais possível os recursos ao seu redor (as outras pessoas, a realidade estendida, a inteligência artificial, a internet das coisas e dos ambientes que nos rodeiam). O colaborador do futuro trabalha em modelos de trabalho flexível, tem que ter um propósito para o seu trabalho que não apenas o vencimento, é móvel na total assunção da palavra podendo trabalhar a partir de qualquer lugar e vai ter que ser muito disciplinado. A tecnologia vai viabilizar todas estas características e parte da cada um utilizar isso a seu favor, para exponenciar o seu trabalho e não deixar que seja atropelado pela avalanche de solicitações e informação com que vai ser confrontado, em todos os interfaces com que vai interagir.

E como será o líder do futuro? Um líder é um líder. Se mantiver as características que descrevi anteriormente assegurando que está aberto a novas formas de trabalhar e a novos recursos à sua volta, vai continuar a ser excelente.

Tem ganho vários prémios ao longo da sua carreira, como a melhor gestora de pessoas. O que a catapultou para esse ponto e o que representam para si? Costumo dizer que sou uma pessoa de pessoas. Os prémios deixam-me orgulhosa e, para mim, são valiosos apenas porque representam acima de tudo o reconhecimento por parte das pessoas da equipa. Esse é o meu maior prémio. Sentir que faço a diferença no dia a dia de um coletivo de pessoas, que se sentem felizes e motivadas em trabalhar comigo, que dão o seu melhor o que, consequentemente, se reflete nos resultados dos nossos clientes e da Accenture. O meu agradecimento vai para elas, como também a minha promessa de continuar todos os dias a dar o meu melhor nesta função.