A Netflix e o casal morto-vivo

Já lá vai o tempo em que esperávamos uma semana pelo novo episódio de ‘Modelo e Detective’, e nos contentávamos com aquele quase romance entre Bruce Willis e Cybill Shepherd, ou que ficávamos em casa para ver o final da novela ‘Guerra dos Sexos’. A não ser as notícias, que ouço na cozinha enquanto a quinoa está ao lume, não vejo televisão em tempo real. Primeiro graças às gravações automáticas, que nos permitem andar sete dias para trás sem a preocupação de ‘pôr a gravar’. Mais recentemente, devido ao fenómeno Netflix, que nos oferece a possibilidade de devorar temporadas inteiras numa só noite, numa ameaça sem precedentes à lealdade conjugal.

No passado havia uma coisa chamada fidelidade televisiva, em que marido e mulher faziam promessas de esperar um pelo o outro para ver o momento em que aconteceu Ted Mosby declarar-se a Robin. Isso acabou. No início é tudo lindo, o primeiro episódio visto na harmonia de um único tablet, ombro com ombro, entre risos ou lágrimas bem sintonizados. Mas depois vem a sonolência de um e a insónia de outro, o primeiro perde o pé e fica a cinco episódios de saber se o Harvey Specter conseguiu ou não safar o Mike Ross da prisão. Ou se Doggett sempre se vingou do guarda que a violou. E é aqui que, lado a lado e até mesmo de mãos dadas, um fica aprisionado em Litchfield e outro parte em defesa da segurança nacional, e se dá início ao processo de divórcio televisivo, com poucos argumentos a favor do romance na vida real. Better call Saul…