Às voltas nas voltas do Porto

São incontáveis as vezes que fui ao Porto em trabalho. Como gosto de andar a pé, para sentir a vida da cidade, dou sempre uma volta, nem que seja pelas ruas da baixa, para me sentir de novo na cidade. Mais recentemente a família desafiou-me para um fim-de-semana longo no Porto.

Sentar ao balcão, beber um fino fresco e bem tirado, e comer o cachorro do Gazela, de salsicha grelhada, picante e bem temperada, com pão ligeiramente tostado, é algo que se deve fazer pelo menos uma vez na vida. E foi isso que fiz, num dia de sexta-feira, enquanto esperava que chegasse a hora do meu segundo circuito guiado na cidade do Porto, o do vetusto Teatro Nacional São João, que começaria pelas 12h. A única coisa de que me arrependi foi de não ter chegado mais cedo, porque gostava de ter saboreado mais um par destes “bichos” saborosos, que são cortados às rodelas para parecerem ainda mais petisco e gerarem vontade de repetir.

A ida ao teatro

A visita ao teatro, e à sua história, fez-me ficar tentado a voltar para assistir a uma das suas peças, nem que seja para sentir o prazer de estar de novo sentado naquela bela sala, só por si uma obra de arte. Mas foi muito mais que isso. Guiados por alguém com excelente dicção, o pequeno grupo de três portugueses (uma raridade, segundo o guia), uma brasileira e um casal de suíços foi descobrindo a razão de tudo ser como é no seu interior.

Começámos pelos espaços comuns aos espectadores, e estivemos nas salas comuns onde a fina flor ia para se mostrar (a principal razão para ir ao teatro noutros tempos). Andámos pelas escadas, incluindo as mais estreitas, aquelas que moviam o povo para as galerias, vulgo “galinheiro” devido ao barulho que dali emanava, zona onde os menos empossados vislumbravam o espectáculo que se passava no palco e no resto da sala.

Mirámos o palco das zonas mais altas e descobrimos que uma das paredes do Teatro coincide com o que resta da muralha da cidade. Visitámos os bastidores desde os sítios mais elevados ao espaço por baixo do palco, sala de ensaio, camarins e corredores incluídos, e ficámos a saber também que a família Pinto da Costa, sim, a do Jorge Nuno, presidente do FCP, tinha sido proprietária deste imóvel de visita imperdível, até o Estado o adquirir, em 1992.

A Sala do Tribunal do Comércio no Palácio da Bolsa.

Na manhã desse dia tínhamos visitado o Palácio da Bolsa, a sua história de resistência às pressões políticas de diversos governos, e as suas mais belas salas, com saliência para a do Tribunal do Comércio, onde já tinha estado para uma prova especial vertical de tinto Vale Meão, bem conduzida por Francisco Olazabal, e ao imperdível Salão Árabe.

No bulício do mercado

Cores e sabores irresistíveis no Mercado do Bolhão.

Para temperar as coisas, o passo seguinte ao teatro foi uma ida ao Mercado do Bolhão, porque não há nada que me atraia mais do que as cores e cheiros dos legumes e da fruta, e os sons destes sítios, onde pessoas se misturam em busca de alimentos frescos. Comemos num dos seus tascos, um par de sardinhas, batatas e salada de tomate, alface e cebola, por cinco euros, na companhia de um Verde da casa, que estava como era expectável, e fomos saboreando devagar, sentindo o ambiente e descansando da azáfama da manhã, que tinha incluído também uma passagem pelo Pavilhão Rosa Mota e jardins anexos, com pausas para sentir as vistas.

O Pavilhão Rosa Mota.

E ainda bem que o fiz, porque decorria, no seu interior, uma feira de livros, onde reedições da colecção Vampiro estavam a preço de saldo. Trouxe dez, daqueles que sabia que nunca tinha lido, incluindo obras de George Simenon, porque gosto do ar pausado da acção e dos momentos para um copo e petiscos, S. S. Van Dine, porque aprecio os intelectuais do crime e mais uns outros por que sim. Faltavam na minha colecção, e nunca os tinha lido.

Depois do repasto no Mercado do Bolhão, não resisti a uma paragem numa das bancas pululadas por Vinhos do Porto para um Grahams 10 anos, a meias, servido à temperatura ambiente, num copo desapropriado para o vinho mas apropriado para o local. Era a garrafa que estava a serviço.

A escolha era vasta e apreciável. Por isso é natural que tentasse turistas, como um casal brasileiro que me pediu ajuda para escolher um Porto para levar para casa. Levaram um 10 anos de outra marca e não resisti, à despedida, a passar-lhe umas dicas em relação à temperatura e copos mais adequados para o seu usufruto. Não vale a pena um vinho fazer uma viagem tão grande para chegar ao destino e ser bebido de uma forma qualquer.

Na Ponte D. Luis I, os miudos alinham-se para mais um salto para o rio Douro.

Nas caves de Vinho do Porto

Pouco depois voltámos a por as pernas em andamento para visita às Caves Ferreira, para dar a conhecer à família mais um pouco de história do Vinho do Porto. Como é habitual, lá estavam os meninos a saltar do tabuleiro da ponte D. Luís I para o rio, indiferentes ao frio, enquanto outra equipa aguardava os passantes na caça à moeda em troca do espectáculo. Apesar de não o ter visto, lá saiu uma do meu bolso (porque não?) e lá fomos. Misturados numa multidão de brasileiros, fizemos o percurso ascendente, passando pela amostra de vinhos velhos, que nunca me cansa, escutando estórias da história do Vinho do Porto e da casa que visitávamos.

O rosbife da Casa Agrícola.

No início desse dia tínhamos passado pela Casa Agrícola, cujo restaurante já tinha ouvido falar, e pensámos lá voltar à noite, antes da deita, para o último repasto. É verdade que ainda tentámos ir a outras casas na zona da baixa portuense, mas estava tudo banhado de turistas ou fechado. Por isso, e como já não era cedo, demos à perna até à estação mais próxima de Metro, para a viagem até à paragem da Casa da Música e depois até ao restaurante. Um telefonema assegurou o lugar e lá estivemos, naquela sala confortável, às voltas com um carpaccio de vitela, primeiro, e rosbife, a seguir, na companhia de um rosé que me esqueci o nome. O final certo para um dia perfeito.

Fotos: José Miguel Dentinho