Ruth Breitenfeld: “Sou uma desassossegada”

Ruth Breitenfeld é vice-presidente da Cepsa Portugal, dividindo as suas semanas entre Lisboa e Madrid. Por três vezes, recomeçou a sua vida do zero, mas fala sobre isso de uma forma sempre positiva. Na vida profissional, a curiosidade e interesse em compreender o negócio na globalidade levou-a a passar de advogada para a gestão de empresas.

Ruth Breitenfeld é vice-presidente da Cepsa Portugal.

Aos 57 anos, Ruth Breitenfeld concilia a serenidade de um monge tibetano com o olhar vivo e a gargalhada de uma criança traquina. Licenciada em Direito, depressa se destacou pela capacidade de analisar os problemas, decompondo-os até à sua essência. A isto se alia o interesse por compreender o negócio na globalidade, o que a colocou numa posição privilegiada para dar
o salto de advogada para a gestão de empresas. É casada, tem dois filhos, de 26 e 30 anos, e é a vice-presidente da petrolífera Cepsa no nosso país, dividindo-se entre Lisboa e Madrid. Integrou a companhia petrolífera em 2006 como responsável pela direção de assessoria jurídica. Entre 2013 e 2014 acumulou com a direção de Recursos Humanos. Em setembro de 2015, assumiu a responsabilidade da assessoria jurídica da Cepsa Trading SAU, e, desde janeiro de 2016, é também a vice-presidente da Cepsa Portuguesa Petróleos. Nesta qualidade, integra a direção da APETRO – Associação Portuguesa de Empresas Petrolíferas, e a vice-
-presidência da Câmara de Comércio Luso-Espanhola. A sua história, e a da sua família, é marcada pelas dificuldades de três recomeços de vida, mas Ruth Breitenfeld não a recorda com amargura. Prefere contá-la com alegria.

 

Primeiro emprego como secretária de Administração 

Enquanto estudava Direito, dava explicações e fazia traduções. O que ganhava era para comprar gelados e ter aulas de canto. A partir do 4.º ano da faculdade, estagiava num escritório de advogados, com um querido amigo a quem chamo padrinho, o António Fialho Pinto, apenas para saber como é a realidade do Direito: com o António fui às conservatórias e até às prisões. Ensinou-me que é preciso saber fazer o trabalho, ver o que as coisas custam, para depois saber coordená-lo. 

O meu primeiro emprego foi em part-time como secretária de Administração da empresa do pai de uma querida amiga. Aprendi imenso: a importância do trabalho, de fazer as coisas bem… até aprendi a trabalhar com o telex!

Aprendi a ouvir e a não fazer as coisas sem perceber quais os objetivos pretendidos. Continuo a praticar e a partilhar esse ensinamento.

O primeiro trabalho na área do Direito surgiu por acaso no Coro Bach. Dava-me bem com um casal, ele era alemão e tinha uma consultoria de investimento estrangeiro. Trabalhava com uma advogada externa, a Ana, com quem aprendi muito, mas queria criar um departamento interno de apoio jurídico e convidou-me porque eu tinha o perfil que ele procurava: era advogada, bilingue português/alemão, falava inglês, era decidida e bem-disposta. 

Aprendi imenso com o Claus. Ele dizia uma coisa muito interessante: «Podes ter um documento jurídico tecnicamente perfeito, mas se não refletir a necessidade do teu cliente, não vale nada». Aprendi a ouvir e a não fazer as coisas sem perceber quais os objetivos pretendidos. Continuo a praticar e a partilhar esse ensinamento. Outra lição de liderança aprendi-a com outro alemão, o Uwe Franke. Independentemente do stresse e dos muitos projetos, tinha sempre tempo e disponibilidade para as pessoas. Essa tranquilidade que ele transmitia ficou comigo. 

Hoje, na parte jurídica da Cepsa, tenho ainda sob a minha alçada os negócios de bunker e trading, que são negócios internacionais em que por vezes temos pouco tempo para tomar uma decisão. Mas estou disponível para as pessoas. Tenho de as ouvir para, independentemente do tempo que tenhamos para decidir, criar mentalmente espaço (chamo-lhe «a bolha») e desconstruir o problema para depois voltar a construir. O esforço é sempre de toda a equipa, fabulosa, composta por advogados, pessoas do negócio, financeiros, operacionais…

Já vivi a experiência de acharem que podem decidir por mim, como se alguém fosse meu dono. Mas é um erro. Eu sou um ser livre.

Aprendi que não somos donos uns dos outros, que estamos cá para nos desenvolvermos e permitir que os outros ganhem espaço, principalmente se liderarmos uma equipa. Há alturas em que temos de sair do caminho para que outros possam seguir o seu. Também já vivi a experiência de acharem que podem decidir por mim, como se alguém fosse meu dono. Mas é um erro. Eu sou um ser livre. Como a música dos Delfins: «quando alguém nasce, nasce selvagem, não é de ninguém». 

Comecei a trabalhar com a Isabel Jalles, que foi uma pioneira no Direito Europeu, num julgamento com uma empresa alemã em que era preciso um tradutor em tribunal. Ela entusiasmou-me para fazer uma pós-graduação em Direito Comunitário. Estávamos em 1986, um ano após a adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia (CEE), por isso foi um timing excelente. Deixei a CGI Wolfram, onde fiquei com amigos para a vida, quando ela me convidou para trabalhar no escritório que estava a abrir em Lisboa. Entre 1987 e 1991 estive aí, na área do Direito Comunitário, com empresas europeias, o que despertou em mim o bichinho dos negócios.

Nesta época, juntamente com outros advogados europeus, contribui para um livro sobre um determinado tipo societário. Escrevi em alemão, o que me soube muito bem. Através da mulher de um colega de escritório — a Joana e o Pedro, mais tarde amigos — soube de uma vaga na BP. Estava como advogada externa e sempre achei que gostaria de trabalhar numa multinacional. Decidi fazer a experiência por dois anos, candidatei-me e nunca mais deixei de trabalhar como advogada inhouse. Sinto que fui conquistada pelo mundo dos negócios.

Gosto do mundo das empresas, de perceber a atividade, trabalhar com pessoas tão diferentes, com profissões distintas, de várias áreas, com questões de natureza tanto de negócio, como financeiras ou de recursos humanos, e perceber como é que a parte jurídica tem impacto na atividade global da empresa e como somos todos parte da mesma equipa. Todos temos de ser prestadores de soluções, não de problemas. Em qualquer ramo, o que a área jurídica tem de fazer é perceber o negócio e o seu enquadramento jurídico. A Cepsa acautela em especial o valor da segurança, e a segurança também é a nível jurídico. 

Um ensinamento que me ficou é o de «calçar os sapatos» do meu próximo, conhecer as suas dificuldades. E tenho de ter a capacidade de exigir, de forma construtiva, que também sintam as minhas dores, porque se não soubermos as dores um dos outros não caminhamos, não conseguimos construir soluções. Todos nós temos a nossa vertente mais sombria, temos é de puxar pela nossa vertente mais brilhante. 

 

Passagem da BP para a Cepsa

Apanhei a BP numa fase muito interessante. Uma empresa muito aberta, a nível global, à frente do seu tempo, com muitos projetos novos, até de liderança e diversidade. Foi uma fase de muita aprendizagem, e muita partilha também. 

Tentei trabalhar noutras áreas que não a jurídica, mas por um motivo ou outro, não aconteceu. Eu sou uma desassossegada. Quando me sinto demasiado confortável numa posição, desassossego-me. O trabalho é parte integrante e essencial da nossa vida e eu preciso e gosto de desafios. 

Antes de entrar na Cepsa, juntei as férias a um curso intensivo de espanhol. Estive seis semanas a limpar a cabeça, para criar espaço para coisas novas.

Estava numa altura de desassossego, em que sentia que já tinha feito e contribuído tudo o que era possível. Mas não procurava ativamente uma mudança. Foi uma headhunter que me contactou. Acho que temos de ouvir o que nos têm a propor, para exercermos a nossa liberdade de escolha. Vi na Cepsa um desafio muito interessante, o de criar uma assessoria jurídica interna em Portugal. 

Antes de entrar na Cepsa, juntei as férias a um curso intensivo de espanhol. Estive seis semanas a limpar a cabeça, para criar espaço para coisas novas. A minha principal preocupação era a de não entrar com ideias pré-concebidas, com um soundbite na cabeça que só cria ruído. Queria construir a minha própria opinião e visão das coisas. O que se pedia não era que fosse corrigir trabalho, era que criasse um modelo de assessoria jurídica definido pela companhia. O caminho que escolhi foi construir sobre o bom trabalho que encontrei feito. 

Trabalhei afincadamente para que corresse bem. Tive a sorte de encontrar uma companhia com uma enorme capacidade de mudança. O desafio foi criar uma relação com as pessoas que já cá estavam, e com as quais partilhei êxitos, dores de crescimento e desafios. Temos de aprender uns com os outros e a partir daí tudo se constrói e vamos crescendo juntos. 

Quem diria há 10 anos que íamos trabalhar em open space, de uma forma muito mais aberta, com o nosso portátil em qualquer lado, em permanente interação Portugal/Espanha, e com uma estrutura completamente diferente, totalmente integrada? Esta evolução é espetacular.

Tive o privilégio de ter chefias que, mesmo sendo eu muito nova, me puseram em projetos grandes, o que me permitiu interagir com outras pessoas, organizar, estruturar. Ultrapassar dúvidas e medos. Foi assim na BP e é assim na Cepsa.

Foi muito gratificante ter feito este caminho, mas sozinha não teria feito nada. É vital saber definir bem as prioridades e contar com as pessoas, delegar. Tenho o privilégio de estar integrada numa equipa com excelentes pessoas e profissionais. Tenho vários portos de abrigo: a minha família, os meus amigos, os meus colegas. Eu sou o meu próprio porto de abrigo. E espero ser o porto de abrigo de outras pessoas, pois também estamos cá para isso. 

Tive o privilégio de ter chefias que, mesmo sendo eu muito nova, me puseram em projetos grandes, o que me permitiu interagir com outras pessoas, organizar, estruturar. Ultrapassar dúvidas e medos. Foi assim na BP e é assim na Cepsa. 

Entrei na Cepsa com 44 anos, já com percurso feito. Houve uma altura em que acumulei as minhas funções com Recursos Humanos, um enorme desafio em que aprendi muito. 

Na Cepsa sempre procurei trabalhar ativamente com as áreas de negócios e deram-me a oportunidade de ir além da função legal. Quando me convidaram para vice-presidente, tinha intervenção em projetos muito interessantes. O convite foi recebido com um misto de surpresa e preocupação, mas também com muito entusiasmo e alegria por me permitir representar a minha companhia no meu país. 

Senti-me bem-vinda. Tive reações muito giras, quer de homens, quer de mulheres. Era novidade e claro que se comentava. Alguns homens diziam: «temos finalmente uma mulher entre nós!». Mas a partir daí era taco a taco, não fazem a vida nem mais fácil nem mais difícil. Talvez as reações fossem mais efusivas por parte de algumas mulheres, até porque a Cepsa se tornou a primeira empresa a ter uma mulher como sua representante na direção da APETRO, a associação das empresas petrolíferas, e na Câmara do Comércio e Indústria Luso-Espanhola. Lembro-me de uma reunião em que estava eu e cerca de 15 homens, foi divertido. 

Estou na Cepsa desde 2006. Já fizemos um caminho tão longo e acho um privilégio estar nesta função. Eu não sou esta função, eu sou a Ruth. Eu estou nesta função e espero estar a cumpri-la bem. 

Enquanto advogada, não tenho certamente a visão mais clássica do trabalho. Tenho claro que, para encontrar soluções, preciso de perceber a atividade e o outro. Para poder fazê-lo, gosto de tratar de coisas que vão para além da vertente puramente técnica. A minha zona de conforto não me restringe, permite-me ir mais além. Não é apenas a aplicação do Direito: gosto de ser mais holística. 

Eu gosto das pessoas, gosto de estar com gente, adoro ter a capacidade de olhar para uma situação que é complicada e dizer «vamos lá procurar onde está o denominador comum, simplificar e construir sobre essa base». Por vezes, uma situação que parece muito complexa está rodeada de poeira, e quando esta assenta conseguimos encontrar o caminho. 

 

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