Zamora e Tordesilhas: férias de inverno em terras de tratados históricos

 

Ponte sobre o Rio Douro em Zamora.

Os moinhos de água do Douro eram, noutros tempos, uma das principais fontes de receita da cidade.

Depois da azáfama dos últimos meses do ano, gostamos sempre de dar um pequeno passeio que englobou, este ano, terras do país vizinho. Numa viagem por Zamora e Tordesilhas, lugares onde se assinaram tratados importantes para a história de Portugal, não hesitámos em demandar Rueda, à procura de saber algo mais sobre a região dos brancos da casta Verdejo. E foi assim que me encontrei, numa das primeiras quartas-feiras de Janeiro deste ano, em visita às Bodegas do Grupo Yllera. Foi um mero acaso, já que estávamos a caminhos de Tordesilhas, depois de termos batido com o nariz na porta nas adegas Protos e José Pariente, quando passámos à frente das instalações. Para a frustração não ser completa, decidimos voltar para trás só para ver se tínhamos sorte dessa vez. Estávamos a começar a deambular por entre garrafas da sua loja de vinhos, quando chega Letícia, guia da empresa, e perguntou quem tinha reservado a visita, o que demonstra que por vezes é preciso insistir para se conseguir alguma coisa.

Vinhos e mitologia grega

Confiante que não nos ia dizer que não, perguntei-lhe se nos podíamos juntar. Com ar de quem tinha algum receio de nos chocar, respondeu-nos que sim, mas que a visita custava 13 euros por cabeça e duraria 2h30. Percebi os seus receios, dado que português não gosta de comer às horas dos espanhóis e já eram 11. Mas estávamos ali para isso mesmo, para visitar pelo menos uma adega de Rueda.

No Labirinto do Minotauro criado pelas Caves Yllera nos subterrâneos de Rueda.

Lá fomos, com os outros, atrás de Letícia, para saber algo mais sobre esta empresa da Região de Rueda, a pátria da casta branca Verdejo. Em boa hora o fizemos, pois todos aprendemos como se faz vinho na região, a história da casa e alguma coisa sobre os seus produtos. Depois, a visita englobou um passeio num percurso subterrâneo a antigas adegas locais, unidas pela empresa para criar um itinerário temático relacionado com o labirinto do Minotauro, em Creta, “O Fio de Ariana”. Enriquecidos com um pouco de mitologia grega, demandámos Tordesilhas, pois a necessidade de almoço apertava.

Uns poucos quilómetros de estrada depois, entrámos encaminhados pela guia, no restaurante El Torreón para o repasto. Uma bela cerveja, com a temperatura e a espuma certas, na companhia de vários tipos de pão e batata frita ajudaram a acalmar a vontade de comer. Mas foi o queijo grelhado com doce de pimento que avivou o palato para o que veio a seguir, uma paleta de cordero lechal (Cordeiro de leite) muito bem grelhada, que só pecou por ser pouca.

Um pulo a Touro

Retemperadas as forças, demos o indispensável passeio pela pequena urbe de beira do Douro, porque é preciso deambular a pé para se conhecer bem os sítios e as suas pessoas. Fomos até à casa onde foi assinado o acordo de 1494 entre os reinos de Portugal e de Castela, destinado a dividir as terras descobertas fora da Europa, um dos muitos que cortaram e cozeram o nosso planeta até aos dias de hoje, tantas vezes quantas as ambições e interesses de seres humanos nas diversas eras.

A Casa do Tratado de Tordesilhas

Pela noite, e depois de termos dado um pulo a Toro para usufruir de mais uma vista surpreendente sobre o rio Douro e darmos uma volta explicada à Igreja de Santa Maria Maior, demandámos Zamora, terra onde foi assinado o tratado que originou a criação do reino de Portugal, em 5 de Janeiro de 1143, com passagem de D. Afonso Henriques a monarca. Era a cidade escolhida para pernoita.

Alcazar de Toro, com o rio Douro aos pés.

Depois de estacionado o carro no hotel Zenit dos Infantas, onde ficámos por ter, ao lado, uma artéria pedonal apontada ao centro da zona velha cidade, fomos fazer o primeiro passeio até à sua Sé, cuja visita estava marcada para o dia seguinte, integrada em passeio turístico em espanhol marcado para as 11h da manhã na Praça Viriato, chefe lusitano que andou a chegar a roupa ao pêlo dos romanos até ser traído, por dinheiro, por dois dos seus braços direitos.

As árvores unem os ramos num dos palcos das festas de Zamora, a Praça de Viriato.

O museu etnográfico

Como ainda era uma hora perfeitamente normal para visitas, pelo menos ali, onde os museus e monumentos fecham às 21h, ou quase, não resistimos a entrar no Museu Etnográfico. Perdemo-nos entre as suas paredes durante mais de duas horas, não só pelo material exposto, mas também pelas histórias contadas nos ecrãs espalhados nas diversas salas. Foi assim que aprendemos a fazer uma barrica de carvalho para vinho, com um artesão de Nava de Rey, e andámos com um rebanho de mil ovelhas em transumância para terras de pastos viçosos, atravessando caminhos, estradas, vias rápidas e mesmo uma cidade em terras de Espanha. Extenuados de tanto exercício feito com os olhos, fomos “pinchar” queijo zamorano de ovelha e revueltos com gambas, que estavam de repetir, na Cerveceria Plaza Mayor, na companhia de vinho de Rueda, como não podia deixar de ser. Depois fomos para o La Sal, para terminar, porque não se pode comer tudo no mesmo sítio, pois parece mal. Um prato de paleta porco de ibérico, e alguns petiscos depois, ficámos preparados para resistir ao frio e integrar o passeio da noite das gentes de Zamora. E lá fomos.

Pinchos e branco de Rueda no El Sal, em Zamora.

 

A visitar:

Bodegas Grupo Yllera

Apesar de ter tido a sorte de estar lá quando se iniciou a visita, aconselho marcar antes de lá ir. É mais prudente.

Morada: Autovia A-6 Madrid-Corunha, Km. 173,5, Rueda

Tel.: +34 983 868 097

 

Onde dormir:

 Hotel Zenit Dos Infantas

Quartos calmos e confortáveis no centro da cidade com boa relação qualidade/preço.

Morada: Calle Cortinas de San Miguel, 3, Zamora

Tel.: +34 980 509 898

 

Para petiscar:

Cervecería Plaza Mayor

Um bom sítio para uma paragem descontraída para petiscar, com bom vinho de Rueda a copo. Destaque para o revuelto de gambas.

Morada: Calle Renova, 1, Zamora,

Tel.: +34 980 53 66 07

 

La Sal

Uma boa oferta de petiscos, em casa concorrida, com pessoal simpático. Vinho servido nos copos e a temperaturas certos, com paleta de ibéricos e queijos zamoranos de qualidade.

Morada: Calle Herreros, 33, Zamora

Tel.: +34 615 632 336

 

Para comer:

Restaurante El Torreon

Uma boa oferta de grelha, mais algumas sugestões de entradas para desfrutar e uma equipa simpática e eficiente a servir.

Morada: Av. Burgos-Portugal, 11, Tordesilhas

Tel.: +34 983 770 123

 

Para ver:

Vale a pena percorrer toda a zona velha da cidade de Zamora, e sentir um pouco o seu pulsar. Destaco os seus miradouros sobre o rio, a Catedral, com as suas diversas exposições, o Museu Etnográfico de Castela e Leão e a Fundação Baltasar Lobo.

Em Toro, há que ir a horas de ver a sua praça de touros, obra única integrada na paisagem urbana, observar as vistas de rio, visitar a Igreja de Santa Maria Mayor e fazer uma paragem num dos bares para um pincho com um tinto da região.

A Casa do Tratado em Tordesilhas, apesar do seu significado histórico, não tem nada de especial, pelo menos aparentemente, em termos de arquitectura. Uma exposição de maquetes de edifícios históricos e outra, de um artesão da cidade, contribuíram para uma visita mais demorada ao espaço. Também aqui vale a pena percorrer o casco antigo.