Mariana no mundo das maravilhas,
“una chica poderosa”

Com 23 anos partiu para Erasmus, em França. O percurso internacional levou-a Berlim, Estocolmo, Londres , Costa Rica, Miami e Palo Alto. Director of Interaction da Fusion, canal de televisão da Univision e ABC, esta semana promove em Stanford o maior evento da organização que fundou para incentivar as mulheres a trabalharem na área das tecnologias na Redações

No seu blogue (donttakeyourselfsoserious) aparece de bigode. Deu uma palestra TEDx (que pode ver em baixo) vestida de Alice (no País das Maravilhas), de cabeleira loura e vestido azul bebé. Anda com frequência com uma exuberante flor no cabelo. Não é difícil perceber que Mariana Moura Santos, 32 anos, tem como lema não se levar muito a sério. Mas encara o seu trabalho com muita seriedade. Apresenta-se como a rapariga portuguesa que quer descobrir o mundo. A verdade é que luta para mudar esse mundo. É uma forte convicta no storytelling, infografia, plataformas interactivas e todas as novas formas que permitem comunicar de forma mais apelativa e eficaz.

Fellow do Knight International Journalism, um programa do International Centre for Journalists, destinado a promover a inovação e a experimentação nesta indústria, Mariana Moura Santos deu um curso de jornalismo interactivo neste centro e workshops na Argentina, Barcelona, Chile, Colômbia, Costa Rica. Dinamarca, Noruega e Reino Unido. Uma posição que conquistou graças à sua recheada carreira internacional, apesar da sua juventude.

Já ajudou mais de mil jornalistas latino-americanos a desenvolver as competências de comunicação na era digital

Foi na Costa Rica, onde trabalhou, que fundou o Movimento Chicas Poderosas, com a missão de aumentar o número de mulheres qualificadas que trabalham nas redacções com recurso a novas tecnologias. O projecto envolve jornalistas, técnicos de desenvolvimento de software e designers, que, em equipas multidisciplinares, visam encontrar formas de reinventar o jornalismo, com recursos digitais e infografias que explicitam e reforçam a narrativa. Já ajudou mais de mil jornalistas latino americanos a desenvolver as competências de comunicação na era digital. Através de workshops, pesquisam e desenvolvem projectos acerca de água, agricultura, crime, eleições ou demografia no Chile, Colombia, Costa Rica e México. Acabada de se especializar em Stanford (Palo Alto, Califórnia) em tecnologia, business development e empreendedorismo, e design thinking, esta semana promove nessa universidade o maior evento de chicas poderosas: training the trainers (formação de formadoras) para 40 mulheres jornalistas.

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Nascida no Algarve, Mariana Moura Santos veio para Lisboa aos 17 anos, para fazer o 12.º ano e se preparar para a Universidade, habituando-se a viver sozinha e a tratar de tudo. Mariana está sempre em movimento. Nessa época, por exemplo, fazia dois cursos, treinava natação no Sporting, entrou nos “Morangos com Açucar” e apresentou o “Curto Circuito”. Formada em Design de Comunicação e Design industrial pela Universidade de Belas-Artes de Lisboa, aos 23 anos partiu para França, ao abrigo do programa Erasmus, para estudar na Saint-Étienne Fine Arts School. “Foi onde aprendi que gosto de ser estrangeira num local desconhecido”. Gosta da adrenalina da aprendizagem e da descoberta diária. Desta experiência, escreveu um livro, Se não acreditas em ti acreditas em quê?, de que se tiraram 2000 exemplares, feito a pensar nos colegas que não queriam ir para fora porque dava muito trabalho.

Tosquiou cães no Algarve e vendeu o carro para pagar o master na Hyper Island, em Estocolmo

O seu primeiro trabalho foi como designer na Universal Music Berlin, onde fazia capas de discos. Mariana Moura Santos e o editor de vídeo eram os últimos a sair do trabalho. A portuguesa ofereceu-se para o ajudar e rapidamente se tornou indispensável. Foi aqui que se apaixonou pela imagens em movimento.

Recusando ingressar nas fileiras da geração “mileurista” (que pode ambicionar a uma remuneração de no máximo 1000 euros), tosquiou cães no Algarve e vendeu o carro para pagar o master na Hyper Island, em Estocolmo, na Suécia, escola onde de 2009 a 2011 desenvolveu as suas competências nos media digitais. Enquanto realizava uma entrevista com o director do departamento de tecnologia do The Guardian, para um trabalho da escola, o seu entusiasmo foi notado e foi contratada para o jornal britânico.

Até 2013, a sua base de trabalho era em Londres. No The Guardian era interaction e motion designer, tendo Alastair Dant como mentor. Este fê-la acreditar em si. Mariana quis devolver isso ao mundo: dar poder às mulheres para aprenderem as competências e ganharem a confiança para criarem notícias digitais eficazes. É uma organização inclusiva, colaborativa de jornalistas da América Central e do Sul que visam dar poder às mulheres na área das tecnologias.

Enquanto se graduava em Palo Alto geria à distância a sua equipa do canal de televisão Fusion, em Miami

Desde Junho de 2014, em Miami, é director of Interaction da Fusion, canal de televisão que é uma joint-venture entre a Univision e a ABC. Mariana conta como tudo aconteceu: “Em 2013 convidaram-me para trabalhar na Univision, mas como estava com uma bolsa do centro internacional para jornalistas ICFJ Knight Fellow não pude aceitar. Assim que a bolsa terminou, voltaram a perguntar-me, mas desta vez de forma muito mais agressiva. Eu estava muito feliz na Costa Rica, pelo que teria de ser “O PROJECTO”, ou não me tiravam de lá. Pareceu-me uma proposta interessante, para ser diretora de interativos e animação da Fusion Digital. Ofereceram-me a possibilidade de formar a minha própria equipa. Trouxe as melhores pessoas com as quais trabalhei nestes últimos quatro anos: de Londres, São Paulo, Santiago do Chile, Costa Rica e Portugal.”

Aqui encontrou uma start-up, onde está tudo por criar e organizar. “Os nossos projetos são narrativas visuais, jogos de notícias e aplicações com caracter multimédia. O objectivo é contar as historias jornalísticas de forma visual e mais atractiva, misturando ilustração, design, programação, usabilidade e editorial”, resume. Neste período estava em Palo Alto a fazer uma graduação e geria a sua equipa, em Miami, à distância, com uma visita mensal.

No ano passado participou nos mundiais de natação de masters, em Montreal, onde se classificou em 9.º lugar

Pelo meio ainda encontrou tempo para participar nos mundiais de natação de masters, em Montreal, onde se classificou em 9.º lugar. Na Costa Rica nadava com a equipa Milénio, onde fez a sua preparação para os mundiais. Com a mudança para Miami, passou a treinar sozinha. Todos os dias, das 6 às 8 da manhã, antes de ir trabalhar. “É preciso força de vontade e espírito de sacrifício, mas sinto-me bem por me ter levantado e ido nadar. A natação é uma paixão. É, para mim, tão importante como respirar. Adoro competição, pois estou em constante desafio comigo mesma, para não deixar de estar focada. Gosto de ter objectivos e de trabalhar para os atingir. Nadar dá-me tranquilidade e sensação de acomplishment.”

CIDADÃ DO MUNDO

De todos os locais onde viveu, com qual se identifica mais? Quando estava na Europa senti que Berlim era a minha cidade, devido à sua vida artística, tão livre de preconceitos e cheia de mentes abertas que me inspiravam todos os dias. Era um mix de civilização e possibilidades criativas!

Considera-se uma cidadã do mundo? Considero. Na verdade sinto-me portuguesa de gema, e sinto que esse facto me faz adaptar-me a QUALQUER realidade! Sinto que deixei Portugal aos 24 para ir para Erasmus e a mistura de desconforto com injecções de aprendizagem diária, fui em busca de novas experiências pois não queria ficar estigmatizada pela geração dos 1000 euros. O que aconteceu é que me apaixonei pela sensação de aprender sempre algo novo, por isso estou sempre disposta a experimentar uma nova cidade, cultura e aprender outras tradições.