Soledade Carvalho Duarte: “Mais do que nunca, liderar é servir e… cuidar”

A managing partner da Invesco Transearch defende que mais do que nunca o papel dos líderes é fundamental para enfrentar o que vivemos e o que nos espera a seguir.

Soledade Carvalho Duarte, managing partner da Invesco Transearch.

Ainda não tinha 30 anos quando aceitou o desafio de liderar o escritório da Invesco Transearch em Lisboa, a primeira empresa de pesquisa direta de executivos em Portugal. Ao assumir o cargo de managing partner, Soledade Carvalho Duarte tornava-se assim a única mulher na Europa a liderar uma representação desta multinacional especializada em executive search – só tinha mais uma colega, nas Filipinas. Licenciada em Gestão de Recursos Humanos e Psicologia do Trabalho tem dedicado toda a sua carreira à seleção de executivos e quadros superiores, acompanhando e gerindo de perto processos de recrutamento de alto nível para empresas portuguesas e internacionais, quer em solo nacional, quer no estrangeiro.

 

“Por mares nunca dantes navegados…

Já muito se escreveu e partilhou nas redes sociais e imprensa em geral sobre o covid 19 e as implicações que as medidas impostas pelo governo e recomendações da DGS estão a ter na vida de cada um. Não quero e temo não saber acrescentar grande coisa ao muito que já foi dito, exceto deixar alguns pensamentos soltos, fruto de algumas noites de insónia.

Por mares nunca dantes navegados. Não consigo deixar de pensar no que os primeiros navegadores portugueses devem ter sentido ao partir e nas semelhanças com o que estamos a viver. Temos pela frente um mar que nunca navegámos, não sabemos bem o caminho – sabemos apenas a direção – estamos dependentes de condições que não dominamos, intuímos que vai haver vendavais e tempestades e temos fé em Deus que a nossa nau vai chegar a bom porto.

Mas as semelhanças não se ficam por aqui: as naus que partiam tinham a bordo uma equipa numerosa com os olhos postos no seu capitão, que seguia as suas ordens e confiava que ele os levaria, com sorte a todos eles, sãos e salvos ao destino.

O paralelo com as nossas organizações é evidente. Portanto, no que diz respeito a ansiedade, stresse e incerteza, estamos conversados, assim como na necessidade de seguir um Líder em quem confiamos.

Agora o desafio é o que é que cada um de nós pode, deve e consegue fazer, quer pelas nossas organizações quer por todas as entidades a que estamos ligados, e qual a forma mais adequada para o fazer.

Sempre defendi que Liderar é Servir e hoje estou firmemente convencida que esta afirmação ganhou raízes mais  profundas e mais fortes.

O meu primeiro pensamento e preocupação vai necessariamente para os mais frágeis e vulneráveis. E frágeis, nos dias que atravessamos, são todos os que se cruzam connosco e temos capacidade para influenciar ou impactar, independentemente de serem hierarquicamente dependentes ou não, conhecidos ou relativamente desconhecidos. Desde logo, todos os colaboradores das nossas empresas e suas famílias, que estão dependentes da qualidade das decisões que os líderes tomam, ou não tomam, da sua lucidez, serenidade e capacidade para assegurar a sobrevivência dos negócios e consequentemente, a perenidade das organizações e dos empregos.

Características de liderança como a capacidade de mobilização de recursos, foco e resiliência assumiram uma nova criticidade a que eu acrescentaria a boa energia, esperança e confiança, não descurando a comunicação, pois só passando com regularidade mensagens claras e inequívocas do que está a acontecer e como a se está a evoluir, se baixa os níveis de inquietação e até de pânico que não raramente se espalham nas organizações.

Vulneráveis são todos aqueles que continuam a trabalhar, com risco de contágio mais ou menos elevado, mas que asseguram o que resta da normalidade das nossas vidas: profissionais de saúde e todos os que trabalham nos hospitais, farmácias, supermercados e lojas de bairro de produtos alimentares, bombas de gasolina, bem como forças de segurança, bombeiros, bancários que estão nas agências ainda abertas ao público, empregados dos CTT, incluindo carteiros que asseguram a distribuição do correio, seguranças de espaços públicos, estafetas que fazem as entregas, as largas centenas de profissionais que asseguram os call centers, etc..

E como podemos impactar em toda esta população? Em primeiro lugar mostrarmos que estamos profunda e coletivamente agradecidos pelo trabalho que estão a fazer, em segundo, e não menos importante, cumprindo escrupulosamente as regras. Ao mantermo-nos protegidos, estamos a protegê-los também.

Não sabemos como vão ficar as nossas vidas e as nossas organizações quando a pandemia passar, mas sabemos que vai passar e que as nossas famílias, as nossas empresas e a comunidade em geral esperam que demos o nosso melhor e que não nos esqueçamos que Liderar é servir e… cuidar.”