2000 Os riscos das dotcom

Um dos projetos estratégicos da governação guterrista era o salto tecnológico, o que coincide com o advento e expansão da internet e da denominada Nova Economia, que, em 1995, se iniciou, nos EUA, como um novo paradigma de acumulação produtivo de crescimento sustentado, sem inflação, e baseado na expansão material das novas tecnologias digitais. Mas, como escreveu Paulo Horta em Nova Economia e Índices de Acções[1], “Os investimentos maciços, nos EUA, em computadores e produtos correlacionados, começaram a fazer sentir o seu efeito a partir de 1995. O aumento na produtividade é evidente, e muito se deve a estes investimentos. Em Portugal, o desempenho da economia não é comparável com o dos EUA, verificando-se inclusive diminuições no crescimento da produtividade nos últimos anos. Contudo, a euforia dos mercados bolsistas, no que respeita às empresas da nova economia, é um fenómeno global, do qual Portugal faz parte. Deste ponto de vista, podemos falar em nova economia em Portugal, apesar da manifesta evidência dos fracos investimentos em novas tecnologias da informação e comunicação. Portugal está na cauda dos países mais desenvolvidos, de acordo com um índice de conectividade, construído levando em consideração o número de habitantes com acesso à internet, o número de computadores pessoais disponíveis, de assinantes de televisão por cabo, de linhas telefónicas e de telefones celulares”.

A euforia na Nova Economia também afectou Portugal. A televisão por cabo ganhava nova importância com a criação de canais de cinema, a SportTV, que fora um passo essencial ao nível dos canais temáticos, permitidos pela nova lei da televisão de 1998, a internet tornava-se um instrumento essencial e a Altavista lançava em Dezembro de 2000 o seu portal em versão portuguesa, demonstrando a importância de Portugal no universo electrónico e da Europa no quadro estratégico dos grandes motores de busca. O modelo de convergência das telecomunicações e dos media, que se ilustrava no acrónimo TMT (Technology, Media and Telecommunications) com a Portugal Telecom a adquirir 100% do capital da Lusomundo da família Bordallo Silva. A empresa de telecomunicações acabaria por vender em 2005 a componente de media (Diário de Notícias, Jornal de Notícias, TSF entre outros) a Joaquim Oliveira da Controlinveste, seu sócio nos canais da SportTV.

Em Fevereiro de 2001, segundo estudo da Dun & Bradstreet tinham sido criadas, desde 1995, 590 dot-com que facturaram 45 milhões de euros, nas áreas de programação e software, web, tecnologias de informação e material electrónico, ‘spin-offs’ de grupos empresariais e subsidiárias de multinacionais na área ‘dot-com’, ‘holdings’ para a Nova Economia e empresas de comunicação, publicidade e media. Mas outros dados reflectiam melhor esta onda eufórica: 48% (282 firmas) foram constituídas no ano 2000, sobretudo de Setembro a Dezembro, já depois do ‘crash’ nas bolsas; 57% não tinham pessoal até final de 2000 (334 firmas sem empregados declarados); 81% (das empresas que declararam quadros de pessoal) são microempresas (de 1 a 10 empregados); o ritmo de constituições disparou em 1997 (mais do dobro das criadas em 1996) e acelerou em 2000. Um grupo de oito empresas já apresentou mais de um milhão de contos de facturação à data da última divulgação de dados registada nesta base de dados (nalguns casos 1998, noutros 1999 ou mesmo 2000) – SAP, Mobifin, Cesce, Whatevernet, Telepac II, Onitelecom, Maxitel e Contactsoft, por grau de importância[2].

Apesar dos ‘crashes’ do NASDAQ norte-americano e da própria Bolsa portuguesa terem decorrido no princípio do segundo trimestre de 2000, ainda se manteve a ideia descrita por Nicolau Santos de que “a Nova Economia funciona com regras diferentes da Velha Economia: as empresas são medidas pelo número dos seus clientes e não pelos seus activos ou pelos seus lucros”[3]. Mas com a falência da Enron em Dezembro de 2001, que fez desaparecer 67 mil milhões de euros dos accionistas, seguiu-se a Woldcom em Julho de 2002 e fez desaparecer mais de 130 mil milhões de euros.

Entrada em vigor da primeira liberalização das telecomunicações fixas, sendo que dez operadores oferecem serviços e baixam tarifas, ficando, todavia, dependentes da Portugal Telecom (Janeiro de 2000). Da euforia de empresas de telecomunicações não ficaram se não as mais fortes tendo ficado pelo caminho projectos como o da Maxitel, o projecto ligado à Ensitel, a Jazztel reconverteu-se em Ar Telecom. O fiasco mais relevante foi da Oniway, em que eram accionistas a ONI, EDP, BCP, Telenor entre outros e que chegou a obter uma das quatro licenças de UMTS – Universal Mobile Telecommunications System. Em 2002 acabou por encerrar com um custo avaliado em mais de 550 milhões de euros.

 

[1] www.cmvm.pt/NR/rdonlyres/A8561BB7…/NovaEconomia.pdf

[2] Jorge Nascimento Rodrigues, “Radiografia da Nova Economia em Portugal”, http://www.janelanaweb.com/reinv/radiografia2.html (consultado em 10 de Setembro de 2009)

[3] Nicolau Santos, “Os riscos da Nova Economia”, Expresso, 25 de Março de 2000, Pág.3