Sofia Nunes, embriologista

A sua profissão é fazer bebés, como brincam os amigos. Sofia Nunes é embriologista e responsável pelo laboratório de Fecundação in vitro do IVI Lisboa.

Sofia Nunes é responsável pelo Laboratório de Fecundação in vitro do IVI Lisboa.

Licenciada em Bioquímica pela FCT – UL e doutorada em Bioquímica Física pela FCT- UNL, Sofia Nunes é responsável pelo Laboratório de Fecundação in vitro do IVI Lisboa, desde 2006. Nesta entrevista desvenda os segredos da sua profissão.

Como descreve a sua profissão?
O embriologista é o profissional que se dedica a realizar a fertilização dos óvulos no laboratório e posteriormente a observar o desenvolvimento dos embriões gerados. No fundo, é quem cuida dos embriões antes destes serem transferidos para o útero da futura mãe.

Que formação é necessária para trabalhar nesta área?
Para fazer carreira nesta área é necessário uma licenciatura no ramo das ciências biológicas. Pode ser em Medicina, Biologia, Bioquímica ou Farmácia.

Qual foi o seu percurso até chegar às funções que hoje desempenha? 
Sou licenciada em Bioquímica, pela Faculdade de Ciências de Lisboa e, logo após a conclusão da licenciatura, realizei o doutoramento em Bioquímica Física na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Lisboa.

Já tinha vivido um ano fora, e ambicionava voltar a fazê-lo. Adoro a sensação de me sentir estrangeira num País pelo simples facto que todos os dias aprendo coisas novas! Quando terminei o doutoramento, resolvi sair de Portugal e fui viver para a cidade de Valência, em Espanha. Quando lá cheguei, não tinha trabalho, apenas o apoio da família. Enviei alguns CV e passado pouco tempo tive a sorte de ter sido chamada para uma entrevista na mais prestigiada empresa de Reprodução Humana a nível internacional – o IVI – Instituto Valenciano de Infertilidade. Aí comecei a minha formação. Naquela altura, a clínica onde trabalhava tinha (e tem) um grande volume de trabalho, o que me permitiu adquirir rapidamente as competências necessárias para trabalhar nesta área. Só para ter uma ideia, o IVI Valência faz aproximadamente o mesmo número de ciclos de fecundação in vitro que Portugal inteiro, cerca de 5 mil ciclos. Quase três anos depois, a clínica abriu em Lisboa e posso dizer que tenho um enorme orgulho em fazer parte deste projeto desde o seu começo.

Esta área sempre fez parte dos seus sonhos ou objectivos?
Na verdade estava longe de pensar que viria a trabalhar nesta área. No tempo em que me licenciei, apesar de ter estudado Embriologia, em Portugal ainda não se falava muito em tratamentos de reprodução humana. Sempre quis fazer investigação para poder ajudar a contribuir para o avanço na ciência. Sabia que ir para outro país sem trabalho podia significar uma mudança de área. Mas isso não me assustou. Sou uma pessoa que gosta de desafios e muito dedicada. Rapidamente me apaixonei por esta área e o facto de poder ajudar outras pessoas faz com que me sinta como um “peixe dentro de água”.

Quais os traços de personalidade e competências necessárias para desempenhar bem esta profissão?
Acima de tudo, devemos ser muito exigentes para garantir a qualidade de um trabalho bem feito. Devemos ser dedicados e meticulosos. Devemos ser capazes de nos adaptar a novas situações com alguma rapidez. No IVI queremos que os tratamentos sejam personalizados e por esse motivo estudamos a fundo as necessidades particulares de cada paciente. É importante também estarmos atualizados nesta área para poder prestar os melhores cuidados aos nossos pacientes.

De que forma se articula o trabalho com o de outras pessoas?
Trabalho com todos os departamentos. Na clínica todos os departamentos são peças fundamentais para que os tratamentos tenham bons resultados e que os nossos pacientes se sintam bem cuidados. Por essa razão, é muito importante que haja uma boa comunicação entre todos. Semanalmente realizamos reuniões para definir estratégias, discutir objetivos e ver o que ainda pode ser melhorado.

Há cada vez mais casais a sofrerem problemas de fertilidade, sendo uma das principais razões a idade avançada do elemento feminino.

Que principais mudanças regista na sua profissão desde que começou a trabalhar nesta área?
Lamentavelmente há cada vez mais casais a sofrerem problemas de fertilidade, sendo uma das principais razões a idade avançada do elemento feminino. Devido ao aumento de pacientes a requerer tratamento e à necessidade de otimizar os resultados dos tratamentos, têm surgido importantes avanços nesta área. Diria que aquele que maior impacto tem no nosso dia a dia foi a mudança da técnica de congelação de embriões. Quando comecei em 2004, a taxa de sobrevivência dos embriões congelados rondava os 30%. Atualmente, com a nova técnica de congelação, a taxa de sobrevivência dos embriões ronda os 98%. Mas há muitas mais.

 

 

“Adoro ser portadora de boas notícias e adoro saber que fizemos a diferença na vida de alguém. “

Como é o seu dia de trabalho típico?
Diria que não há dias iguais. Eu sou a responsável por um laboratório e, por isso, tenho que dedicar parte do meu tempo à gestão do laboratório. Já não passo tantas horas a realizar atividade assistencial, mas quando alguns dos meus colegas estão ausentes (por férias ou folgas) dou apoio na execução dos procedimentos que estão a decorrer no laboratório. A atividade do laboratório tem que estar muito bem organizada para que as tarefas sejam realizadas em horários específicos e assim obter os melhores resultados. Assim, logo pela manhã é feita a extração dos óvulos às pacientes e só passadas 4 horas é que esses óvulos vão ser fertilizados. Apenas no dia seguinte pela manhã sabemos quantos embriões foram gerados e a partir de aí fazemos o seguimento da evolução dos embriões, até que estes sejam transferidos para a cavidade uterina, ou que sejam congelados. Não observamos embriões para além do sexto dia de vida.

O que mais me emociona é quando recebemos uma visita na clínica dos nossos pacientes com os seus bebés que ajudámos a gerar.

O que mais gosta, e o que menos gosta, no seu trabalho?
Adoro ser portadora de boas notícias e adoro saber que fizemos a diferença na vida de alguém. Mas o que mais me emociona é quando recebemos uma visita na clínica dos nossos pacientes com os seus bebés que ajudámos a gerar. Não tenho palavras para descrever esta emoção!

O que menos gosto é, sem dúvida, dar más notícias, como por exemplo, dizer a uma mulher que nenhum dos seus embriões tem qualidade para ser transferido para a cavidade uterina. Uma informação que tem um grande impacto emocional.

 Qual a parte mais desafiante da sua função?
A parte mais desafiante é quando tenho que transmitir um mau resultado a uma paciente ou casal. Sei que a maioria estão emocionalmente fragilizados e que além disso, fazem um esforço económico grande para concretizar um tratamento de reprodução assistida. Não é fácil quando o resultado não é o desejado.

 Que conselhos deixaria a alguém que ambiciona trabalhar nesta área?
Primeiro devem tirar um curso na área das ciências, com componente de Biologia. Em segundo lugar, diria para trabalharem, para não terem medo de aceitar desafios. O caminho para o nosso objetivo nem sempre é curto e por vezes implica esforços. No entanto há que estar preparado para, na altura certa, no momento certo, agarrar a oportunidade de fazer algo que verdadeiramente nos apaixone.

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