Há alguém mais imperfeita do que eu?

– Mãe, o que estás a ler?
– A bula do Benuron.
– Porquê?
Olha, porque estou farta que me digam o que devo fazer. De livros que estão constantemente a dar-me ordens, a lembrar-me o quanto estou longe da perfeição.
Não levante a voz com os seus filhos ou eles ficarão traumatizados para todo o sempre (da última vez que levei esta regra ao limite, um carro telecomandado partiu-me um dedo do pé).
Não diga ao seu marido “tu és um desarrumado de primeira”, mas antes “sinto que esta casa está um pouco desordenada” (sinto muito, mas já testei e ele perguntou se eu me estava a sentir bem).
Para uma performance olímpica debaixo dos lençóis, diga ao seu marido exatamente onde fica (credo, é assim tão difícil de encontrar? E com a senhora do GPS ao barulho já não é considerado uma multidão?)
Para um corpo de verão, faça três mortais encarpados à retaguarda de manhã ao mesmo tempo que bebe um sumo de beterraba com uma colher de café de spirulina. À hora do almoço, deixe o carro no Parque das Nações, corra até Alcochete (nada de enguias fritas!) e volte, sem que a humidade leve a melhor do seu cabelo. Beba um litro e meio de água todos os dias e tente trabalhar nos intervalos em que não está na casa de banho.
Nem Marcelo Rebelo de Sousa era capaz de tanto num só dia!
– Mãe, aqui na bula do Benuron diz que não podes beber álcool durante o tratamento, porque pode aumentar a toxicidade do paracetamol no fígado.
– Sim, querido, vou só acabar este restinho de tinto, há muitas pessoas a morrer sóbrias no mundo, não devemos desperdiçar.
Vá lá Dr. Daniel Sampaio, uma mentirinha nunca fez mal a ninguém.