Aromas e sabores de Brno e dos vinhos da Morávia

Brno é uma cidade histórica pequena, calma, sem turistas, que vale a pena visitar, com paragens para provar os seus comeres e cervejas e os vinhos da envolvente região produtora da Moravia, que gostei muito de descobrir.

Naquele final de tarde de sábado, assistir a um concerto de hard rock na praça do Mercado dos Vegetais de Brno, na República Checa, momentaneamente transformada em festa de cerveja, com algumas dezenas de produtores, foi no mínimo inesperado. Bem perto, numa banca de enchidos e outros produtos, o fumeiro mantinha-se aceso, à espera dos produtos que precisassem de um “toque” aromático naquilo que compravam. Em frente ao pequeno palco, estava tudo de pé, e quase todos os adultos com uma caneca de cerveja na mão, como não podia deixar de ser.

O bosque da colina que rodeia o castelo de Spilberk está cheio de caminhos que vale a pena percorrer.

Um toque de rum

Tinha acabado de sair do edifício do Museu da Moravia, mais precisamente do Air Bar, que fica no rés-do-chão, depois de apreciar, com muita calma, um long drink que pedi ao barman, Leopold Pecha, para criar para mim. O primeiro, uma tradicional Margarita, não tinha sido suficientemente satisfatório. O espaço, de aspecto antigo e usado, decorado por prateleiras de madeira pejadas de garrafas, era acolhedor e inspirador de viagens da imaginação a outros tempos. E o momento era o certo, pois sabia que, ali, iria pagar três a quatro vezes menos do que em Portugal por bebida semelhante. Um toque de rum velho, outro de rum novo, angustura, gelo e sumo de maracujá deram-me direito a uma meia hora de bons sabores e boa conversa naquele ambiente, que parecia feito para isso.

Mercado dos vegetais

A praça em frente, para onde saímos depois, foi o local onde voltámos sempre, como se todos os caminhos da cidade se cruzassem ali. O seu nome atual, Mercado dos Vegetais (Zelný Trh), foi-lhe atribuído no século XV, apesar da atividade ter começado ali dois séculos antes. O labirinto do seu subsolo, reaberto em 2011, é um percurso que revisita as caves das casas em torno do perímetro da praça, construídas desde a época medieval. Eram usadas ​​como depósitos de produtos para o mercado de superfície, armazenamento de alimentos, maturação de cerveja e estágio de vinho, ou como esconderijos durante as guerras. Originalmente não estavam interligadas e permaneceram esquecidas até tempos atuais, quando foram feitas obras de preservação que deram origem ao percurso labiríntico que é hoje um espaço museológico da atividade local na época medieval. A visita guiada inclui um laboratório de alquimia, que recorda o labor de médicos e farmacêuticos medievais, e uma antiga adega e um pub, que servem como lembretes da tradição vinícola da região. Capítulos mais sombrios da história de Brno são contados por réplicas do pelourinho da cidade ou da “jaula dos tolos”, ambos instalados no mercado no século XVII.

Piquenique sob as muralhas

No cume de uma colina altaneira, rodeada de um bosque de árvores serpenteado de caminhos, fica o castelo de Spilberk, de onde se pode observar toda a cidade, que se desenvolve no seu sopé. Na caminhada que fiz em torno do edifício principal desta fortaleza, conhecida por ter sido uma prisão particularmente dura, vislumbrei, mesmo na base da muralha e sobre um relvado, aquilo que aparentemente era um chá da tarde feminino, com uma dúzia de mulheres sentadas no chão, ataviadas com vestidos de cores primaveris. Enquanto uma mudava as fraldas de um dos bebés e outra ia bebericando um branco servido num copo de pé alto, as restantes pareciam conversar entre si. No centro via-se uma série de bandejas com diversos tipos de aperitivos bem alinhados. As garrafas mergulhadas no balde de gelo que se evidenciava, mesmo ao longe, mostravam que não se tinha esquecido de nada que fosse importância a um piquenique digno de nota, pelo menos para mim. Depois foi a descida pelo bosque que rodeia o castelo, com muitas fotos pelo meio, até mais uma volta pela cidade de Brno, só porque valia sempre a pena.

A região de vinhos da Morávia

As vinhas da casa Sonberk, na sub-região de Mikulov, com o rio Thaya ao fundo.

Este ano, o Concurso Mundial de Bruxelas, onde, mais uma vez, provei cerca de 150 vinhos em três manhãs, decorreu em Brno, na República Checa. Foi, para mim, um ano privilegiado, com mais vinhos de boa a excelente qualidade na prova que o habitual, com origem na Europa e na América do Sul.

A escolha da cidade era óbvia, por ficar no centro da maior e mais significativa região produtora de vinhos do país, a da Morávia, que inclui várias sub-regiões. Depois de uma leitura atenta sobre o tema, escolhi a visita à bela sub-região de Mikulov, por incluir castas que ainda desconhecia, como a Palová e a Welschriesling ou Riesling Italico, e se dedicar essencialmente à produção de vinhos brancos. As visitas que fizemos, a quatro produtores da região (Pavlov, Volarík, Mikrosvín Mikulov e Sonberk) e a masterclass conduzida pelo enólogo checo Michal Setka, mostrou-me que tinha razão. Foi uma viagem por vinhos das várias castas desta sub-região, geralmente mais doces que os que se produzem em Portugal, mesmo quando estão marcados como “secos”. Fiquei com vontade de voltar, não só pelos vinhos, como é evidente, mas porque senti que há, por ali, muito mais por descobrir.

Comer e beber em Brno

Pivovarská Starobrno

Este restaurante, o primeiro onde estivemos em Brno, fica no mesmo edifício onde se produz a marca de cerveja mais vendida na cidade, a Starobrno. Tudo correu bem a nível das cervejas e com o vinho branco, um Welshriesling que já tinha provado numa das adegas visitadas à tarde. Também com o bife tártaro com torradas fininhas, o pato estufado com couve roxa adocicada e dumplings e o entrecosto tostado. Mas não aceitem a sugestão de sobremesa de profiteroles, ditos “feitos em casa”, que nos foi aconselhada. Gigantescos e moloides, estavam cheios de chantilly que parecia de lata e eram enjoativos quanto baste. O que valeu foi o último gole de branco, que tinha no copo, para atenuar a coisa. É a vida.

Morada: Praça Mendlovo, 158
Tel.: +420 543 420 131
www.pivovarskabrno.cz

Stopkova Plzeňská Pivnice

Quando entrámos neste restaurante/cervejaria do centro da cidade, que escolhi por estar bem cotado nos motores de busca da net, estava praticamente vazio. Depois de algumas horas de caminhada, entrecortadas por um copo aqui e ali, só para experimentar, precisava de um lanchinho e de comer mais qualquer coisa para alargar o conhecimento sobre os sabores locais. Uma salsicha de carne de caça de pelo e outra de carne de porco, na companhia de salada, rábano e mostarda semelhante à de Dijon, mas menos picante, fizeram companhia a um vinho branco a copo fino e elegante, ligeiramente doce no final. Eram doses grandes, boas para partilhar a dois, numa casa para muita gente, com várias salas para escolher para o repasto. Soube-me bem.

Morada: Česká, 163
Tel.: +420 517 070 080
www.stopkovapivnice.cz

Air Café

Fica mesmo à entrada do Museu da Moravia, e não resistir a entrar para dar uma espreitadela, no primeiro dia em que estive na cidade. Mas foi só mais tarde que lhe dediquei mais tempo, com o resultado que contei no texto. Grande variedade de runs, boa cerveja a copo e um barman que sabe o que faz.

Morada: Zelný Trh 8, 602 00 Brno
Tel.: + 420 773 610 319
http://aircafe-brno.com/

 

Vinhos em destaque

De entre as mais de duas dezenas de vinho da sub-região de Mikulov, Morávia, República Checa, destaco dois, que provei na masterclass de vinhos da região em que participei:

Riesling Noble Rot 2017
Sonberk
Casta: Riesling
PVP: 16 euros
(18/20)

Noble rot ou podridão nobre é aquela que resulta da acção positiva do fungo Botrytis cinerea sobre os bagos de uva, concentrando os seus componentes, acrescentando doçura e aromas ao vinho, como acontece neste, onde se salientam também os aromas petrolizados e a pólvora. Na boca é equilibrado, harmonioso e longo, muito agradável.

 

Hermes Ryzling Vlassky 2018
Gala Vinařství
Casta: Welschriesling
PVP: 15 euros
(17/20)

Aroma fino, elegante, onde se salienta notas de frutos secos a lembrar nozes e avelãs, com alguma presença de Botrytis cinerea e de fruto tropical. Na boca é elegante, fresco e longo, com notas minerais e de fruta de caroço, a lembrar pêssego vermelho.

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