Não perguntes a uma mãe como é que ela está. Pergunta se há alguma coisa que podes fazer por ela.

Escrevo este texto às dez da noite. Ao meu lado, o Frederico dorme tranquilo no seu berço. O meu marido está numa conferência e eu aproveito estes minutos de silêncio para escrever.
Hoje, fui a duas consultas, passei na biblioteca para irmos a uma sessão de música para bebés, fui buscar uma limonada de matcha antes de passearmos pelo parque, fiz sopa, treinei 12 minutos e dei banho ao Frederico. Isto, a dar de mamar em exclusivo, a brincar e a dar todo o colo merecido.
E se me perguntam como é que estou, sabem o que respondo? Que “Estou bem!” ou que “Está tudo bem!” porque na verdade o que há para não estar? O “Como é que estás?” é aquela pergunta que nem sequer precisa de uma resposta, porque não há outra resposta possível a não ser a afirmativa. A exaustão é invisível e nunca se vai descobrir por uma sms.
Também eu sou apanhada nesta banalidade e faço esta pergunta com o mesmo intuito com que a fazem a mim: de esperar ler que está tudo bem e não pensar mais no assunto. Mas desde que fui mãe que tenha outra percepção e, talvez os últimos dias, me tenham feito reflectir sobre esta questão. As mães vão sempre dizer que estão bem. Porque elas precisam de estar bem para que os bebés estejam bem. E se os bebés estão bem, então nem sequer se pondera outra resposta se não o “está tudo bem!”. Deve ser uma espécie de super-poder que também eu estou agora a descobrir!

As mães não precisam que lhes perguntem se “está tudo bem”. Precisam de conversar com adultos e de ter o jantar feito. Precisam que lhes arrumem a cozinha e lhes façam companhia, que se preocupem com elas, que venham ajudar ao final do dia e que lhes mostrem que não estão sozinhas. Precisam que lhes perguntem se há alguma coisa que possam fazer por elas, mesmo quando dizem que “está tudo bem!”.

p.s – as mães também precisam de saber pedir ajuda, mas este tema, fica para outro dia!
Ana Cadete @ncscientist é cientista em Boston. Doutorada em Nanomedicina e Inovação Farmacêutica, foi viver para os EUA em 2016 para fazer o seu postdoc no MIT. É atualmente Project Leader na área de produção de vacinas de RNA mensageiro no mRNA Center of Excellence da Sanofi e a fundadora da The Non-Conformist Scientist (NCS), uma associação sem fins lucrativos que tem como objetivos partilhar conhecimento científico a nível global, impulsionar a carreira dos cientistas e motivar mais mulheres na ciência a serem líderes. 
Leia mais artigos de Ana Cadete.
Publicado a 07 Junho 2024

Partilhar Artigo

Parceiros Premium
Parceiros