Lições da persistência e do insucesso, no 2º evento WE Talk

Chitra Stern, co-fundadora da Martinhal Family Hotels & Resorts, e Catarina Barosa, co-fundadora da Tema Central, partilharam as suas experiências de negócio na segunda sessão do ciclo de palestras de empreendedorismo feminino, WE Talk by WomenWinWin.

Chitra Stern, co-fundadora da Martinhal Family Hotels & Resorts, durante a sua apresentação no 2.º evento WE Talk.

A 2ª sessão do evento WE Talk by WomenWinWin trouxe ao auditório da Abreu Advogados, na manhã do passado dia 26 de abril, mais dois exemplos de empreendedorismo feminino em duas áreas distintas: Chitra Stern, CMO da Martinhal Family Hotels & Resorts, que criou com o marido, e Catarina Barosa, co-fundadora da empresa de comunicação, Tema Central.

“Coragem que inspira coragem” foi o mote lançado por Maria José Amich, presidente da associação WomenWinWin, nas suas boas-vindas à assistência, a propósito da inauguração recente da primeira estátua de uma mulher na Parliament Square (Londres), a da sufragista Millicent Fawcett. A frase tem muito em comum com os desafios do empreendedorismo feminino, observou. “Com este ciclo queremos que a coragem das mulheres que partilham a sua história empresarial inspire a coragem de todas aquelas que aqui estão.”

De Singapura para Sagres

Chitra Stern chegou a Portugal em 2001 atraída pelo potencial do país para o turismo. Natural de Singapura e nascida numa família originária do sul da Índia, o percurso levou-a primeiro até Londres, onde se formou em engenharia eletrónica e trabalhou na PwC (onde conheceu o marido, Roman, de origem suíça), vindo posteriormente a concluir um MBA na London School of Economics, a mesma instituição que a distinguiu, em 2014, com o prémio “Accomplished Entrepreneur Award”. “O meu pai sempre foi um empreendedor, mas também sempre me aconselhou a não seguir a via do empreendedorismo e a dedicar-me antes ao mundo corporativo”, recordou durante a sua intervenção em inglês.

Na “Califórnia da Europa”, como o nosso país era conhecido lá fora, encontraria uma fase de desenvolvimento económico e fatores essenciais para a ideia de negócio que queria pôr em marcha com o marido — resorts de luxo para família. A princípio, o local escolhido para o primeiro empreendimento despertou cetiscimo. “Sagres?! Toda a gente sabe que a ação está é em Vilamoura e na Quinta do Lago…, diziam-nos. Sagres era conhecida então por ser um destino ventoso, onde só há um mês de turismo.” Mas o casal acreditou e estabeleceu aí o Martinhal Beach Resort & Hotel. Hoje são líderes neste nicho de mercado, já inauguraram outras três unidades (na Quinta do Lago, em Cascais e no Chiado) e acumulam prémios e referências na imprensa internacional. “97% do negócio Martinhal vem do estrangeiro”, revelou Chitra. 

“A conciliação entre carreira e trabalho é uma das questões que outras empreendedoras me fazem com mais frequência. Acredito que esse é o maior desafio para elas”, Chitra Stern, co-fundadora da Martinhal Family Hotels & Resorts, casada, 4 filhos. 

Mas até a primeira unidade estar de pé foi preciso vencer alguns desafios:

Vender alguma coisa sem nada construído. “É algo com que todos os empreendedores se deparam, de uma maneira ou outra. Foi preciso recorrer a maquetes e imagens geradas por computador para mostrar às pessoas o que iria nascer ali. Os primeiros protótipos surgiram em 2002/ 2003.”

Financiamento em momentos difíceis: A crise do subprime, em setembro de 2008, veio aumentar as dificuldades, quando concluíam a segunda metade do empreendimento. A solução passou por uma perspectiva “mais conservadora” de financiamento, revelou: aumentar a percentagem dos depósitos de entrada na compra de 5 para 25%. “Criar receitas é essencial para podermos pagar os empréstimos bancários. Tenho orgulho no facto de o nosso empreendimento em Sagres gerar hoje cerca de 20 milhões de euros por ano em receitas.”

Investir em marketing e criar procura no mercado: “Para fazermos publicidade ao resort organizamos muitas sessões de informação e eventos.” Depois, veio o posicionamento da marca nas plataformas digitais, um caminho lento mas frutuoso. “Entre 2005 e 2016 as visitas ao nosso site aumentaram para 800 mil. Trouxemos jornalistas de todo o mundo para terem a experiência do nosso resort, o que é especialmente importante por estarmos num nicho. E o branding funcionou.”

Conciliar carreira e trabalho: “Esta é umas das questões que outras empreendedoras me fazem com mais frequência. Acredito que esse é o maior desafio para elas”, diz. “Começámos aqui uma família em 2002, ao mesmo tempo que iniciámos o nosso negócio; temos 4 filhos. Lembro-me de estar grávida ou de andar com os meus filhos ao colo e vender imobiliário dentro de uma barraquinha. Persistência, trabalho árduo e a visão de que iríamos fazer aquele resort acontecer, desse por onde desse, foi o que nos moveu ao longo desses anos.”

Catarina Barosa, CEO da Tema Central, partilhou o seu percurso de carreira e empreendedorismo.

O que se aprende com o fracasso

“As nossas histórias que não correm bem não são, muitas vezes, uma questão de fracasso, e sim de duração. Tal como as nossas relações acabam, os nossos projetos também.” Foi com esta ideia que Catarina Barosa, co-fundadora e CEO da Tema Central, abriu a sua apresentação. Formada em Direito, exerceu advocacia durante 5 anos. Aos 28 anos foi convidada para dirigir os recursos humanos de uma empresa. “Não sabia o que era dirigir, mas o que aprendi nessa fase incentivou-me a querer saber mais sobre liderança.” Motivada a estudar o tema, escreveu livros sobre o assunto, um dos quais sobre liderança e futebol.

O seu primeiro projeto empresarial foi a revista Magazine Artes, que publicou durante 3 anos e que lhe ensinou que nem todos os negócios estão destinados à longevidade. Mais tarde criou o primeiro programa sobre Recursos Humanos da televisão nacional — “Marca Pessoal”, na TVI. Durante os seus 26 episódios alargou horizontes: aprendeu a falar para a câmara, a escrever guiões e a produzir para televisão.

“Ao longo da minha experiência, vi muitos profissionais que pareciam viver numa bolha e que não sabem o que acontece fora do seu contexto. Isso é um obstáculo enorme ao desenvolvimento e inovação.” Catarina Barosa, CEO da Tema Central.

A sua mais recente e bem sucedida aventura empreendedora é a Tema Central, empresa de comunicação da qual é diretora de conteúdos e que edita as revistas Líder e Pessoal, alargando ainda a área de ação a um conjunto de outras iniciativas que geram negócio. “Os media não podem viver só da publicidade. A grande mudança que tem de ser feita é entender que quando as pessoas pagam por um conteúdo querem ler algo de carácter isento e sem conotação publicitária ou ligada a outro tipo de interesses. Reinventámos-nos, na Tema Central, no sentido de passarmos a vender conteúdos. Daí surgiu a Leadership Summit Portugal, com um site que publica conteúdos novos todas as semanas e que não se esgota com o fim do evento. Demora mais tempo, mas acreditamos que conseguimos.” Neste espírito, há 5 anos criou também a marca Best Team Leaders, que distingue o trabalho daqueles que melhor lideram equipas em Portugal e se irá estender pela primeira vez ao Brasil, este ano.

Para Catarina “empreender é um compromisso que se assume com a vida. Sempre achei que não posso desiludir a criança que já fui e os sonhos que ela tinha.” Outras características do ADN dos empreendedores, segundo a empresária, são a irreverência e o gosto pela aventura. “Sabemos onde queremos chegar, mas não conhecemos o caminho. Qualquer líder deve ter a coragem de sair zona de conforto e estar disponível para olhar para outra área de criatividade. Ao longo da minha experiência, vi muitos profissionais que pareciam viver numa bolha e que não sabem o que acontece fora do seu contexto. Isso é um obstáculo enorme ao desenvolvimento e inovação. Muitas vezes, os negócios podem começar numa área e terminar noutra.”

Fator inspiração

As duas oradoras desta segunda sessão partilharam ainda a sua opinião sobre a relevância de eventos como os WE Talk by WomenWinWin. “A inspiração é um elemento essencial. Inspiro-me muito em conferências a que assisto, nos livros que leio”, observou Chitra Stern. “Para muitas destas empreendedoras, falar com alguém que tenha passado pelo mesmo processo que estão a passar é um passo em frente. Mostra-lhes que é possível, porque aquela mulher conseguiu, apesar de todas as barreiras.”

Para Catarina Barosa esta é uma partilha fundamental. “É determinante que se criem momentos em que as pessoas têm a oportunidade de fazerem uma espécie de networking organizado. As pessoas sabem que o objetivo é trocarem cartões de contacto e, eventualmente, começarem a trabalhar em conjunto, e isso pode ser feito num ambiente em que se aprende, em simultâneo. A ideia é contar histórias que juntem as pessoas. Nos negócios não se pode estar sozinha.”