Dias de Creta: a ilha dos leprosos e o Palácio do Minotauro

Texto e fotos: José Miguel Dentinho

 

É difícil imaginar coisa que mais me dê prazer do que provar vinhos ao final de um dia venturoso e extenuante, no bom sentido, na companhia de alguns queijos de sabores e aromas diversos, num lugar de temperatura morna, rodeado de vinhas. Foi isso que aconteceu naquele dia em Creta, após uma visita à surpreendente e cheia de histórias ilha de Spinalonga, uma paragem para repasto de sabores gregos no Gioma Meze, em Agios Nikolaos, e uma visita ao Palácio de Knossos, com mais umas centenas de turistas, porque tinha de ser.

Spinalonga

Nos caminhos de Spinalonga, há sempre bons motivos para mais uma foto.

Primeiro, foram as habituais duas horas e qualquer coisa de automóvel até lá, desde o nosso poiso, em Agia Pelagia. No final do percurso, uma estrada íngreme, que parece preparada para ser descida lentamente, de forma a se poder usufruir da vista para o mar, levou-nos até ao cais de Plaka, de onde partimos num dos diversos barcos que fazem a transferência para a ilha.

Dez minutos depois de o nosso ter sido atestado de pessoas, desembarcámos em Spinalonga, para andarmos sobre as suas pedras desencontradas, subirmos e descermos as suas ruinas e descobrirmos o que se passou naquele pedaço de terra até ao dia que lá pusemos os pés, nos escritos de algumas das suas casas parcialmente recuperadas. Uma canseira, como é habitual nas viagens, mas valeu a pena, até porque em cada canto havia sempre algo que nos fazia parar para usufruir das vistas.

É verdade que não estávamos sozinhos, longe disso. O aglomerado de barcos à espera para esvaziar e meter passageiros, e a multidão que pejava o cais na hora do nosso embarque para terra, ajudaram-nos a perceber o aumento da densidade de pessoas na ilha desde que tínhamos saltado da proa da embarcação para terra nessa manhã.

Com apenas 8,5 km2 de superfície e um perímetro que leva apenas 1 hora a percorrer, se se parar muitas vezes para fotos, o que aconteceu, este pedaço de terra firme deve a sua capacidade de atracção principal a ter sido um dos últimos leprosários em actividade na Europa, pois fechou portas apenas em 1957. Habitada há milhares de anos, foi cidade fortificada veneziana, e depois turca, até que os seus habitantes tiveram de sair, na troca de populações que os dois países fizeram no início do século 20, que envolveu cerca de dois milhões de pessoas.

Um navio acima das casas

Agios Nikolaos e as suas lagoas

Os passos seguintes foram dados em Agios Nikolaos. Tinha de lá ir para tirar uma foto semelhante às imagens que tinha visto na internet, durante a pesquisa que sempre faço quando vou a qualquer sítio. E fi-lo às suas lagoas rodeadas pela cidade, com um navio de cruzeiro, atracado no seu cais, a sobrepor-se aos telhados para compor a paisagem. Aproveitei para mais um passeio a pé para encontrar o melhor ângulo, e um repasto no Gioma Meze, um dos restaurantes recomendados, e bem, pelo Tripadvisor, com uma bela vista para as águas e casario.

O passo seguinte foi o Palácio de Knossos, 77 km depois e 1h30 mais tarde, dada a sinuosidade da maior parte das estradas da ilha. As suas ruínas foram descobertas em 1878 por Minos Kalokairinos, comerciante e antiquário cretense. Mas foi o arqueólogo inglês, Arthur Evans, que liderou, a partir de 1900 as escavações que puseram a descoberto um edificado com mais de 1000 aposentos interligados, que incluíam, entre outros, espaços para artesãos, adegas, armazéns e muitas outras salas, incluindo a do trono. Ou seja, era muito mais do que um palácio e diz-se que foi a sede da civilização minóica, entretanto desaparecida.

Era um sítio onde tinha de ir, como é evidente, apesar de ter sido reconstruída segundo a imaginação de Evans e outros, com bastante betão à mistura. Afinal está ligado à lenda do Minotauro, ser que parece ter nascido de uma relação ilícita entre Pasífae, mulher do rei Minos, com um touro (nem consigo imaginar), encantada por Poseidon, deus grego do mar, terremotos, tempestades e cavalos. O enredo desta história é muito mais vasto e tortuoso, mas não é este o espaço certo para contar o resto, até porque está amplamente disponível na internet e em livros para quem a quiser aprofundar.

Reza a lenda que o Minotauro estava fechado no labirinto do Palácio Knossos, em Creta.

Não me senti muito atraído por Knossos, que percorri o melhor que pude, mas era visita obrigatória e tinha comprado uma entrada conjunta para o sítio com a do Museu de Arqueologia de Heraklion, esse sim merecedor de demora, não só pela beleza das obras e diversos tipos de artefactos expostos, mas também pelas histórias contadas nas suas paredes.

Vinho e queijo para retemperar

Era já o final da tarde, e ainda faltava a visita à Lirarakis, produtor de vinho local com bastantes prémios em concursos nacionais e internacionais, o que contribuiu para a escolha, já que gosto de provar sempre o que se faz por cá e lá fora.

Chegámos já um pouco fora de horas, quase pelas 18h, quando estava a terminar a última visita. Mas não fomos corridos. Com simpatia, a jovem que estava na recepção/loja daquele espaço destinado a receber turistas, informou-nos que poderíamos fazer uma prova gratuita de quatro vinhos. Pagámos 7,5 euros pelos queijos que vieram para a mesa e fiquei por ali a praticar uma das coisas que mais gosto de fazer: provar vinhos, felizmente todos de qualidade acima da média, na companhia de bons queijos, neste caso de Creta. Um grande final de dia, como deveriam ser todos os de férias.

Tempo morno, um branco fresco e elegante, com mineralidade e alguma estrutura, na companhia de queijos da ilha de Creta. Que mais se pode desejar

Sítios para comer que gostámos um pouco mais que os outros

Gioma Meze

Partilhámos comida tradicional grega, incluindo mexilhões, borrego guisado e a habitual salada, na companhia de uma garrafa de rosé local. No final, um cheesecake com um toque de mel e nozes contribuiu ainda mais para o conforto dos sentidos.

A nossa sobremesa do Gioma Meze, em Agios Nikolaos.

Morada: Rua Dionisiou Solomou, 10, Agios Nikolaos, Creta

Tel.: 0030 2841 102056

Site: www.giomameze.com

 

Barmpathymios P.C.

Segundo informação da guia da visita que fizemos em Heraklion, este era um dos melhores lugares para comer comida típica grega a preços módicos, na esplanada. Escolhemos Gyros (aqueles grelhados no espeto que depois são fatiados para serem servidos na mesa na companhia de batatas fritas e molhos para temperar) na travessa e enrolados em pita, Souvlaki (espetadas) e a inevitável salada grega, na companhia de cerveja local. Tudo saboroso e agradável, pela módica quantia de 24 euros para quatro.

Morada: Rua 25 de Agosto, 96, Heraklion, Creta

Tel.: 0030 694 458 7537

 

Café Kirkor

Confeitaria aberta desde 1922 oferece, entre outras coisas, aquela que é considerada a melhor bougatsade Heraklion, pastel de massa filo recheado habitualmente com queijo ou creme doce, polvilhado com canela, que pode ter outras variantes. Preferimos a segunda versão, que era deliciosa mas um pouco doce demais.

Morada: Praça Elenas Venizelou 31, Heraklion, Creta

Tel.: 0030 281 024 2705

 

Adega Lirarakis

De entre os vinhos que provei, destaco o monocasta tinto da Vinha Plakoura, 100% casta Mandilar, com grande concentração e estrutura, que me lembrou alguns vinhos do Douro do Baixo Corgo. No final, não resisti e comprei uma garrafa, destinada a ser provada numa tertúlia de amigos agendada para o próximo final de Junho.

Morada: Alagni, Creta

Tel.: 0030 281 028 4614

Site: www.lyrarakis.com

A não perder

Museu Arqueológico de Heraklion

É um dos maiores e mais importantes da Grécia. É repositório de artefactos representativos de toda a pré-história e história de Creta, desde o neolítico à ocupação romana. É, também, o museu da cultura minóica, por excelência, onde podem ser vistos muitos exemplares da sua arte.

Morada: Rua Stefanou Xantodidou 1, Heraklion, Creta

Tel.: 0030 281 027 9000

Site: www.heraklionmuseum.gr

 

Museu de História Natural de Creta

Numa das primeiras visitas que fizemos a esta cidade, passámos uma boa parte da manhã a percorrer os andares deste museu, que inclui reproduções de tamanho natural de dinossauros, alguns animais vivos, incluindo serpentes e lagartos e uma miríade de animais empalhados. Um tempo bastante interessante, até porque uma das exposições temporárias era dedicada à imagem, com várias propostas interactivas.

Morada: Avenida Sofoklis Venizelos, Heraklion, Creta

Tel.: 0030 281 028 2740

Site: www.nhmc.uoc.gr

 

Free tour em Heraklion

Nas viagens procuramos sempre os passeios “grátis”, não só porque saem mais em conta, porque nós decidimos o que pagamos, mas também porque chegámos à conclusão que estes guias se esforçam um pouco mais para seduzir a audiência. Calhou-nos a simpática Akrivi Chatzigeorgiou, desta organização, que nos levou, a pé, num passeio agradável e bem explicado por vários pontos da cidade, em inglês, e nos deu algumas dicas sobre lugares de comer e beber um copo.

Site: www.1618freetour.com