Não ganhei o Euromilhões e ainda bem

– Mãe e pai, o que faziam se ganhassem o Euromilhões?

No silêncio das nossas respostas, parece-me tê-lo ouvido dizer “uma volta ao mundo de barco à vela” enquanto interiormente eu murmurava “uma casa em U”. Não me lembro se chegámos a responder oficialmente mas fiquei clandestinamente a pensar no assunto. E se eu ganhasse mesmo o Euromilhões? Melhor, e se nós ganhássemos mesmo o Euromilhões? De excêntrica tenho pouco, não sou de fazer muitas ondas e enquanto para mim chegava-me uma casinha em U ao pé do mar, ele largava tudo e partia por esse mar afora. Fiz a mesma pergunta a vários casais e logo a discussão se instalava. Que irmãos ajudar? Pagar o empréstimo da casa ao banco? Ter mais 10 filhos? Ir de férias para onde? Decidir a dois entre o litoral alentejano e o Algarve já não é fácil, imaginem se na equação entrar o resto do mundo. Por alguma razão, os votos do casamento não exigem que os casais fiquem juntos na pobreza e na riqueza, até porque a nossa sorte pertence à Santa Casa. Perguntei aos meus pais qual seria a primeira coisa que fariam se ficassem multimilionários e eles não hesitaram.
– Comprávamos um frigorífico americano.
O amor é lindo. O que me leva a refletir na frase “sorte no amor, azar ao jogo” e como ela reduz aos mínimos as probabilidades de os casais felizes ganharem o Euromilhões. Lá se vai a minha casa à beira-mar. Mas ao menos o meu amor ficará em terra.