Tem presença executiva?

Há quem a defina como uma arte — a verdade é que, sem ela, a progressão profissional será muito mais difícil. A boa notícia é que, caso não a tenha, pode desenvolvê-la. Duas executivas explicam o que é ter presença executiva e como aperfeiçoá-la.

A presença executiva é como "uma arte porque não existe uma fórmula única que sirva a toda a gente e porque deve ser personalizada."

O currículo não diz tudo sobre um líder. É no terreno que melhor podemos ter uma noção da sua eficácia, observando a forma como comunica, como impacta os outros com a sua presença e atitude, a sua capacidade de passar uma imagem de credibilidade e de fazer leituras rápidas nos ambientes em que se move.

Quem tem este conjunto de aptidões bem afinadas poderá dizer que tem “presença executiva” e essa espécie de “fator X” profissional pode determinar o progresso na carreira. Segundo um estudo do Center for Talent Innovation, nos EUA, que entrevistou 268 executivos norte-americamos, ela representa 26% do conjunto de aptidões e competências necessárias para se ser promovido. Linguagem corporal, assertividade e (sobretudo) educação são pontos que mais contam para construir uma imagem com presença executiva. Embora os entrevistados digam que a aparência não é muito relevante, cerca de três quartos concordam que um dress code mais despreocupado ou desleixado retira credibilidade a pessoas de ambos os sexos.

De que falamos, afinal?

Mas o que significa ao certo esta expressão? “Presença executiva é uma atitude determinada, que pressupõe credibilidade e confiança nos cargos de responsabilidade e liderança”, diz-nos Ana Torres, executiva da Pfizer e presidente da PWN Lisbon.

Para Sofia Tenreiro, CEO da Cisco em Portugal, a expressão significa “saber adequar a mensagem, a forma e estilo a cada situação, cada interlocutor e cada audiência, mantendo sempre uma postura genuína como base, assente nos valores e personalidade de cada um. Permitirá, assim, passar a mensagem correta recorrendo a uma imagem adequada e carismática que criará um impacto positivo. Se isto for bem feito, permitirá construir também uma relação de confiança e de credibilidade sustentável.”

Num artigo para a Ellevate Network, a managing director e responsável anticorrupção do Citibank, Chinwe Esimai, define-a como “a arte de se apresentar de forma profissional, competente e confiante, inspirando os maiores níveis de respeito e envolvimento. É uma arte porque não existe uma fórmula única que sirva a toda a gente e porque deve ser personalizada.”

Como aperfeiçoar a sua presença executiva

“Os segredos para projetar uma imagem adequada e carismática são, por um lado, conseguir ser genuíno e, por outro, investir bastante na preparação”, observa Sofia Tenreiro. Mas existem outras dicas que os especialistas e as executivas mais experientes vão lembrando.

Prepare-se bem: A imagem carismática não vem automaticamente acoplada à promoção. Como em tudo, é preciso prática e aperfeiçoamento, não apenas do visual ou da forma de comunicar, mas do todo, como observa Sofia Tenreiro. “Todos os pormenores que contribuem, individualmente e no seu conjunto, para se conseguir ter uma presença executiva e uma imagem positiva podem e devem ser preparados: voz, postura, dress code, mensagem no seu conteúdo e forma, entre outros.”

Reconheça o seu valor único: Além da preparação, é bom trazer consigo também a sua confiança e a noção do valor que a sua presença e conhecimentos trazem à conversação. “Isso vai permitir-lhe aumentar a eficácia”, diz Chinwe Esimai. “Perceba o que constitui excelência no seu setor de atividade e crie a sua marca pessoal única. Aproveite e assuma a sua perspetiva e experiência únicas.”

Faça uma boa leitura da sala: Num artigo para a Ellevate, a consultora em estratégia e desenvolvimento de liderança, Miriam Grobman, dá algumas pistas daquilo que deve observar antes de começar a falar. “Preste atenção ao ambiente. Quem está a falar com quem? Quem poderá envolver-se mais ou menos com a sua mensagem? Deverá ser mais séria ou mais casual?”

Estude a sua audiência e adeque a mensagem: “É fundamental conhecer a audiência e ter os objetivos da apresentação claros para se poder depois adaptar e definir todos os elementos (voz, postura, dress code, mensagem)”, lembra Sofia Tenreiro. “Estes devem ser pensados para cada situação, mas devem ter por base as características que genuinamente nos retratam e pelas quais somos conhecidos. Os oradores profissionais a nível mundial fazem-nos sentir como se a mensagem tivesse sido pensada para nós, como se estivessem a falar diretamente para cada um de nós e apenas para nós.”

A “falta de cuidado na preparação e a opção pelo improviso” são, aliás, dois dos erros mais comuns observados por Sofia Tenreiro no que toca à presença executiva adequada. “Passa uma mensagem muito negativa de falta de respeito pela audiência e de falta de profissionalismo. Cada orador tem a responsabilidade de trazer novidades à audiência, quer através de informação que a assistência provavelmente não conheça, quer sob a forma de pontos de vista diferentes e inovadores que a deixem a pensar.”

Miriam Grobman aconselha ainda a equilibrar bem a quantidade de dados estatísticos e de narrativa apelativa, sempre que faz uma apresentação — é o segredo para cativar a sua assistência. E mantenha o foco: os parêntesis quanto ao âmbito da conversa podem ajudar a prender a assistência, mas devem ser curtos e vir a propósito do tema que os traz ali.

Atenção à linguagem corporal: até porque, muitas vezes, ela passa mais mensagens ainda do que aquilo que é dito, lembra a executiva Chinwe Esimai. “Tenha cuidado com a sua postura. Mostre-se preparada e mantenha as costas direitas. Estabeleça contacto visual com a sua audiência. Use gestos propositadamente para realçar pontos-chave, mas use-os com parcimónia para não distrair as pessoas da mensagem.”

Fale devagar, mas de forma dinâmica: Durante as suas apresentações, fale de forma pausada para poder controlar a sua respiração e de maneira a que a sua mensagem seja clara para todos. Pode incluir mesmo algumas pausas — um silêncio até 3 segundos entre frases ou entre um ponto e outro da sua conversa, projeta uma imagem de confiança, ao contrário do que possa parecer, dizem alguns especialistas. Imprima também dinâmica ao seu discurso com algumas inflexões de timbre de voz, que dão sempre alguma expressividade e que, tal como os gestos, servem para acentuar as partes mais interessantes.

O dress code também importa: A imagem importa, sobretudo em ambientes profissionais e, por mais injusto que possa parecer, continua a determinar a impressão que os outros têm de nós. Se não tem a certeza sobre o dress code de um evento onde vai participar, informe-se primeiro com os organizadores. Nas restantes interações em ambiente profissional, mais institucionais, aposte no que for mais seguro relativamente à cultura da sua empresa. “Existe um dress code que é maioritariamente seguido, mas atualmente todas as opções são aceites, desde que seja fiel ao seu todo e ao meio onde opera”, diz Ana Torres. “Fugir ao dress code tradicional é um risco e nem todos têm a confiança para o fazer, dado que ainda existem muitos juízos de valor quanto à diferença.”

Seja genuína: Para a presidente da PWN Lisbon, um dos maiores erros que se cometem na tentativa de projetar uma imagem com mais presença executiva étentar personificar quem não se é — facilmente resvala para um figurino desadequado e artificial. Sermos fiéis a nós mesmos é fundamental e revelador da nossa genuinidade.”

Sofia Tenreiro concorda que a autenticidade é uma das marcas das personalidades mais carismáticas. “Os oradores devem apostar numa forma que seja reflexo da sua personalidade e que reflita as suas características, para a forma ser genuína e contribuir para uma comunicação eficaz e cativante.”