Vera Pinto Pereira: “Não segui um guião de carreira”

Teve três meses para mudar de canal e entrar num filme completamente novo. Vera Pinto Pereira deixou as responsabilidades ibéricas que tinha na FOX para se tornar administradora executiva da EDP. Uma mudança que não estava planeada, que é o seu maior salto para fora da zona de conforto, mas a que não resistiu.

Vera Pinto Pereira, administradora executiva da EDP.

Vera Pinto Pereira estava na Fox desde 2014, onde tinha responsabilidades ibéricas como Executive Vice-President da Fox Networks Group Iberia e era membro do conselho executivo daquele grupo para a Europa e África, quando recebeu o convite para administradora executiva da EDP.

Licenciada em Economia pela Universidade Nova de Lisboa e com um MBA pelo INSEAD, não se amedrontou com o facto de este convite implicar uma mudança para um setor completamente diferente daquele em que construiu a sua carreira – foi diretora na TV Cabo (hoje NOS), e esteve na criação e lançamento do MEO, do qual foi diretora antes de integrar a FOX. Gosta de sair da sua zona de conforto e, aos 43 anos, considerou que era uma boa altura para aceitar um desafio desta envergadura. Durante três meses estudou a fundo as novas matérias e desde Abril ocupa um gabinete no 6º piso da sede da EDP na Av. 24 de julho. A seu cargo está a área comercial numa altura em que o setor da energia atravessa uma das maiores transformações de sempre. “Este é um momento único em que quero participar”, diz a executiva que escolhe os desafios em função do entusiasmo e não de acordo com um guião que dita o que deveria fazer.

O que a fez trocar um cargo com responsabilidades ibéricas na Fox pela EDP?
Acho que tive três motivações-chave para tomar a decisão de deixar o setor das telecomunicações e dos media ao fim de quase vinte anos de carreira, para mudar para o setor da energia. A primeira foi a de integrar a liderança de uma grande empresa, que não obstante ser uma multinacional, tem ADN português e uma equipa extraordinária. Motivou-me imenso participar dessa equipa, dessa gestão, dessa visão.

A segunda motivação foi a de participar numa das maiores transformações da atualidade, que é a revolução energética. Seja pelo tema das energias renováveis e da sustentabilidade, seja pela descentralização da produção que se aproxima do consumo, seja pelo desafio da descarbonização, o setor atravessa mudanças estruturais que impõem uma transformação profunda daquilo que é o negócio da energia, e portanto, este é um momento único em que quero participar.

Por fim, esta mudança levou-me a sair da minha zona de conforto, que é algo de que gosto muito. Achei que a combinação destas três razões eram a fórmula certa para não pensar duas vezes e dar o passo.

Foi exemplar aquilo que a empresa fez, porque pode tirar partido de sangue novo e ideias novas, mas fazendo da forma correta, que é também dando-me a informação e o background que eu preciso, para depois poder aplicar a minha experiência.

Qual a missão que lhe foi confiada para este mandato?
A missão que me foi entregue foi a responsabilidade da área comercial da EDP, na qual há dois grandes pilares a trabalhar. Um é continuar a consolidar o esforço da empresa de ter um enfoque no cliente, um entendimento das suas necessidades, de forma a criar uma experiência de cliente robusta, rica e que abra, depois, espaço de negócio. A EDP começou a fazer este caminho com o processo de liberalização e têm-no feito de forma absolutamente extraordinária. Encontrei, aliás, uma empresa muito mais avançada e preparada para o cliente do que esperava. No entanto, há ainda um caminho a fazer e essa é uma das missões que me foi entregue.

A outra, é de trabalhar o alargamento do posicionamento e da proposta do valor da EDP Comercial, neste momento de transformação do sector energético, para entregar mais do que energia. É um caminho que já vem a ser desenvolvido há alguns anos, porque efetivamente nós somos mais do que o comercializador de eletricidade, somos uma empresa que proporciona soluções na área da energia e é preciso ajudar o cliente a entender  que necessidades é que pode ter e como é que nós podemos dar resposta, de uma forma positiva e valiosa para todos.

Sendo a sua primeira experiência neste setor, quais os principais desafios que esta sua função na EDP lhe coloca e como se preparou para eles?
Sendo um setor completamente novo para mim é preciso conhecê-lo de forma aprofundada e detalhada, até porque tem as suas temáticas muito específicas, é muito técnico, altamente regulado, e é preciso entender de forma profunda todas essas dimensões. Se há experiências passadas que eu posso aplicar aqui, há também um ponto fundamental, que é saber quando é que as posso aproveitar e quando é que parece que posso, mas na verdade não posso, porque o sector é de facto muito diferente. Para desenvolver esta sensibilidade estive três meses a estudar o setor com detalhe. Tive a sorte e o privilégio  de ter aqui uma equipa extraordinária que não só me deu tudo o que eu precisava de ler, como passou várias horas comigo a explicar-me e a ensinar-me o que eu preciso de saber sobre o sector.

Muitas vezes há o receio de mudar para uma área completamente diferente pela falta de conhecimento, mas no seu caso teve três meses para se preparar.
Houve um cuidado da empresa de entender que se por um lado podia ganhar com a vinda de uma pessoa de fora do setor, por outro lado, isso também exige um esforço por parte de todos. Exige um esforço meu que tenho a obrigação de me preparar adequadamente, e exige um esforço da empresa e das equipas que cá estão para se disponibilizarem para me apoiar naquilo que eu preciso de absorver. Foi exemplar aquilo que a empresa fez, porque pode tirar partido de sangue novo e ideias novas, mas fazendo da forma correta, que é também dando-me a informação e o background que eu preciso, para depois poder aplicar a minha experiência.

Na EDP também encontrei pessoas extraordinárias, e isso torna tudo mais fácil – é das coisas melhores na minha nova função. Depois, também é ótimo ter que puxar pela cabeça e aprender sobre tantas matérias novas.

O que é que a mudança para a EDP mudou na sua vida?
A grande mudança foi a de passar a estar mais tempo em Lisboa. Acho que acabo por trabalhar tantas ou mais horas do que trabalhava na FOX, mas tenho mais tempo porque estou em Lisboa e isso faz muita diferença.

Qual a parte da sua nova função de que mais gosta?
As pessoas. Deixei equipas extraordinárias na FOX, aliás acho que essa foi uma das minhas missões na empresa e foi conseguida. Mas na EDP também encontrei pessoas extraordinárias. Há uma qualidade técnica enorme naquilo que é o corpo EDP e há também uma qualidade humana muito grande. É boa gente, e isso torna tudo mais fácil – é das coisas melhores na minha nova função. Depois, também é ótimo ter que puxar pela cabeça e aprender sobre tantas matérias novas.

Na Fox dividia as suas semanas entre Portugal e Espanha. O que aprendeu de mais valioso com os espanhóis?
A confiança e autoestima. Os espanhóis têm uma característica ótima e eu aprendi isso com eles, entram sempre numa sala de cabeça levantada. São confiantes diante de qualquer desafio. Ao longo dos quatro anos que estive na FOX, qualquer desafio que eu desse às minhas equipas em Espanha, a resposta foi sempre a mesma: “Vamos!”. Depois logo se via como vencer os obstáculos.

Há outro exemplo que costumo dar, e que tem a ver com a elaboração do plano anual, que incluía uma página para mencionar as oportunidades adicionais e os riscos adicionais que as equipas identificavam para o ano seguinte. Curiosamente, o documento espanhol começava sempre pelas oportunidades adicionais, e em todos os outros escritórios começava pelos riscos adicionais. Foi isto que aprendi com os espanhóis, esta garra, a confiança e boa autoestima.

Um dos meus pontos fortes é perceber que o meu sucesso faz sempre parte de um todo, que é uma equipa. Ter esta noção faz com que consigamos tirar o melhor dos outros, saibamos respeitar aquilo com que cada um contribuí e entendamos qual é o nosso lugar.

Qual considera serem os seus pontos fortes, em termos profissionais?
Resiliência, porque eu nunca desisto. Exigência, acima de tudo comigo, o que tem sido bom em todas as etapas da minha vida. E perceber que sozinha não sou nada e que o meu sucesso faz sempre parte de um todo, que é uma equipa. Ter esta noção faz com que consigamos tirar o melhor dos outros, saibamos respeitar aquilo com que cada um contribuí e entendamos qual é o nosso lugar.

Vera Pinto Pereira estudou a fundo os dossiers da EDP antes de assumir funções.

Quais os momentos da sua carreira que foram determinantes para a conduzir ao lugar que hoje ocupa?
É muito difícil identificar apenas um. O meu início de carreira foi importante, porque foi exigente e isso deu-me a tal resiliência. Isto é como com os filhos, se os mimamos demais eles não estão preparados para a vida. Eu não fui apaparicada no primeiro emprego e isso foi muito bom para mim. O meu início de carreira foi em consultoria [na Mercer], por isso passei pelas noitadas, pelas análises duras, pelos chefes exigentes e isso preparou-me para a vida. Depois saí para fazer o MBA [no INSEAD, aos 25 anos] e de seguida passei pelo empreendedorismo, o que me deu uma visão clara sobre o quão difícil é vender, e a importância de desenvolvermos uma dimensão comercial em tudo o que fazemos.

Também as aprendizagens que fiz com os diferentes chefes que tive ao longo da minha carreira foram importantes. Tive chefes extraordinários, uns que me despertaram para a importância de sermos obcecados com o detalhe, outros que me desafiaram a pensar sempre grande, outros que me ensinaram o respeito pelas pessoas, a importância de termos a tal noção de que sozinhos não somos nada.

Todos os momentos de viragem me marcaram muito porque fui consolidando a noção de que é importante tomarmos essas decisões de viragem de forma a escolhermos aquilo que nos faz feliz. Não segui um guião de carreira. As mudanças que fiz foram determinadas por aquilo que me apetecia fazer e não necessariamente com aquilo que era planeado, ou que eu devia fazer. Aos 25 anos fiz o MBA porque me apeteceu e quando decidi fazê-lo quis fazê-lo em grande e no sítio mais divertido, que para mim era o INSEAD. E que já agora deixasse também um selo que me fosse útil pela vida fora.

Um MBA numa boa escola dá a quem trabalha connosco ou a quem nos está a convidar para um desafio, mais algum conforto e alguma garantia. Ou seja, por vezes, pode ser a diferença entre ter uma oportunidade ou não.

De que forma o MBA impactou a sua carreira?
Acho que em alguns momentos ao longo da vida, um MBA numa boa escola dá a quem trabalha connosco ou a quem nos está a convidar para um desafio, mais algum conforto e alguma garantia. Ou seja, por vezes, pode ser a diferença entre ter uma oportunidade ou não.

Qual o projecto profissional que lhe deu mais gosto participar?
Não consigo escolher apenas um, tenho de citar três. No MEO tive a oportunidade de a partir de uma folha em branco desenhar, não sozinha mas com toda uma grande equipa, um serviço de televisão que veio alterar radicalmente a forma de ver televisão em Portugal – começámos a gravar, andar para a frente e para trás. Na FOX mergulhei nos conteúdos, que é um mundo onde me revejo totalmente, e foi a minha afirmação enquanto gestora num plano internacional. Foi muito importante para mim entender que consigo estar na dimensão internacional.

A EDP significa o meu maior salto para fora da zona de conforto – um sector completamente diferente depois de 15 anos de Telecom e Media.

É uma das primeiras administradoras executivas da EDP. Qual o significado que esse facto tem para si?
Acima de tudo, encerra uma responsabilidade tremenda de entregar ao mais alto nível, mas também reconheço que servirá de exemplo para muitas pessoas. Porém, se eu não estiver à altura não terá feito sentido.

As jovens que estão a iniciar uma carreira devem ter, desde o primeiro momento, a ambição de chegarem longe. Não devem começar a corrida a pensar que não vai ser para elas ou que será mais difícil.

Que medidas podem acelerar a ascensão de mais mulheres a estes cargos?
Acho que a medida mais eficaz é darmos o exemplo, é dar visibilidade a histórias de sucesso. Isso é valioso para as empresas, porque podem sentir-se motivadas, inspiradas também elas a aumentarem a diversidade, e é valioso para as outras gestoras porque se sentem, eventualmente, inspiradas e motivadas a fazerem o mesmo caminho e verem que é possível chegar a estes lugares. Também é valioso para as jovens que estão a iniciar uma carreira e que devem ter, desde o primeiro momento, a ambição de chegarem longe. Não devem começar a corrida a pensar que não vai ser para elas ou que será mais difícil. Depois, se não chegarem porque não querem já é uma opção pessoal válida.

Qual a mais-valia que mais mulheres nos boards podem trazer às empresas?
A mais-valia da diversidade. Quando falo de diversidade, não consigo só falar de mais mulheres, falo de mais diversidade de experiências, de backgrounds. Eu represento não só uma mulher, mas uma mulher que veio de fora do sector, com um currículo um bocadinho diferente de quem cá está e portanto, acho que aporto tudo isso e não só o facto de ser mulher. Mas falando especificamente nas mulheres, acho que a grande mais valia que trazem aos boards é o facto de serem diferentes dos homens, porque as discussões serão tanto mais ricas quanto maior for a diversidade das pessoas que nelas participam.

Que ações toma no dia a dia para incentivar a ascensão de mais mulheres a cargos de topo?
Tento participar em palestras e conferências partilhando a minha experiência. Recentemente, aceitei fazer o discurso da graduação dos alunos da NOVA, onde eu própria tirei o curso, com uma mensagem que também passou por algumas destas coisas. Procuro que o meu exemplo inspire outras mulheres.

Que conselho deixaria a uma jovem finalista que vai entrar no mercado de trabalho?
Acho que deve ter a clara noção de que pode chegar onde quiser, não deve partir com a sensação que tem limitações por ser mulher, e por recear a conciliação da carreira com a construção familiar.  A melhor coisa que me aconteceu na vida foi a maternidade. A minha família e o meu marido são as coisas melhores que eu tenho, não abdicaria de nada disso por uma carreira, mas também acho que tudo isso é compatível. O importante é procurar um parceiro de vida que tenha os mesmos valores e motivações. A maternidade é tão importante como a paternidade, a presença de uma mãe ou de um pai em casa é igualmente importante. Devemos estar disponíveis para partilhar esse espaço familiar com o homem, para eles também nos darem o espaço que precisamos para prosseguir uma carreira de sucesso. Portanto acho que o conselho é “the sky is the limit!”