Mickey com feições de Darth Vader

O bolo estava bonito. Não é mentira nenhuma. Foi por essa razão que o partilhei no Facebook, tão orgulhosa estava. Mesmo tendo a foto beneficiado daqueles filtros que agora se usam para manipular imagens e opiniões. Eu fiz aquele bolo. Não é mentira nenhuma. E mereci todas as centenas de likes a que tive direito.
As coisas só começaram a fugir à verdade a partir do quinto comentário. O ‘parabéns’, o ‘lindo!”, o ‘está top!”, todos eles certíssimos.
– “Tens umas mãos de fada.”
Alto e para o baile! Denunciar comentário. Foi aqui que me comecei a sentir desconfortável. O post mostrava um bolo bonito, ponto. Mas ‘mãos de fada’ já é pura especulação. A fotografia era apenas o resultado final de um processo doloroso e atribulado. Eu teria uma mãos de fada se as fadas tivessem duas tábuas incapazes de espalhar uma cobertura de açúcar glacê de forma homogênea.
Não sou fada nenhuma. Sou é muito persistente. Aquela imagem que partilhei no Facebook não valia por mil palavras pois omitia muitas frases e interjeições. O que aconteceu antes não foi apanhado nas malhas da rede social mas foi bem real: o bolo que nunca solidificou e virou mousse, o Mickey em pasta de açúcar com feições de Darth Vader e o creme de manteiga que jamais dará flor. O que eu disse na noite que antecedeu a festa de aniversário, nenhuma fada ousaria reproduzir.
O bolo que partilhei no Facebook estava bonito. É a única verdade irrefutável. Que fui eu que fiz e que estava realmente bom, já sou eu a pedir que depositem fé nas minhas palavras.  Agora afirmar que tenho mãos de fada é o mesmo que dizer que um jogo foi canja perante uma vitória conquistada já em fase de pénaltis. O bolo que partilhei no Facebook era uma imagem estática, silenciosa e sem história. Diz tanto de mim quanto de um casal diz uma foto que o apanhou a sorrir no intervalo de uma discussão.