Óperas e pequenos sonhos

Corria o ano de 2011, estava em Milão para uma feira de plásticos, e passeava em frente ao Scala, o edifício de espetáculos da cidade. Ia com um colega e vi que estava em cena Don Carlo de Verdi, nesse mesmo dia, ao fim da tarde. Perguntei-lhe: “alguma vez foste à ópera?” e, respondendo-me que não, disse-lhe que “então o Scala de Milão é o sítio perfeito para a tua primeira vez”. Pouco confiantes, dirigimo-nos à bilheteira e havia bilhetes! Dos de 15 euros, que só têm visibilidade de pé, mas havia bilhetes! Fomos e eu estreei-me numa grande sala mundial de ópera – nasceu em mim esta possibilidade de realizar pequenos sonhos.

Sempre gostei de música clássica, mais particularmente de ópera. O espetáculo que envolve, a preparação, a roupa, a rotina, tudo o que obriga a este processo, fascina-me. Ajudou eu ter participado no coro da ópera Flauta Mágica, quando era nova, e me ter apercebido do trabalho, dedicação, esforço e ensaios que exigiam. Que tinha como clímax um palco montado, preparado, uma orquestra, os solistas e os coralistas vestidos a rigor, a cantar peças intemporais que percorrem séculos em salas cheias.

Sentia em mim um desejo de assistir a óperas nas principais salas do mundo. E, a partir do Scala de Milão, apercebi-me de que não é, de todo, impossível. Quando tive uma reunião em Copenhaga, em 2016, recebi um email do meu marido com o bilhete para a La Bohème de Puccini. Foi uma experiência maravilhosa, chegar à Operahouse de barco (o edifício está no meio do lago) e assistir a uma das minhas peças favoritas. Mais tarde, fomos os dois a Berlim, ver Otelo de Verdi e, num encontro de trabalho que tive em 2018, chegámos uns dias mais cedo e fomos a Verona, ao festival de ópera que acontece todos os meses de agosto na Arena da cidade, para assistir à Carmen de Bizet.

A minha primeira saída pós-pandemia foi ao Coliseu do Porto para ver a Cavaleria Rusticana de Mascagni. Também já assisti a uma das partes d’ O Anel de Nibelungo de Wagner (confesso que me foi difícil acompanhar, Wagner é pesado).

Há poucos dias tive o privilégio de poder ir à Ópera de Viena assistir às Bodas de Fígaro de Mozart. Na sala onde se estreou esta peça pela primeira vez, mais do que regressar a um momento musical que me faz muito feliz, foi também a certeza de que os meus pequenos sonhos continuam a ser possíveis. Estes meses, quase anos, distantes de planos e expectativas, poderão estar a terminar.

O frenesim da entrada, os vestidos, os fatos, os cabelos e a maquilhagem, as fotos nas escadarias e nos varandins da casa da ópera desta cidade imperial, a peça em si que eu quase sei de cor (Voi Che Sapete ou Sull’aria são canções que sempre adorei), tudo tão fácil e simples mais uma vez.

Todos temos pequenos sonhos. Que nos parecem enormes até pormos o nosso pé a caminho de um deles. Eu achava que ir à ópera nalgumas salas seria irreal, mas é possível. Não me faltam muitas, gostava de voltar à de Sidney e ao Teatro Colon de Buenos Aires – já lá estive, mas não consegui assistir a nada. O Teatro Bolshoi de Moscovo e Bregenz, na Áustria também, quem sabe um dia não irei lá ver La Traviatta ou Aida?

Porque é como diz o outro: “a maioria dos sonhos não se realizam porque se esquecem”. E eu tento lembrar-me dos meus muitas vezes.

 

Inês Brandão é fundadora e Global Business Manager da Frenpolymer. Leia mais artigos da autora aqui

Publicado a 07 Outubro 2021

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