A empresa Kardashian (ou disfuncional)

Lembro-me perfeitamente do dia em que o meu diretor me informou que eu iria passar para os quadros da empresa. Não pelo que isso significava em termos profissionais. Afinal, tinha passado o teste do estágio, tinham gostado do meu trabalho e estavam dispostos a apostar em mim. Mas mais pelo que significava a um nível completamente diferente, do ponto de vista de pertença. Estava feliz por sentir que ia fazer parte daquela equipa, a quem já me tinha afeiçoado. Numa altura em que muitas empresas sofrem reestruturações, penso que o que outrora fez a minha felicidade está agora na origem da tristeza das pessoas que deixam as suas equipas ao fim de 20 anos. Autênticas famílias italianas, com os seus problemas, com as suas quezílias, mas, ainda assim, com as relações de confiança, segurança, conforto e bem estar que é suposto caracterizar as unidades familiares.
O que digo poderá não fazer muito sentido para quem só recentemente tenha entrado para o tecido empresarial. Muitas famílias organizacionais de hoje são disfuncionais:  as pessoas sentem-se orfãs, desacompanhadas, sentem que a qualquer momento podem ser deserdadas, abandonadas, que é só uma questão de tempo… Não existe respeito pelos familiares mais velhos e sábios, que são reféns de crianças imaturas, caprichosas e prepotentes, a quem foi dado demasiado poder demasiado cedo. A taxa de divórcios é altíssima, a fidelidade não vale nada e não é só de cima para baixo. Os mais novos foram educados nesta nova ‘família’ e aprenderam bem a lição: não investem emocionalmente, não se prendem a nada ou a ninguém.
Ou isso, ou sou eu armada em filha rebelde. Quer dizer, é mais mãe. Ou será avó?