Vou partir (d)isto tudo

Estão a ver aquela senhora ali, que tecla furiosamente como se fosse um cão a cavar um buraco com as patas de trás?
E aquele que assina os e-mails pessoais com um fatela ‘abreijos’?
 A estagiária que almoça todos os dias à secretária salada de quinoa e que mais vale enfiar-me a chalota diretamente no nariz tal é o cheiro que fica no open space.
Vou partir isto tudo.
A secretária do chefe, tão vazia como a sua cabeça, e que ele gosta de ostentar como um exemplo de organização.
A outra secretária do chefe, humanamente desumana, que vai distribuindo segredos consoante os aliados que quer recrutar a cada semana.
E o colega do lado, com a gadelha a tapar-lhe os auscultadores e que me obriga a repetir 11 vezes as palavras inconvenientes que lhe dirijo.
Vou partir isto tudo.
Vou partir as unhas de gel desta, vou emaranhar o impecável brushing semanal daquela, vou enfiar um naco de cabrito pela boca adentro da ovolactovegeratariana que mastiga estagiários indefesos ao pequeno almoço – inclusive a chalota.
Estes os sentimentos a que me permito 24 horas antes de ir de férias, como o maratonista que só aceita acolher algum cansaço a 100 metros da meta.
Vou partir disto tudo.
E depois vou voltar, com o meu melhor sorriso, aquele que a loira platinada da frente ameaçou ainda a semana passada, mesmo antes de ser engolida pelos tubarões da Quinta do Lago.