As duas faces da contabilidade: transparência ou fraude

Contava Belmiro de Azevedo que quando se viu à frente à pequena Sonae do grupo Pinto de Magalhães comprou um livro chamado O Guarda Livros Sem Mestre para se embrenhar nos conceitos contabilísticos que como engenheiro químico ignorava. A contabilidade é vista como útil mas tacanha, necessária mas desprezível, fundamental mas manipuladora, como transparente mas obscura. Mas a tese de Jacob Soll é muito ampla e dá estrutura ao livro: “a importância da contabilidade nas crises financeiras, bem como o seu papel central na responsabilização financeira inerente à cultura de um país”.

O desprezo do contabilista vem de longe pois o próprio Colbert que enriqueceu Mazarino e Luís XIV subiu a pulso as escadas do poder. E é mais conhecida pela teoria mercantilista  mas Adam Smith admirava-o pela sua “perícia como gestor financeiro, cobrador de impostos e contabilista”. Foi também com Colbert que a contabilidade passou a ser não só uma questão de boa gestão mas instrumento de poder e repressão. Um dos capítulos mais interessantes é o que descreve o impacto do neoplatonismo na renascença e de como se traduziu no facto de “humanistas influentes que alimentaram velhos preconceitos contra o negócio é a obtenção de dinheiro através do comércio”. Por exemplo os jesuítas usavam todas as virtualidades das técnicas contabilistas, até num sistema elaborado de contabilidade moral mas havia “um Frank cultural sobre a contabilidade comercial”.

O quadro de Van Reymerswaele, “Os Dois Colectores de Impostos”, “liga a gestão financeira e a contabilidade à imoralidade, falsidade e comportamento não cristão”. Mas como concluiu Jacob Soll, “o acto contábil por vezes era vil, mas ao mesmo tempo era uma ferramenta administrativa cada vez mais necessária”.

É uma história dos principais momentos em que actividade se tornou decisiva para o desenvolvimento de determinados espaços económicos e a sua coadunação às visões culturais e sociais e religiosas predominantes.

O mais curioso é que os poderosos reagem à contabilidade e à accountability (responsabilização) como Eduardo III de Inglaterra que dizia que os reis só prestam contas a Deus. Por sua vez Luís XIV deixou-se fascinar pela utilidade da contabilidade mas também anteviu o seu poder como instrumento de responsabilização.

Depois de tantos escândalos financeiros, como os que atravessaram nos últimos tempos em Portugal – e pense-se no papel do contabilista nos processos e debacle do Grupo Espírito Santo – e que afectaram tantas bancos e empresas, nas falências e no quase default do Estado português, vale a pena citar Jacob Soll: “se há uma lição histórica a tirar, é a de que as sociedades que souberam integrar a responsabilização na sua cultura forma sociedades que floresceram”.

A ler: Jacob Sull, O Ajuste de Contas- Como os Contabilistas Governam o Mundo, Lua de Papel, 2014

ajuste de contas