Medo, eu tenho!

Tenho medo do escuro. Sim tenho medo do escuro, odeio garagens à noite e desconfio sempre que alguém se esconde atrás da cortina da banheira. Tantos anos a disfarçar estes meus medos para se revelarem tão insignificantes à luz daqueles que me assombram agora: medo do que possa acontecer aos meus filhos, medo do que que vai acontecer aos meus pais ou de descobrir um nódulo no peito. Mas mais medo tenho ainda de não saber lidar com estes meus medos.

Lembro-me das primeiras férias depois de ter filhos. A viagem de carro para o Algarve, as estatísticas de acidentes a circular tão descontroladamente no meu cérebro como as hormonas pós-parto. A criança sempre de braçadeiras, não fosse uma piscina aparecer de repente. E o casaquinho. Qual dinheiro, qual carapuça! O casaquinho deve ser a razão número um das discussões entre um casal com filhos. À mínima brisa, o meu coração frágil de mãe disparava um casaquinho polar e nem o vento suão afastava o barrete, sempre pronto a enfiar no bebé à mercê de uma mãe com medo. E o capacete era para manter, não fosse um metereorito desintegrar-se em cima da moleirinha ainda por fechar.

Hoje fujo das manchetes de terror do Correio da Manhã (e da política nacional, não menos assustadora) e de filmes e livros com crianças, idosos e animais em sofrimento. De uma das minhas colegas, uma espécie de ave agoirenta profissional, é que me é mais difícil escapar.

– Viste aquela notícia da mulher que abandonou os filhos e depois…

– Não me contes, não quero saber.

Ela encolhe os ombros.

– Está bem, podemos falar de assuntos inofensivos como o regresso dos sapatos kitten heels?

MEEEEEEEEDO