É sempre tarde demais

Adoro estas manhãs calmas de agosto. Passamos o ano inteiro a fazer tudo à pressa, ainda assim com tempo para apressar os nossos filhos. Despachem-se, despachem-se, DESPACHEM-SE! Estamos atrasados, para a escola, para a natação, para o jantar, para a cama. JÁ PARA A CAMA! Lemos a história à pressa, com apenas um porquinho com uma mísera casa de palha, que o lobo derruba com apenas um sopro. A Cinderela tranforma-se em abóbora antes da 22h e o sapato há-de caber à primeira irmã que o princípe encontrar. E, já na nossa própria cama, lá arranjamos tempo para aquele sentimento de culpa que nos invade e ao qual nos rendemos com promessas falsas de abrandar pela manhã. Sempre achei que as crianças não percebiam bem esta história da pressa. Quanto mais pressa temos, mais lentos são. Não cedem à nossa expressão impaciente, continuam a falar como se tivessem todo o tempo do mundo – que na verdade ainda têm, e nós não.
Sempre achei que as crianças não viviam no nosso tempo, e  hoje de manhã tive a certeza, quando me debrucei para dar um beijo à minha filha, dizendo que estava atrasada para o trabalho.
– Mãe, já agora, o que é mesmo isso de estar atrasada?
A explicação, essa já vem tarde também.