Sandra Alves, uma enóloga da terra

O maior de todos os desafios foi-lhe lançado há mais de uma década por João Roquette, CEO do Esporão, de que resultaria na criação dos “Colheita” da gama Esporão, com uvas com origem no modo de produção biológico. Em 2020, todas as vinhas estarão a produzir em modo biológico.

Sandra Alves é responsável pela enologia do Esporão.

As virtudes de um enólogo são muitas. A primeira delas é, como é óbvio, gostar de vinho. Gostar do campo, da terra, também ajuda. É preciso ser trabalhador e ter espírito de sacrifício, porque há alturas em que tem de estar inteiramente dedicado à vinha ou à adega, onde é essencial a presença constante de quem possa tomar decisões, sobretudo durante as vindimas. Estas são algumas das qualidades de Sandra Alves, 44 anos, gestora de enologia do Esporão, a que alia a capacidade de correr riscos e de inovar. Isto sem nunca deixar de estudar, pois o conhecimento é essencial a quem quer desempenhar bem a sua profissão. “O universo dos vinhos está em permanente evolução, e é preciso saber sempre o que está acontecer, para definir o que se quer e seleccionar o que interessa para alcançar os resultados pretendidos”, explica.

Nos ciclos da videira

Sandra Alves nunca se imaginou a viver noutro lado que não no interior. Esteve, desde sempre, ligada às vinhas e ao campo em Trás-os-Montes. Na sua casa havia sempre vinho à mesa e viveu os ciclos do ano da videira, de Setembro a Setembro, de vindima a vindima, trabalho feito “de forma muito artesanal, a acompanhar os avós e resto da família”, vivência que condicionou a sua escolha quando chegou a altura de ingressar no ensino superior. “Queria algo que me mantivesse ligada à terra, à biologia”, conta.

Licenciou-se em enologia na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro e, mais tarde, fez uma Pós-Graduação em Viticultura e Enologia na Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica Portuguesa do Porto. Depois de passar por vários projectos de enologia, um deles na Austrália, entrou para o Esporão, onde desempenha funções desde 2014.

Dos primeiros tempos como enóloga, recorda que um dos principais desafios foi compreender como se faz um vinho. “Na realidade, quando frequentamos o curso, ficamos com umas bases de química, biologia e até de prova”, explica Sandra Alves. “Mas compreender a terra e aprender a forma de transformar a matéria-prima, a uva, num vinho com qualidade para a mesa que nos conquiste também a alma, implica alguma humildade. É uma aprendizagem constante, que envolve a vida toda”, acrescenta.

Tudo tem um tempo

Desses primeiros anos de profissão, “um desafio estimulante”, guarda uma lição: tudo tem um tempo. É necessário, sempre, manter a atenção, ser trabalhador e perspicaz. “As coisas acabam por acontecer. Mas nunca sem desafios a superar. Em todas as vindimas, por exemplo”, refere Sandra Alves. O maior de todos os desafios foi colocado à equipa por João Roquette, CEO do Esporão, há mais de 10 anos, e que resultaria na criação dos “Colheita” da gama Esporão, com uvas com origem no modo de produção biológico.

Para garantir a produção de vinhos para o mercado, não bastava garantir que as vinhas estivessem preparadas para produzir em modo biológico. Era preciso encontrar formas de potenciar a qualidade, mantendo a capacidade diferenciadora das uvas biológicas. “Foi um processo que foi sendo desenvolvido nas nossas cabeças e na adega, que implicou algum investimento e resultou na produção de vinhos completamente diferentes do resto da gama”, explica a enóloga.

Descreve, por exemplo, o tinto como um vinho irreverente, “com boa estrutura e textura, que fica lindamente na mesa, onde não perde a sua frescura e mineralidade”. Defende que são características pouco comuns nos vinhos do Alentejo, que se devem não só às uvas, mas também ao facto de a fermentação decorrer em cubas de betão, “algo que fomos ensaiando e aprimorando ao longo dos anos. Verificar isto no copo e na garrafa é inspirador”, realça.

Mas no mundo actual, não basta produzir boas uvas e saber transformá-las. Ser enóloga também implica estar atenta às tendências do mercado. “Mas não só as modas, porque não acredito que nós, enólogos, andemos atrás daquilo que toda a gente está à procura”, defende Sandra Alves, para quem o melhor é olhar para o que tem em casa, saber o seu potencial e decidir o que fazer com isso.

Por exemplo, quando o Esporão conseguir ter todas as suas vinhas em modo de produção biológico, em 2020, Sandra Alves espera que todos os vinhos da gama sejam certificados. “Não porque é moda, mas sim porque acreditamos ser, de facto, uma mais-valia para as nossas terras, uvas e empresa”, afirma. Como é evidente, isso implica que a mensagem que a casa irá transmitir aos seus clientes e consumidores mostre que a opção de fazer vinhos biológicos é mais do que comercial. “Também é uma aposta no futuro do ambiente, de todos nós”, explica a enóloga.

Identidade forte

Para a sustentabilidade das vendas, é fundamental saber manter a identidade das marcas em Portugal e nos mercados externo. A verdade é que hoje, no nosso país, é quase impossível encontrar maus vinhos. Mas Sandra Alves considera essencial o sector ir além disso mantendo, ano após ano, aquilo que distingue os vinhos que coloca no mercado, com os seus produtores a reportá-los a regiões, casas produtoras, e vinhas. Também preservando “a dignidade da garrafa de vinho e cuidando da imagem das marcas” contribuindo, dessa forma, para manter o respeito do público e a capacidade de cada referência atrair as pessoas e gerar vendas.

Também defende que não se deve facilitar no negócio, aceitando baixar preços para gerar vendas imediatas. Para que isso aconteça, “devemos acreditar na panóplia de castas portuguesas, na nossa capacidade de fazer bem na adega e, hoje, ter orgulho nos vinhos que produzimos”, defende, acrescentando que não há nada pior do que chegar aos Estados Unidos ou Suíça e ouvir alguém dizer: “Este vinho é maravilhoso. Porque é tão barato?”.

Comunicar 

Hoje o Esporão exporta 60% dos vinhos que produz, principalmente para o Brasil e Estados Unidos, o que implica que a actividade de Sandra Alves inclua também viagens frequentes. “É algo sempre importante, para comunicar e explicar melhor os vinhos, e ajudar as pessoas a conhecerem aquilo que os distingue”, papel sempre mais bem desempenhado por quem está envolvido na forma como são produzidos.

A gama Esporão é produzida com uvas com uvas das propriedades da empresa. Começa nos colheitas branco e tinto, as marcas mais recentes, irmãos mais novos e irreverentes do Esporão Reserva, a primeira que a empresa lançou. Depois existem as monovinhas Vinha do Canto Zé Cruz, cuja base é a casta Aragonez, e Vinha das Palmeiras, de Alicante Bouschet. Um pouco mais acima estão os Private Selection branco e tinto e, no topo e raro como os vinhos dos grandes anos o devem ser, o Torre do Esporão, tinto de que só existem três colheitas desde que foi lançado no mercado, em 2004. Apesar de gostar de todos, no dia em que a Executiva a entrevistou, quando o calor começava finalmente a despontar, Sandra Alves acompanharia um Reserva Esporão branco com um queijo de Serpa, usufruído numa esplanada qualquer. Porque não?

O que é um grande vinho

Para Sandra Alves, “um grande vinho é, sobretudo, aquele que nos preenche os sentidos quando o provamos, levando-nos numa viagem. Tem de ser aquele que me dá, em primeiro lugar, satisfação, aquele que bebo e me sinto UAU! Por me preencher o nariz, a boca e os sentimentos, de tal forma que o meu pensamento fica envolvido pelos seus aromas e sabores, porque me sabe bem! Depois será um vinho com mais potencial para durar na garrafa, mais delicado e elegante.”