Calem o burro do relógio sff

– Ana, o teu relógio está a apitar, é o alarme?

– Não, é porque hoje só dei 5600 passos.

Não percebo. Se a minha consciência fosse um telefone, garanto-vos que estaria quase sempre em modo de voo. Aquela vozinha que nos persegue dia e noite a dizer que temos de ralhar menos com as crianças, que não nos deixa esquecer a garfada de cheesecake e que todas as manhãs nos que lembra que seria dia de ir ao ginásio… se nós fossemos minimamente disciplinadas. É por isso que eu não percebo como é que alguém está disposto a pagar centenas de euros para dar som a esta vozinha que eu imagino estridente como a daquela amiga chata que já no jardim de infância fazia queixinhas esganiçadas à professora. Se eu fosse a minha amiga Ana, o meu smartwatch já estaria a a apitar porque aquela amiga a quem eu acabei de chamar chata é a mesma que na faculdade me deixava fotocopiar os seus cadernos todos bonitinhos com os seus sublinhados fluorescentes e pontos de ‘i’ em forma de coração. “Ingrata”, apitaria o burro do relógio a quem só dá vontade de arrancar as pilhas.

A minha amiga Ana agora sabe quantos passos dá por dia e se não chegar aos 10 mil lá vai o parvalhão do gadget disparar o que parece uma marcha funébre. É que a preguiçosa da Ana não vai andar mais por ter dado um megafone à sua consciência. Só se vai sentir mais culpada. E como isto está mau, parva seria eu em não aproveitar esta oportunidade de negócio, já lhe disse que lhe posso telefonar de cinco em cinco minutos a chamar-lhe inútil aos berros e ela só tem de ficar um sábado à noite, de quinze em quinze dias, com as crianças.