2003 O debate Cavaco Silva-Silva Lopes

Em Maio de 2003, em plena recessão, houve um debate que juntou Cavaco Silva, então ex-primeiro-ministro, e José Silva Lopes, ex-ministro das Finanças e ex-governador do Banco de Portugal, sobre a crise e os caminhos para retomar o crescimento.

Para Cavaco Silva, que viria depois a ser Presidente da República entre 2005 e 2015, a principal razão para a crise foi o elevado desequilíbrio das contas externas, com um défice acumulado de mais de 30% do PIB no período 1997-2001 e um aumento do endividamento para com o exterior que levaram esta situação de reajuste: “Portugal é hoje um exemplo de como o défice continuado das contas externas é uma restrição ao crescimento económico sustentável de um país, mesmo que ele faça parte de uma união monetária”.

Para Silva Lopes, o grande problema português era “o da competitividade e o das finanças públicas é um problema acessório”, além de que “agora não podemos contar nem com a procura interna nem com a procura externa – pelo que a retoma da economia passa por uma recuperação da balança de bens e serviços”. Mas o problema da competitividade portuguesa mudou de paradigma e tornou-se mais difícil de solucionar porque não se pode usar a política cambial e porque com taxas de inflação baixas é difícil reduzir os salários reais em prazos curtos, tendo como consequência o aumento do desemprego. As propostas de Cavaco Silva eram “uma redução da taxa das contribuições patronais para a segurança social, desde que haja margem de manobra para isso sem pôr em causa a consolidação orçamental exigida pelo Pacto de Estabilidade e como alternativa à redução substancial do IRC”. Para Silva Lopes o problema da competitividade em Portugal residia no aumento dos custos do trabalho acima da produtividade nos últimos cinco anos. Por isso, dizia: “se insistirmos em políticas salariais irrealistas nos sectores protegidos, protegemos uns mas prejudicamos todo o resto da população. Os nossos salários têm de crescer menos que a média da União Europeia, corrigidos da produtividade”, provavelmente dois pontos abaixo dos aumentos médios na Europa, para evitar uma escalada no desemprego[1].

 

[1] Este parágrafo baseou-se na descrição de Nicolau Santos, “A Economia Portuguesa do Divã”, Expresso, 30 de Maio de 2003