Crescer com um sorriso saudável

As alterações dentárias da infância causam preocupação aos pais e algum desconforto às crianças. Um especialista esclarece todas as dúvidas.

Os dentes definitivos começam a irromper aos 6 anos.

Por Francisco Salvado, médico estomatologista, professor de Patologia e Cirurgia Oral
e Maxilo Facial na Faculdade de Medicina de Lisboa e no ISCSEM e
diretor de Serviço Hospitalar.

Os primeiros dentes, os “dentes de leite”, irrompem sem uma ordem definida, embora o incisivo inferior seja frequentemente o primeiro. Por volta dos 3 anos, a cavidade oral está preenchida com 20 dentes. Os dentes definitivos começam a irromper aos 6 anos, estando os dentes de leite substituídos por volta dos 12 anos. No entanto, a dentição só está completa com a erupção dos dentes do siso, que ocorre após a adolescência.

Esta evolução dentária significa que durante cerca de seis anos os “dentes de leite” coexistem com os dentes definitivos: uns a erupcionar e os outros a esfoliar. Este fenómeno pode dificultar e provocar dores durante a mastigação devido à mobilidade dos dentes que estão a “cair”. Contudo, estes não devem ser extraídos, mas entregues à sua evolução normal, para que orientem a erupção dos definitivos e mantenham o espaço na arcada dentária.

As cáries destroem o esmalte e a estrutura interna dos dentes.

É também importante que os pais vigiem, e ensinem a vigiar, os dentes dos filhos mais pequenos. Três situações merecem atenção redobrada: a presença de cáries dentárias, a alteração da posição dentária durante a erupção e a relação entre os dentes superiores e inferiores (os dentes superiores devem cobrir ligeiramente e anteriormente os dentes inferiores).

A cárie dentária é uma doença infecciosa provocada por microrganismos que destroem o esmalte e a estrutura interna dos dentes. Pode ser prevenida com gestos simples, como a escovagem dos dentes, a utilização de fio dental e uma alimentação cuidada, com poucos açúcares. A escovagem dos dentes deve ser efetuada três vezes ao dia (de manhã, depois do almoço e ao deitar), e em crianças mais pequenas deve ser vigiada pelos pais. Um bom hábito, no caso das crianças que levam as suas refeições para a escola, é incluir a escova de dentes na lancheira. As escovas de viagem são de fácil transporte e muito higiénicas.

Consultar um higienista é recomendável, para que pais e crianças aprendam técnicas corretas de lavagem. 
A aplicação de selantes nos dentes é outro procedimento, este realizado em consultório, muito eficaz na prevenção das cáries. Deve ser efetuado nos dentes o mais precocemente possível de modo a prevenir a cárie na superfície dentária. As alterações de posição, quer dentro da arcada dentária, quer por alterações do crescimento, com deformações da mandíbula ou da maxila, devem ser detetadas precocemente por um estomatologista. Muitas destas alterações podem ser desencadeadas pela retenção prolongada dos “dentes de leite”. Como tal, se um “dente de leite” se mantiver na arcada, com o dente definitivo visível, durante mais de dois meses, é necessária a observação por um especialista. Por sua vez, o diagnóstico precoce de alterações do crescimento da mandíbula e maxila (“queixo grande” ou dentes superiores muito avançados) pode evitar cirurgias mais ou menos complexas no futuro.

As atividades desportivas na escola, e as traquinices próprias da infância, aumentam o risco de acidentes que podem resultar em traumatismos dentários.

DENTES SEM ACIDENTES NO DESPORTO

A utilização de proteções dentárias (“mouth guards”) pode evitar traumatismos durante a prática de algumas atividades desportivas. Estes aparelhos podem ser prefabricados (modelo universal, por norma com adaptação pobre), moldáveis (de material borrachóide, que depois de aquecido permite a adaptação aos dentes) e personalizados (executados pelo especialista após molde dentário). Qualquer um destes aparelhos é eficaz desde que seja suficientemente espesso para garantir proteção, seja adaptado, não dificulte a respiração e não tenha cheiro ou sabor.

A perda de um “dente de leite” por traumatismo não é usualmente uma situação grave, mas exige a observação imediata por um especialista, de forma a confirmar a posição do dente definitivo e verificar se existem outras complicações que possam passar despercebidas.

A perda traumática de um dente definitivo requer alguns cuidados essenciais.

Quando a perda traumática é de um dente definitivo, a situação pode ser um pouco mais séria. Neste caso é importante saber o que fazer. O primeiro passo é encontrar o dente. Não se deve tocar na zona da raiz. Se o dente estiver sujo deve ser passado por leite ou por água salgada durante alguns segundos e nunca o deixar secar. Se for possível, colocá-lo no local de onde foi expulso (se não for possível, mantê-lo. em leite ou em água salgada). E o mais importante: consultar imediatamente um especialista. Felizmente, em muitas situações o traumatismo dentário não leva à perda, mas apenas à fratura do dente. Nestes casos, a porção fraturada deve ser recolhida e a criança observada para se proceder à reconstrução.

Nunca é demais lembrar que as crianças a partir dos 6 anos devem consultar um médico dentista/estomatologista/maxilo-facial anualmente.

COMO PREVENIR AS CÁRIES

  1. Ingerir poucos açúcares
  2. Lavar os dentes três vezes por dia
  3. Usar fio dental
  4. Consultar um especialista
  5. Aplicar selantes dentários