Sofia Vaz Pires: “Apenas 3% dos licenciados em TIC em todo o mundo são mulheres”

Para Sofia Vaz Pires, CEO da Ericsson, é urgente despertar as mulheres para estas áreas, porque até 2025 haverá 7 milhões de novos empregos STEM na Europa e não haverá pessoas suficientes para ocupá-los. Uma entrevista em que se fala também dos desafios da Ericsson, que já leva 68 anos de atividade em Portugal.

Sofia Vaz Pires é CEO da Ericsson em Portugal

Sofia Vaz Pires é CEO da Ericsson Portugal desde julho de 2021. Licenciada em Engenharia Eletrotécnica e de Computadores (especialização em Telecomunicações) pelo Instituto Superior Técnico e com um MBA pela ESADE Business School, Barcelona, ​​Espanha, a sua carreira iniciou-se precisamente pela Ericsson, em 2004. Em 2011, ingressa nos headquarters mundiais da BT PLC, em Londres, onde chega a vice-presidente EMEA Telecom Sales. Em 2017, ainda em Londres, integra a multinacional japonesa Ricoh como vice-presidente Global Business Development & EMEA Internacional Sales. Regressa a Portugal em 2020, para assumir um cargo de direção na NOS Comunicações, antes de se juntar novamente à Ericsson, desta vez para liderar a empresa.

Com quase 20 anos de carreira em empresas líderes no setor de tecnologia e telecomunicações, com uma diversificada experiência em mercados internacionais em várias empresas, funções e geografias nomeadamente, Portugal, Espanha, Reino Unido e América Latina, em 2017, integrou a lista dos 40 gestores portugueses mais promissores com menos de 40 anos, iniciativa do Expresso com o Fórum de Administradores de Empresas (FAE) e o Ministério da Economia.

O que a levou a escolher o curso de Engenharia Eletrotécnica e de Computadores?

Desde criança sempre tive uma curiosidade incessante em perceber a lógica por detrás de tudo.  Confesso que, até aos dias de hoje, o raciocínio lógico é uma das minhas características mais vincadas. Por tudo isto, pareceu-me o caminho da Engenharia ser o certo para mim e a Engenharia Eletrotécnica e de Computadores a área que me permitiria uma ligação mais ampla a vários temas relacionados com tecnologia. Sempre me fascinou o processo de análise de problemas complexos, contemplado com a elaboração de um plano de ação concreto e eficiente na resolução dos mesmos, o que é algo inerente à Engenharia e com aplicação direta em desafios da vida profissional e pessoal. 

A sua carreira tem sido feita em empresas de tecnologia e telecomunicações. Em quase 20 anos nestas áreas nunca se sentiu tentada em aplicar os seus conhecimentos num setor diferente? O que mais a entusiasma nestas áreas?

Nunca mudei de área porque considero o sector da tecnologia e telecomunicações fascinante, sobretudo a possibilidade de melhorar a qualidade de vida das pessoas e a forma como comunicam e interagem pelo uso de tecnologia.

Regressar a Portugal e liderar a equipa da Ericsson Portugal é uma oportunidade extraordinária para ter uma contribuição direta na aceleração tecnológica das organizações portuguesas e dos consumidores, num contexto de grande transformação do mercado das telecomunicações em Portugal em que vivemos, com a implementação de uma solução tão disruptiva como o 5G. 

 

Há uma evolução tremenda na forma como Portugal se apresenta no mercado global, capaz de oferecer soluções e serviços ao mais alto nível, bem como talentos extraordinários, com uma formação e conhecimentos que lhe permite enfrentar qualquer desafio em qualquer quadrante do planeta.

 

Esteve fora entre 2011 e 2020, tendo trabalhado com mercados tão diferentes como Espanha, Reino Unido e América Latina. Em que medida esta experiência internacional impactou a sua carreira?

A minha experiência profissional em várias empresas, em diferentes geografias e continentes, permitiu-me o contacto com outras culturas e o conhecimento de outras dinâmicas de mercado. Também a gestão de múltiplos desafios associados a funções tão diversas como Vendas, Estratégia, Operações, Parcerias, Gestão de Portfolio, entre outras, com responsabilidade a nível nacional, regional e mundial, possibilitou-me acelerar a minha curva de aprendizagem e desenvolvimento pessoal e profissional.

A combinação destes múltiplos eixos de diversidade de experiências resulta numa rápida adaptação a novas situações e desafios, que se traduz na minha forma de ser e estar, algo que considero diferenciador, com resultados no desempenho das equipas e do negócio.

Desempenhei cargos de desenvolvimento de negócio na conquista de novos clientes, definição de estratégia e liderança de operações na abertura de novos mercados, bem como no lançamento de novos produtos da BT a nível regional (Europa, América do Sul) e a nível mundial, neste caso, enquanto Global COO do negócio Wholesale da BT. Antes de regressar a Portugal, assumi um duplo cargo executivo numa empresa japonesa líder mundial de tecnologia, a Ricoh, com responsabilidade por todo o departamento de vendas internacionais da EMEA e, em simultâneo, a responsabilidade a nível mundial por áreas tão transversais como a unidade de Estratégia, Marketing, Parcerias e Consultoria de Vendas para o crescimento de contas globais com novos produtos e serviços IT.

Independentemente do contexto geográfico ou da natureza da função, considero que um desafio comum inerente aos cargos de liderança é a capacidade de manter o equilíbrio certo entre as diferentes prioridades de negócio e o lado humano das organizações.

O que a fez regressar a Portugal e quais as principais diferenças que notou?

Para o meu regresso a Portugal foi fundamental a possibilidade de estar mais perto da família e, de alguma forma, contribuir para o desenvolvimento do setor tecnológico do nosso país, como resultado do meu perfil académico e experiência profissional. Este é um mercado mais pequeno em dimensão, mas um excelente incubador de tecnologias, pela apetência dos consumidores finais na adoção de novas tecnologias.

E verifica-se, também, que as empresas de tecnologia estão cada vez mais a apostar na entrega de propostas de valor aos consumidores, com elevado grau de inovação e verdadeiro benefício associado. Ou seja, há uma evolução tremenda na forma como Portugal se apresenta no mercado global, capaz de oferecer soluções e serviços ao mais alto nível, bem como talentos extraordinários, com uma formação e conhecimentos que lhe permite enfrentar qualquer desafio em qualquer quadrante do planeta.

 

Os estudos indicam que o potencial de criação de valor económico do 5G para Portugal aumentará exponencialmente a médio-longo prazo, mais concretamente, 17 mil milhões de euros até 2035, e que não será só a área das telecomunicações a irá beneficiar, mas todos os setores económicos.

 

O que a atraiu na proposta da Ericsson e qual a missão que lhe foi entregue?

A Ericsson procura continuar a sua posição de liderança e de referência do mercado. Como já referi, o investimento em Portugal nas tecnologias existe e é cada vez maior, o nosso mercado é transformador e é visto como tal.

Abraço este novo desafio na Ericsson com o objetivo de agregar valor à equipa e ao negócio, tendo em conta a experiência que adquiri lá fora, mantendo sempre o foco na inovação. Quero garantir que mantemos todo o compromisso evidenciado pela Ericsson ao longo destes 68 anos no nosso mercado e pugnarei para manter a liderança no mercado nacional e por proporcionar um ainda maior crescimento da operação em Portugal.

Na Ericsson Portugal há muito talento, pessoas com muito know-how e especialistas reconhecidos. Por isso, mantendo o equilíbrio certo entre as diferentes prioridades de negócio e o lado humano das organizações, tudo irá fluir de forma muito positiva.

A Ericsson está muito bem posicionada no 5G a nível mundial. Qual o impacto que isso terá na operação em Portugal?

A Ericsson está pronta para fornecer tecnologia 5G há muito tempo. Somos líderes globais e até ao momento já fechámos 168 acordos e contratos comerciais na área do 5G, com operadores de telecomunicações nos cinco continentes, já com 97 redes 5G ativas, estando 51 delas representadas na Europa.

O sucesso da operação em Portugal não se cinge apenas a um cariz estritamente comercial, é uma estratégia muito mais ampla e estrutural.

No final de 2019 desenvolvemos um estudo, e que ainda se mantém atual, que aponta para um impacto adicional de 3,6 mil milhões de euros na economia portuguesa até 2030, no âmbito da indústria das tecnologias de informação e comunicação em Portugal.

Outros estudos indicam que o potencial de criação de valor económico do 5G para Portugal aumentará exponencialmente a médio-longo prazo, mais concretamente, 17 mil milhões de euros até 2035, e que não será só a área das telecomunicações a irá beneficiar, mas todos os setores económicos.

 

Em Portugal, a leadership team tem uma representação feminina de 36%, o que é altamente significativo no sector das TIC.

 

Quais os principais desafios que a Ericsson enfrenta atualmente?

Tendo em conta que somos líderes globais no desenvolvimento e implementação da tecnologia 5G, estamos cientes da sua importância para a estratégia nacional de transformação digital. Vivemos num mundo em mudança, onde as economias são crescentemente globalizadas e integradas, o que significa uma necessidade crescente na utilização dos conceitos tecnológicos mais inovadores. Como tal, estar na linha da frente e manter a liderança é um objetivo constante.

Nesse sentido, queremos manter uma estratégia focada em desenvolver e implementar mais projetos diferenciadores que irão posicionar o país na vanguarda digital.

Temos que nos apoiar na estrutura mundial, mas a Ericsson Portugal é feita das pessoas que estão cá e gerem estes desafios diariamente. Vamos continuar a fazer o trabalho que temos feito junto dos parceiros, desde o Governo, regulador, operadores. O nosso objetivo é continuarmos na vanguarda, cientes da nossa posição de trendsetters, com cada vez mais redes 5G ativas, patentes, acordos e contratos comerciais na área do 5G.

A Ericsson já leva 68 anos em Portugal. Qual a importância do nosso mercado no grupo e quais os principais objetivos a atingir até completar os 70 anos?

O objetivo da Ericsson Portugal passa por ter um papel primordial no desenvolvimento tecnológico e crescimento digital. Portugal é um país competitivo e atrativo para o investimento externo, em especial no setor das TI. Queremos continuar a entregar o nosso know-how no desenvolvimento social e económico de Portugal.

É que se a nossa dimensão e menor massa crítica não nos permite alimentar grandes desígnios globais, o potencial dentro de portas enorme. Somos uma incubadora de start-ups tecnológicas e temos muitos talentos de elevada qualidade académica a sair das nossas universidades, prontos para entrar no mercado de trabalho.

A falta de mulheres na tecnologia agrava a escassez de talento nesta área, mantém a visão feminina muito afastada desta área onde a inovação é uma constante e as mulheres longe das carreiras com mais futuro e que melhor remuneram. O que tem a Ericsson feito para atrair, reter e desenvolver mais talento feminino?

De facto, esta é uma situação transversal e que naturalmente nos preocupa. De uma forma geral, a Ericsson gosta de reter todos os seus talentos, não apena o talento feminino. A nível local, temos uma parceria com a Associação Portuguesa para a Diversidade e Inclusão, participámos recentemente no “1.º Encontro Aliança para a Igualdade nas TIC”, uma iniciativa conjunta entre a “Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género” e a “Associação Portuguesa para a Diversidade e Inclusão”, e assinámos uma carta de compromisso de forma a contribuirmos para a promoção da inclusão digital das mulheres e respetiva participação nas engenharias e nas tecnologias, consolidando e estruturando formas de cooperação sistemáticas.

Neste momento estamos também a participar na “5.ª edição do programa Engenheiras por um dia”, que pretende promover a opção pelas engenharias e pelas tecnologias (as denominadas STEM) junto das jovens estudantes dos ensinos básico e secundário, desconstruindo a ideia de que estes temas são domínios masculinos, combatendo os estereótipos que condicionam as suas opções escolares e de carreira.

Segundo um estudo da UNESCO, haverá 7 milhões de novos empregos STEM na Europa até 2025, e não haverá pessoas suficientes para ocupá-los. Devemos ter conhecimento que atualmente apenas 3% dos licenciados em TIC em todo o mundo são mulheres e é importante despertá-las para estas áreas.

A nível global, a Ericsson também celebra anualmente a iniciativa Girls in ICT Day. Em Portugal, antes da pandemia se instalar, costumávamos comunicar com a comunidade local e íamos às escolas de ensino secundário promover as carreiras ligadas às áreas de engenharia, mostrando o que as profissões STEM podem proporcionar às mulheres jovens, além de reforçarmos o que de bom a tecnologia pode trazer para as pessoas, para comunidades inteiras.

No que diz respeito aos números de género na Ericsson no nosso país, quero destacar o Portugal Leadership Team, onde contamos com uma representação feminina de 36%, o que é altamente significativo no sector das TIC.

 

A maioria dos jovens vive hoje em dia com muita pressa para chegar ao destino final. O maior concelho que lhes posso dar é para aproveitarem qualquer experiência académica, profissional ou pessoal que lhes seja oferecida.

 

Em 2017 foi premiada como um dos 40 gestores portugueses mais promissores, numa iniciativa promovida pelo Expresso, o Fórum de Administradores de Empresas, o Ministério da Economia, entre outras entidades de referência. Que comportamentos e atitudes a distinguem e a conduziram à posição que hoje ocupa?

Considero que o meu principal elemento diferenciador é a minha diversidade de experiências a vários níveis, nomeadamente localização geográfica de residência, tipo de empresa (de fabricante a cliente, de multinacionais a empresa nacional), funcional e âmbito da minha responsabilidade direta (local, regional e mundial). Acredito que a combinação de todas estas experiências e outras características do meu percurso e da minha personalidade foram fatores decisivos para este novo passo na minha carreira e sinto o dever e a responsabilidade de, em conjunto com todo o talento e equipas que definem a força e liderança da marca Ericsson em Portugal, reforçar a posição do negócio no mercado nacional e construir um novo capítulo para as nossas pessoas.

Qual o maior desafio profissional que enfrentou?

Considero que até à data todos os meus desafios tiveram um elevado grau de complexidade, o que foi algo que naturalmente sempre procurei, talvez associado à tal ‘curiosidade incessante’ que referia no início desta entrevista e uma característica constante que se tem demonstrado na forma como tenho abraçado sucessivos novos desafios ao longo da minha carreira.

Cada desafio, depois de ultrapassado é uma experiência muito enriquecedora e revela que, se assim quisermos, estamos numa constante viagem de aprendizagem tanto a nível pessoal como profissional para próximos caminhos futuros.

Que conselho deixa às jovens que ambicionam chegar a posições de liderança?

Creio que a maioria dos jovens vive hoje em dia com muita pressa para chegar ao destino final. O maior concelho que lhes posso dar é para aproveitarem qualquer experiência académica, profissional ou pessoal que lhes seja oferecida. Todos os desafios são uma oportunidade de crescimento e da minha experiência os desafios mais difíceis ao princípio, são os que se tornam mais enriquecedores para o futuro. Aconselho-as a serem destemidas e corajosas e a seguir a curiosidade inerente ao ser humano para descobrir mais além. Durante a nossa viagem de vida há sempre muitos obstáculos que, depois de superados, nos tornam mais fortes para enfrentarmos o futuro. Mais que tudo, e como em qualquer viagem, é importante saber desfrutar da caminhada e não apenas da chegada ao destino final.

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