Sandra Tavares da Silva, das passarelas para as vinhas

Desfilou nas principais cidades da moda, mas sempre soube que a sua paixão era o campo, o que a levou à enologia. Com o marido, também enólogo, produz um dos melhores vinhos tintos do Douro.

Sandra Tavares da Silva, a alma da Wine & Soul.

Quando Sandra Tavares da Silva produziu o primeiro vinho, com uvas do vale que escolheu, em conjunto com o marido, estava certamente longe de pensar que um dia uma das suas colheitas iria obter 98 pontos em 100 talvez na mais prestigiada revista norte-americana do sector. Mas foi isso que aconteceu com o tinto Pintas 2011, produzido com uvas de vinhas velhas da mesma vinha, hoje com 3 hectares.

Sandra Tavares da Silva tem 46 anos e é enóloga. Foi praticante de voleibol e chegou a integrar a selecção nacional da modalidade. Foi também modelo e desfilou em cidades como Paris, Milão, Londres ou Nova Iorque. Mas nunca deixou de manter uma ligação ao campo, devido às muitas idas à propriedade da família em Alcochete, gerida pelo pai. Era oficial da marinha, mas gostava mais das actividades do campo e passava lá todo o seu tempo livre. A enóloga diz que, desde que se lembra, sempre quis estar ligada à agricultura.

Foi por isso que ingressou no Instituto Superior de Agronomia, em Lisboa, onde fez um mestrado em viticultura. Para completar os conhecimentos sobre o ciclo de produção do vinho, seguiu para Itália, mais precisamente para o polo de Piacenza-Cremona da Universidade Católica do Sagrado Coração. “Achei que o ensino ali estava mais próximo da realidade portuguesa”, explica, acrescentando que recebeu também ensinamentos sobre a forma de comunicar o vinho, que ainda hoje influenciam a sua forma de estar no negócio. “Eles acreditam realmente naquilo que fazem, algo que falta à maioria dos portugueses”, diz.

Hoje ainda dá apoio aos pais na Quinta de Chocapalha, onde é responsável pela equipa. Mas é sobretudo à sua própria empresa, a Wine & Soul, que fundou no início do milénio com o marido, o também enólogo Jorge Serôdio Borges, que dedica a maior parte dos seus esforços.

Sandra Tavares da Silva e Jorge Serôdio Borges, o marido, que também é enólogo.

União também nos negócios

O projecto foi criado em 2001. “Tínhamo-nos conhecido em 1999, ano em que começámos profissionalmente como enólogos, eu, na Quinta do Vale Dona Maria, o meu primeiro trabalho, onde estagiei e entretanto fiquei a trabalhar, e o Jorge na Niepoort, como assistente do Dirk”, conta Sandra Tavares da Silva.

Quando se casaram, dois anos depois, já tinham o sonho de fazerem vinho juntos. “É sempre uma motivação produzir o nosso vinho, mesmo correndo riscos, pois é o resultado das nossas ideias e experiências”.

Apesar de poderem contar com a disponibilidade das uvas das suas famílias, decidiram adquirir as suas no Vale Mendiz, no Douro. “Desde o início que acreditámos neste espaço do Rio Pinhão, por ser uma zona de grande concentração de vinhas velhas, com uvas muito boas, geralmente vendidas às grandes casas de Vinho do Porto”.

Foi, por isso, que quiseram investir ali. Era um sítio onde se sentiam confortáveis, mas também queriam provar, no início do segundo milénio, que era possível produzir grandes vinhos a partir de vinhas velhas.

Na época a tendência era o seu arranque. Havia grandes investimentos em novas plantações, em parte por pressão das grandes casas de Vinho do Porto, com o pretexto de assim ser mais fácil controlar a produção. Mais tarde a filosofia mudou, precisamente porque se verificou que as vinhas velhas são essenciais para a qualidade final dos vinhos do Porto e do Douro.

Começaram por comprar o armazém, onde também funcionou a primeira adega, e de seguida investiram na compra da vinha que produz o tinto Pintas, o ícone da Wine & Soul, que custa hoje cerca de 80 euros por garrafa no mercado. Os 2,5 hectares iniciais rapidamente cresceram para três e, entretanto, têm procurado comprar todas as vinhas velhas que conseguem à volta da propriedade, sobretudo no vale do Pinhão.

Quando pensaram o projecto, ela e o marido viviam apenas dos seus ordenados. Foi com crédito bancário que compraram as primeiras uvas e o armazém. “Hoje seria muito mais difícil levar um projecto destes avante”, afirma a enóloga, acrescentando que havia uma nova geração a estabelecer-se, com ideias diferentes, e maior atenção para o sector e a região.

Uma das vinhas do casal.

O primeiro vinho

O primeiro vinho foi dado a provar, ainda em barrica, a diversos intervenientes do sector, e o passa palavra foi funcionando. “Ia-se falando dele, o que foi gerando apetência”, conta Sandra Tavares da Silva, acrescentando que tiveram sorte de fazer o lançamento na altura do grande boomdos vinhos não fortificados do Douro. Tudo isso contribuiu para que a primeira colheita deste tinto estivesse quase toda alocada quando foi lançada. Mesmo ao preço de venda ao público recomendado que tinha previsto: 60 euros.

Acreditavam no vinho que estavam a produzir e na região duriense, e quiseram diferenciar-se também em termos de preço, logo desde o início. Para além disso, “os vinhos do Douro têm custos tão elevados e produções tão reduzidas, que colocar um preço demasiado baixo seria o princípio do nosso fim, a médio prazo”, explica Sandra Tavares da Silva.

Mesmo hoje, o número de garrafas de Pintas colocadas no mercado anualmente não ultrapassa as cinco a seis mil unidades. Sandra e Jorge nunca caíram na tentação de aumentar o volume de produção, mesmo após vários anos de sucesso da marca. Apenas fizeram crescer o preço recomendado de venda ao público para os actuais 80 euros. “É a forma de marcarmos posição a nível internacional e nacional”, defende.

A aposta na vinha

Entretanto foram comprando vinhas e, em 2009, a Quinta da Manoella, com 60 hectares, propriedade da família do marido, que hoje tem cerca de 28 hectares em plena produção. “A existência de mortórios florestados cria um microclima húmido e fresco na quinta, um pouco diferente do tradicional no Douro”, explica a enóloga. Por isso, e apesar de as duas propriedades ficarem na mesma zona, os tintos produzidos em Vale Mendiz, os Pintas, são muito diferentes dos Manoella e Quinta da Manoella.

No que respeita a brancos, Sandra Tavares da Silva e o marido começaram por produzir os Guru a partir da vindima de 2004. Depois de alguns anos à procura das uvas com as características que queriam para o vinho idealizado, “um branco clássico, elegante e de guarda”, encontraram-nas numa das regiões durienses onde se produzem alguns dos melhores vinhos do Porto brancos, a de Murça. Ali foram arrendando e comprando pequenas parcelas de vinhas com 50 a 70 anos, implantadas em terrenos de xisto, granito e de outras origens.

Segundo Sandra Tavares da Silva, as vinificações são separadas. “Por vezes uma parcela dá uma barrica, outras duas, mas é a forma de aprendermos e registarmos tudo o que cada uma pode oferecer” explica, acrescentando que produzir brancos é muito mais difícil do que tintos.

Um dos pontos críticos de uma empresa como a Wine & Soul é a disponibilidade de matéria-prima, que é preciso assegurar. É, por isso, que nunca deixaram de investir na aquisição de vinhas. Hoje são mais de 30 hectares.

Também é necessário estar sempre atento ao mercado. “É tão importante produzir um vinho de qualidade, como saber colocá-lo nos melhores sítios, trabalhar com os parceiros certos e ouvir os consumidores”, defende a enóloga. Portugal representa apenas 30% das vendas, a Alemanha é o principal destino internacional, seguindo-se os Estados Unidos, Suíça, Macau e Brasil, onde mantêm os mesmos distribuidores desde o início. Sandra Tavares da Silva faz questão estar de estar o mais presente possível no mercado, revezando-se, nas viagens aos 20 mercados onde vendem os seus vinhos, com o marido. “Entre Fevereiro e Julho há sempre um de nós lá fora”, refere a enóloga. O seu volume de negócios em 2017  foi de 1,2 milhões de euros.

Mais do que por causa da empresa, aquele que fica, fá-lo porque é preciso dar apoio aos três filhos. Também foi, por isso, que se mudaram do Pinhão para Vila Real. “Não os queremos prejudicar por estarem distantes da escola, dos amigos e das atividades paralelas ao ensino”, justifica. Sempre que precisam contam com o apoio dos familiares que estão mais perto e da “família do Douro”, como Sandra gosta de dizer. São essencialmente as de enólogos da sua geração que trabalham no Douro, como Manuel Lobo, da Quinta do Crasto, Francisco Ferreira, da Quinta do Vallado, Jorge Moreira, da Real Companhia Velha, Quinta de La Rosa e Poeira, ou Xito Olazabal, da Quinta do Vale Meão. “Somos muito amigos e temos filhos mais ou menos da mesma idade.”

Hoje, a Wine & Soul tem 15 colaboradores e fatura 1,2 milhões de euros. Sandra Tavares da Silva reconhece que “todo o sucesso que o Pintas teve e continua a ter é um grande motivo de orgulho e foi muito importante para consolidar a imagem da marca no mercado”.

A HISTÓRIA DE UM NOME

Quando produziram o primeiro vinho, Sandra e Jorge quiseram criar um nome que fosse facilmente perceptível lá fora, por um público o mais abrangente possível. Tinham estabelecido, desde o início, exportar a maioria da produção e era necessário ter marcas que fossem fáceis de memorizar em várias línguas. Foi assim que surgiu a marca Pintas. Era o nome do cão que os acompanhava habitualmente. “Mas também o associámos aos pingos do vinho com que voltamos muitas vezes para casa”, diz a enóloga. A designação “Guru” foi criada com o mesmo princípio, mas “Manoella é diferente, pois está associada ao nome da propriedade”, explica ainda Sandra Tavares da Silva