Vinhos a preços exorbitantes

Como em qualquer área de negócio, principalmente naquelas onde os produtos se assemelham a objetos de arte, pela forma como foram feitos, pela história que foi construída à sua volta, pela imagem que conquistaram, há vinhos que têm, no mercado, preços verdadeiramente exorbitantes. É o que acontece com os exemplos que se seguem, histórias pontuais que surgiram em vários órgãos de comunicação social por esse mundo fora, em que os vinhos foram pagos a peso de ouro. Claro que a maior parte destes preços surgem em leilões.

Mais de meio milhão por três garrafas

Uma garrafa de Château Lafite de 1869, um dos três premier grands crus classés da denominação controlada de Pauillac, da região de Bordéus, ou seja, o topo dos topos, foi vendida por mais de 221 mil euros em 2010. Fazia parte de um lote de duas mil colocadas em leilão pela Sotheby’s na China. Cada uma das três unidades deste tinto tinha, como base de licitação, apenas 7,7 mil euros. Mas as ofertas foram subindo tanto, que foram comercializadas a 223.457 euros. E como foram vendidas todas as três ao mesmo indivíduo, isto significa que ele pagou algo mais de 670 mil euros pelas três. Uma exorbitância para quem não sabe o que há de fazer ao dinheiro, porque na loja Y18 Elegant Spirits, de Hong Kong, havia pelo menos um exemplar com o rótulo algo estragado a uns “meros” 27 mil euros, já que uma garrafinha destas vestida correctamente custa mais de 127 mil euros em Londres. Será que o aventureiro chinês, que deu mais de meio milhão de euros pelas três garrafas verá o seu investimento recompensado? Pela subida de preço em apenas seis anos, se calhar vai chegar lá. Pelo menos se estiverem vestidas como deve de ser.

As três licitadas no leilão repousam agora em caves privadas que ocupam antigos bunkers, mandados construir pelos britânicos na época em que geriam os destinos de Hong Kong, onde são guardados de forma mais ciosa do que as jóias da rainha. Pelo menos é isso que diz Gregory De ‘Eb, co-fundador da Crown Wine Cellars (CWC) e um dos pioneiros de Hong Kong no setor de armazenagem de vinho. Em 2003, esta empresa obteve a autorização do governo local para renovar os bunkers de Little Hong Kong, no sul da ilha, para se tornarem, segundo Gregory De ‘Eb, num “Rolls Royce das caves de vinho”. A ideia de as transformar em cofres faz algum sentido, já que as suas paredes resistiram, durante 20 dias, aos ataques japoneses durante a Segunda Guerra Mundial.

Um péssimo ano dá frutos

Uma garrafa imperial de 1947 de Cheval Blanc, outro tinto da região de Bordéus, este da denominação de Saint-Emilion, foi um dia licitada por 292 mil euros. Também aqui há uma história por detrás, que ultrapassa a qualidade da colheita ou a longevidade do vinho, por exemplo. O seu carácter distinto deve-se sobretudo ao acaso.

No ano desta vindima, numa época em que ainda não se usava a rega para atenuar os efeitos do estio, o tempo excessivamente quente perturbou o ciclo da vinha e dificultou o processo de vinificação. Na adega levou quase à ruína do vinho porque, naquela altura, ninguém dominava o uso da refrigeração no processo de fermentação. Em resultado disso, as leveduras não levaram o seu trabalho até ao fim em alguns dos depósitos e o resultado foi uma mescla grosseira açucarada. Mas houve outras onde o processo decorreu na totalidade, dando origem àquele que alguns peritos consideram um dos melhores Bordéus do mundo. É talvez por essa razão que um comprador adquiriu um exemplar, que leva seis litros, por 292 mil euros num leilão organizado em Genebra, na Suíça, pois não há nada como uma boa história para dar ainda mais valor a um bom produto. Para além disso, segundo a leiloeira, era a única garrafa de formato Imperial conhecida desta marca e ano. O vinho, que foi reacondicionado noutra embalagem com a mesma dimensão e rolhado no Château de Cheval Blanc, pertence agora a um colecionador suíço. Como curiosidade, a colheita de 2015 deste vinho, um Saint-Emilion Grand Cru, vende-se por mais de 580 euros, a preços de Dezembro de 2016.

Segue-se, agora, o mais caro entre os caros que consegui descobrir por aí. Trata-se do Screaming Eagle Cabernet de 1992, de seis litros, vendido por 500 mil dólares num leilão de beneficência em 2000. É um vinho de Napa Valley, nos Estados Unidos, e foi produzido apenas para esse fim. Nem de outra forma se poderia explicar este preço, apesar de uma garrafa de 75 cl deste vinho não custar pouca coisa, pois tem de se dar por ela cerca de sete mil euros nos Estados Unidos e quase oito mil na Europa. A verdade é que Robert Parker, o mais conceituado crítico norte-americano lhe deu 99 pontos em 100, e a revista Wine Spectator, 96, o que influencia certamente o preço.

O Château Margaux de Thomas Jefferson

Para terminar, revelo uma história ainda mais insólita, que dificilmente pode ocorrer noutro país que não os Estados Unidos. Envolve uma garrafa de Château Margaux de 1875, da região bordalesa de Margaux, outra marca muito conceituada em termos internacionais, que custou 225 mil dólares (216 mil euros a preços actuais) a uma companhia de seguros. Reza a história que tinha sido propriedade de Thomas Jefferson, terceiro presidente dos Estados Unidos e principal autor da declaração de independência do país. Era propriedade de um comerciante, que aparentemente a deixou cair e tentou primeiro receber por ela, qualquer coisa como 500 mil dólares (480 mil euros). O valor é exorbitante, mas não de estranhar, já que a colheita de 2015 deste vinho, que é certamente pouco bebível com tão pouco tempo de vida, como qualquer outro desta zona da região de Bordéus, anda pelos 500 euros por garrafa de 75cl. É verdade que as notas elevadas que tem alcançado entre críticos internacionais (98 pontos Parker, por exemplo) também ajudam a sustentar um preço comportável por poucos.

Há diversos Madeiras, Portos e Moscatéis com idade, que proporcionam inegável prazer na sua degustação, ainda mais quando se imagina as histórias por detrás da sua produção e como está mudado um mundo que faz coisas tão extraordinárias. Mas mesmo com a inegável qualidade que possuem, os seus preços não chegam aos calcanhares dos montantes pagos pelos vinhos anteriores. Nas pesquisas que fiz, e só para dar três exemplos, encontrei W & J Graham’s Ne Oublie Port 1882, da Graham’s, que encabeça a lista do site Wine-Search, com um preço médio de mercado de 5700 euros no final de Dezembro de 2016. Também um Justino Henriques Verdelho Vintage de 1748, um Vinho Madeira que está somente disponível numa loja francesa, cujo preço anda quase pelos 8 mil euros. É o vinho de origem portuguesa mais caro que encontrei. Muito recentemente, a Real Companhia Velha anunciou que o seu Carvalhas Memories, uma edição numerada e limitada a 260 garrafas, com um preço de 2.750 euros, teve 99 pontos Parker após ter alcançado um 19,5 na Revista Vinhos em Portugal. Pela lógica, o seu preço irá subir um pouco mais devido à especulação que o mercado faz em relação a este tipo de vinhos. Mas nada que chegue aos valores referidos atrás, que são, para mim, verdadeiros momentos de loucura.