Um passeio pela raia

Foi num fim-de-semana qualquer, ainda Inverno, quando fui até terras de Portalegre, para uma viagem de redescoberta bem tentadora para os sentidos.

O objetivo principal era conhecer o hotel Cabeças do Reguengo, do meu colega e amigo João Afonso, para uma jornada à mesa com um cozido de ossos na companhia de diversos vinhos que produz, no local, com uvas suas e de pequenos produtores em volta da propriedade.

A sala do hotel Cabeças do Reguengo.

Na sala elegante e acolhedora do hotel, foram acompanhados inicialmente com exemplares de fumeiro e paleta de porco ibérico, e depois com o dito cozido de ossos, que se mostrou apropriado para os vinhos e saboroso e leve qb para não pesar num sono, que só deve ser calmo naquele ambiente campestre.

O cozido de ossos na mesa do Cabeças do Reguengo.

Salientaram-se, para mim, o espumante Respira 2010, pela complexidade de aromas, estrutura e elegância, e o Solstício 2013, um tinto com personalidade, diferente, feito de vinhas velhas de produtores situados em volta da propriedade, condicionadas pelo ambiente fresco da Serra de S. Mamede. “Algumas produzem apenas três a quatro cachos, e têm um gosto completamente distinto”, explica João Afonso.

Espumante Respiro 2010 devidamente agasalhado pelo frio.

À procura de presunto

Com espírito irrequieto, e dada a proximidade de vários sítios aliciantes à volta, aproveitámos a manhã desse dia para um périplo que começou, em Espanha, na cidade de Albuquerque, com o fito principal de comprar presunto El Risco Extremeño, que gosto e não consigo encontrar em mais lado nenhum, a não ser que o encomende inteiro. Isso seria um desperdício, dada a minha ineficiência como cortador.

Como habitual, de cada vez que lá vou, entrei na mercearia esconsa e desarrumada de Albuquerque, onde se vende o dito, e lá comprei quatrocentos gramas de paleta, que aprecio mais, a um preço muito mais baixo que em Portugal. Por recomendação demandei também a casa Maldonado, mais reconhecida pelo mercado e, por isso, de preço muito mais caro, e lá comprámos mais uma fatias de presunto embalado em vácuo, por um “preço que não conseguiria encontrar, nem no El Corte Inglés”, segundo a pouco simpática pessoa que nos recebeu, aparentemente mais uma escriturária do que uma vendedora.

Porta gótica em Albuquerque, Espanha.

A verdade é que a prova dos exemplares das duas marcas me deu prazer semelhante, e nada senti que distinguisse a sua qualidade. Mas talvez seja apenas falta de capacidade minha para isso.

Um borrego apimentado

Depois de deambularmos mais um pouco por terras de Albuquerque, pusemos rodas ao caminho em demanda de Marvão, o nosso segundo destino desse dia, com passagem pela Portagem para almoço no restaurante Sever.

À beira do rio Sever, na Portagem.

Do lado de Espanha, o dia limpo deixou ver uma paisagem inóspita, aqui e ali rochosa, habitada sobretudo por gado ovino, bovino e porco ibérico. No restaurante, onde fomos por indicação de José Silva, colega de profissão e uma enciclopédia de lugares de bem comer em Portugal, saboreei, a dois, uma perna de borrego assada no forno, bem apimentada, na companhia de castanhas, grelos tenros e saborosos e batata assada. Uma delícia na companhia de um Pedra Basta 2013, um tinto da região de aroma complexo, fresco, onde se salientam notas de frutos maduros depois de algum tempo no copo.

A perna de borrego assada.

Depois de uma fotos no rio Sever, fomos até Marvão para uma visita de médico, dado a povoação estar coberta por um nevoeiro pouco simpático, que dificultava as vistas e esfriava o ambiente.

Optámos antes por visitar a cidade romana de Ammaia, em São Salvador da Aramenha, e em boa hora o fizemos. Após a visita ao pequeno museu, foi agradável deambular entre a natureza daquele local, à descoberta das ruinas e vestígios de uma cidade outrora cheia de vida.

O esplendor da antiga cidade romana de Ammaia, em São Salvador da Aramenha.

Fim de dia em Castelo de Vide

Para o final da tarde, foi tempo de descoberta de Castelo de Vide, dentro e fora das muralhas, com direito a perder-nos no labirinto de ruas. Depois de percorrermos, de fio a pavio, a pequena parte da urbe confinada intramuros, com a calma que o lugar merece, e quase de saída, o senhor que seguia à nossa frente a passear o cão volta-se para nós, e pergunta: “Não querem ver o castelo?”.

Um recanto da muralha de Castelo de Vide.

Nós já tínhamos tentado, mas as portas estavam fechadas, mesmo quando o horário afirmava que deveriam estar abertas. Era, afinal, o guarda do castelo, e abriu-nos as da entrada e, depois delas, o acesso à escadaria da torre e o acesso à vista sobre Castelo de Vide de final da tarde. Valeu a pena, como vale sempre a pena a visita a lugares únicos do nosso planeta. Como o tempo foi pouco, tenho de lá voltar.

Vista das muralhas de Castelo de Vide.