Volta ao mundo em busca de empreendedoras

Fernanda Moura e Taciana Mello são as Girls on the Road, projeto que correu mundo e entrevistou mais de 300 mulheres, exemplos inspiradores de empreendedorismo. Vieram à TEDxFCT-UNL falar dos números globais da participação feminina no mercado de trabalho e nos negócios — e sobre a riqueza que poderiam trazer, se existisse mais igualdade.

 

Ao ritmo atual, serão necessários 217 anos para atingirmos a equidade económica entre géneros em todo o mundo: os números referidos por Fernanda Moura e Taciana Mello, fundadoras do projeto The Girls on the Road, não são animadores. A dupla veio à TED-x que se realizou na Faculdade de Ciências e Tecnologia da universidade Nova de Lisboa (FCT-UNL) falar de empreendedorismo feminino e dos números tímidos da igualdade económica de género.

Com uma larga experiência em grandes consultoras como a Delloite e a PwC, em 2013 Fernanda e Taciana decidiram deixar as carreiras para contarem as histórias de empreendedoras espalhadas pelo mundo, das suas conquistas e de como superam as dificuldades, inspirando outras mulheres a seguirem o exemplo. Ao longo de 15 meses entrevistaram 333 mulheres em 24 países, nos cinco continentes e deste périplo vão nascer um livro (que deve ser editado no Brasil já este verão) e o documentário “Founders”, com estreia prevista para setembro deste ano. Outros projetos relacionados com empreendedorismo se seguirão, segundo as mentoras. “Assumimos e acreditamos que só conseguimos gerar mudança se continuarmos a falar deste tema. Se não conseguirmos mudar a atitude, não vamos mudar os números.”

Qual o número que vos impressiona mais, nas estatísticas sobre empreendedorismo feminino e sobre a situação laboral da mulher em todo o mundo?
Fernanda Moura: Impressiona-me que apenas 3 em cada 10 empreendedores em todo o mundo sejam mulheres. Vemos cada vez mais mulheres em posições de liderança, com formação universitária, mas ainda há uma pressão social muito grande para que façam a sua opção entre a carreira ou família. É preciso que existam cada vez mais mulheres trabalhando e abrindo empresas. Se elas quiserem cuidar da família a 100%, que seja por opção própria e não por imposição.
Taciana Mello: A mim impressiona outro número (e não quero soar muito capitalista): os 28 mil biliões de dólares injetados no PIB mundial (mesmo a previsão mais conservadora de 12 mil biliões). É dinheiro necessário para proporcionar uma vida melhor às mulheres e fazer as sociedades evoluir. Como é que isso não consegue mover-nos?

Muitas das mulheres que entrevistaram para projeto Founders têm negócios com impacto social, ligados à educação ou com valor acrescentado para a comunidade. Creem que há uma maior vocação feminina para esse tipo de empreendedorismo?
Fernanda: Não temos como saber isso ao certo, porque não entrevistámos homens. Mas o que vimos em muitas delas foi muita preocupação em saber como é que o seu negócio pode trazer benefícios, não só a si próprias, mas também à comunidade.
Taciana: Talvez tenhamos falado aqui de muitas mulheres atuando na educação, ainda que também usem fortemente a tecnologia — e talvez seja outro paradigma que tenhamos que quebrar. Nas entrevistas que fizemos em todos os países onde fomos, encontrámos mulheres atuando nas mais diversas áreas, no modelo tradicional de negócio, mas muitas dentro da área de tecnologia, que acabamos por associar mais naturalmente aos homens, da construção, inteligência artificial, realidade virtual, biotecnologia. Elas têm tentado não ficar presas a estes estereótipos. Ainda estão mais presentes em setores como os Serviços, a educação, a moda, mas percebemos uma tendência forte de mudança, sobretudo na nova geração.

“O empreendedorismo feminino por necessidade está em mudança. Segundo o último relatório do Global Entrepreneurship Monitor, as mulheres empreendem cada vez mais porque identificam oportunidades no mercado.” Taciana Mello

As estatísticas mostram contrastes entre países ricos, com pouco empreendedorismo feminino, e economias mais pobres com muitas empreendedoras. Encontraram estas diferenças, nas vossas viagens?
Fernanda:
Quando vamos a países ricos, como os países nórdicos, vemos que a situação social, em termos de benefícios, é tão boa que as pessoas não sentem a mesma necessidade de empreender. O que vai levá-las a sair de um trabalho estatal, ou de outro onde têm benefícios, férias, etc…? Aqui não é a necessidade que as move, mas a pura inovação. Em países africanos, na América Latina ou no sudoeste asiático, muitas vezes as mulheres não têm escolha: ou empreendem ou as famílias morrem de fome.
Taciana: O empreendedorismo feminino por necessidade está em mudança. Segundo o último relatório do Global Entrepreneurship Monitor, as mulheres empreendem cada vez mais porque identificam oportunidades no mercado. Obviamente que em países africanos e outros ainda há a necessidade de empreender para sobreviver, mas no geral isso tem vindo a mudar. As questões e os desafios, para as empreendedoras, são muito parecidos, nos Estados Unidos, em Cuba, no Ruanda ou no Japão: o que impacta é a capacidade que estas mulheres têm de ultrapassar as dificuldades e os recursos que têm ao seu redor.

Onde é que as empreendedoras de mercados em desenvolvimento encontram apoios e ferramentas para irem mais além?
Taciana:
Apoiam-se muito em outras mulheres e em organizações que apoiam empreendedoras. Mas, muitas vezes, elas lançam-se simplesmente. O que nós ainda usamos como desculpa elas usaram como motivação, a cada “não” que ouviam ou a cada dificuldade que encontraram. Tinham momentos tristes? Sem dúvida, mas era dali que tiravam o incentivo para lutarem pelos seus projetos. Encontrámos muitas mulheres que não tinham formação e, ainda assim, resolveram empreender porque existia uma oportunidade, porque era importante ou porque queriam mesmo fazê-lo.
Fernanda: Entrevistámos por Skype empreendedoras na Faixa de Gaza, na Palestina, e percebemos que elas têm preparação, mas lidam com uma série de faltas de recursos que não nos afetam a nós, como falhas de energia, estragos e outras questões. Elas baseiam-se na força da comunidade e em outros empreendedores para obterem recursos e fazer parcerias, mas também em empresas que veem necessidade de investir naqueles locais, oferecendo recursos que elas não têm. E acabam por se tornar criativas em arranjar formas de fazer os produtos entrar e sair da Faixa de Gaza.

Estiveram em Silicon Valey, onde entrevistaram mulheres na área da tecnologia, mas onde a participação feminina é ainda muito baixa. Há boas perspetivas para que esses números cresçam ou a mudança ainda vai ser muito lenta e difícil?
Fernanda:
Na área de tecnologia é preciso muito investimento para conseguir crescer. Se 95% dos investidores de venture capital são homens, é natural que deem prioridade a iniciativas de outros homens, porque são coisas que eles entendem e conhecem. Ouvimos esta explicação durante toda a nossa estadia. Um exemplo: uma mulher criou uma máquina que faz pensos higiénicos de forma mais fácil, para que possam chegar às áreas rurais. Como é que se apresenta isto a um investidor que não faz a mínima ideia sobre o que ela está a falar? Os homens também conversam mais sobre as suas ideias de negócios entre si, durante uma happy hour, por exemplo — algo que ainda é um problema para muitas mulheres que não se sentem à vontade para o fazer. Não é talento feminino que falta nesta área; é o ambiente que não propicia que as mulheres compitam em condições iguais.
Taciana: Ter mais mulheres investidoras também é fundamental.