Rita Vilas-Boas: O que aprendi a trabalhar fora de Portugal

Rita Vilas-Boas, diretora de Marketing Estratégico do Grupo Castel, trabalhou nos últimos anos em mercados tão diferentes como Portugal, Suíça, Angola, Dinamarca e China. Neste testemunho partilha as sete principais lições que esta experiência lhe ensinou.

Rita Vilas-Boas é diretora de Marketing Estratégico do Grupo Castel.

Rita Vilas-Boas é diretora de Marketing Estratégico do Grupo Castel, o 3.º maior produtor de vinho mundial e o 2.º maior produtor de cerveja e soft drinks (Cerveja Cuca e distribuição de Coca-Cola) em África. Anteriormente, foi diretora de Marketing na Nuvibrands (Luanda), Sogrape (Portugal), Summergate (China) e ainda passou pela Procter & Gamble, na Suíça e também pela L’Oréal.

Há mais de 20 anos no setor dos FMCG – Fast Moving Consumer Goods e com uma vasta experiência em mercados internacionais, Rita Vilas-Boas tem dedicado a carreira ao planeamento estratégico de marcas de renome. É licenciada em Marketing pela Católica e fez dois programas executivos, na Católica Business School e na Porto Business School.

 

“O caminho que me trouxe até onde estou hoje, começou em 1996, quando terminei a licenciatura em Microbiologia, pela Escola Superior de Biotecnologia pela Universidade Católica Portuguesa e fui trabalhar para a Dinamarca, para um dos maiores centros de investigação da área, desenvolver Lactobacillus para iogurtes. Isso mesmo, Lactobacillus para iogurtes!

Foi exatamente na Dinamarca, a trabalhar com a equipa de Inovação e Desenvolvimento de novos produtos que percebi que aquela era a área onde gostaria de trabalhar. Conciliar a minha curiosidade científica, com gestão e comunicação, e no fundo trabalhar numa área onde pudesse aplicar os conhecimentos adquiridos na universidade com aquelas que julgo serem as minha características ou competências naturais.

Quando tudo começou estava longe de imaginar que haveria de viver em países tão diferentes. Sem me dar conta, viver no estrangeiro tornou-se a minha realidade. Recomeçar do zero a cada mudança de país passou a ser o meu novo “normal”. Olhando em retrospetiva, percebo que só assim foi graças a uma razoável capacidade de adaptação à novidade, à diferença.

Agora, a verdade é que fazer carreira no estrangeiro, sozinha, não foi fácil. Pelo contrário. É duro. Implica força de vontade e muitos sacrifícios, em particular estar longe de tudo o que nos é familiar, da nossa família e amigos. No entanto, esta foi a minha escolha. E não podia estar mais feliz com tudo aquilo que ela me trouxe.

Nesta fase da minha vida, sinto que é tempo de olhar mais e com outros olhos para o meu país, por acreditar que posso de alguma forma contribuir e ter impacto positivo na vida dos portugueses.

Por isso, deixo o testemunho  daquilo que aprendi ao longo dos últimos mais de 20 anos, com estas minhas experiências de trabalho à volta do mundo, em particular algumas “lições” que me fizeram avançar e crescer como pessoa, profissional, líder e mulher.

Nunca perder a autenticidade

Desde criança que sou curiosa. Essa curiosidade, uma pitada de espontaneidade que me caracteriza e – dizem os que me conhecem bem – aliada a um espírito aberto, são os traços que melhor me caracterizam. Foi esta forma de ver o mundo que me levou a fazer uma viagem pela Ásia durante 6 meses, sozinha. E aí aprendi uma das primeiras grandes lições: nunca podemos deixar de ser quem somos e saber de onde vimos. Seja em que parte do mundo for. Esteja no meio de mergulhadores na Tailândia, numa feira de produtores de vinhos em Shanghai ou num evento político em Lisboa, a minha forma de ser e de estar é a mesma. Consistente. Porque sou autêntica e fiel aos meus princípios e valores. Acredito que esta é a postura correta a adotar em todos os campos da nossa vida, profissional ou pessoal.

Tratar as pessoas como elas gostam de ser tratadas e não como achamos que as devemos tratar

Depois de ter vivido em países tão diferentes como a Suíça, a China, Espanha, Dinamarca ou Angola, acredito hoje que a nossa preocupação como profissionais de gestão e liderança – ou até de qualquer outra área onde tenhamos contacto e ligação com outras culturas -, tem de passar por nos centrarmos na forma como as pessoas gostam e estão culturalmente habituadas a ser tratadas e não na forma como nós gostamos de ser tratados. E demorei algum tempo até assimilar este ensinamento, que alguns anos de carreira internacional me trouxeram.

Se por um lado em países como na Suíça ou Dinamarca, é comum as pessoas irem para uma reunião, não se conhecerem, discutirem abertamente os assuntos, tomarem decisões e chegarem a acordo, já na China ou em Angola é tudo muito diferente…

Na China chama-se Guanxi; em Angola existem conceitos mais alargados relacionados com família, que a expressão “estamos juntos” sumariza bem. Ou seja, nunca a forma de fazer negócios na China ou em Angola vai ser apenas uma reunião de trabalho. São contextos onde a criação de uma relação de confiança leva tempo. Observar os hábitos culturais e profissionais do país que nos acolhe é, por isso, fundamental na fase de adaptação.

Esta é, muito possivelmente, a lição mais importante que aprendi na minha vida e que me acompanha para onde quer que vá.

A força inabalável da Cultura

“A cultura come a estratégia ao pequeno almoço”, Peter Drucker

Nunca me vou esquecer da primeira vez que um empresário chinês me deu um cartão de visita, ainda anos antes de ter ido para lá viver. Peguei no cartão com uma mão e guardei-o, sem sequer olhar para ele. Foi imediato e instintivo. Senti logo que tinha “perdido” aquela pessoa, sem entender muito bem porquê. Só mais tarde percebi que, culturalmente, o momento em que as pessoas se conhecem é um momento encarado de forma especial para os asiáticos e é comum trocarem-se cartões de visita nesta ocasião.

Diz o protocolo que o cartão deve ser recebido com as duas mãos, acompanhado de uma leve vénia, em sinal de respeito, enquanto se olha para o cartão, para saber o nome da pessoa e a posição que ocupa na empresa onde trabalha. Este respeito e cordialidade iniciais são fundamentais na cultura asiática.

Nunca mais cometi o mesmo erro. E mais, abraçei este costume de tal forma que passei a adoptar esta atitude a Ocidente, o que tem sido um óptimo quebra-gelo em muitas situações.

O domínio, a compreensão e o respeito pelo contexto cultural e história de cada país são determinantes para que consigamos potenciar relações sólidas e de confiança. A absorção dos hábitos e costumes também é fundamental para que sermos bem sucedidos nos negócios nesses contextos.

Aprender a ser e a estar em minoria

Estamos a assistir, de forma progressiva e encorajadora, a um número cada vez maior de mulheres a chegar a cargos de decisão, um pouco por todo o mundo. Ainda assim, é inegável que continua a ser preciso ser-se uma mulher segura, confiante e que não se deixe intimidar facilmente, para conseguir entrar neste mar de “tubarões” que é o mundo dos negócios.

Felizmente, vamos assistindo a um esforço cada vez maior e mais determinado em lutar contra a desigualdade de género, tantas vezes gritante, que ainda se verifica por esse mundo fora.

Nos últimos anos tivemos uma mulher à frente do governo britânico, outra à frente do governo alemão, uma outra que quase chegou àquele que é tido como o cargo mais importante do planeta – a presidência dos EUA.

Os sinais são positivos e, não tenho dúvidas, as novas gerações vão mudar o cenário por completo. Mas a realidade ainda é esta e, como tal, é preciso que as mulheres – e em particular aquelas que chegam a cargos de liderança – consigam aprender a navegar neste oceano complicado.

Assola-me a dúvida se é mais raro ser mulher ou ser portuguesa em algumas das experiências profissionais que tive, mas acho que a resposta é: ser portuguesa.

Estar perto dos consumidores e perceber como é que estes pensam

Já lhe passou pela cabeça que, não poucas vezes, à escala global, temos conselhos de administração compostos por homens de meia idade – cujas mulheres são, muitas vezes, cuidadoras da família – a tomar decisões sem fazerem a mais pequena ideia de quem é e como pensa o seu “público-alvo”?

Desde cedo, primeiro na L’Oréal e depois na Procter &Gamble, nos ensinam o quão importante para um negócio e, em particular, para uma marca, é estar mais perto de quem faz delas aquilo que elas são: as pessoas.

Lá fora, esta ideia ganha ainda mais importância, uma vez que estamos a falar de países e culturas diferentes, onde as pessoas são movidas por interesses muito diferentes daqueles a que estamos habituados.

Uma vez mais, torna-se fundamental conhecer os hábitos, os costumes e a forma como as pessoas olham para o mundo e para nós, as empresas.

Por isso é que defendo que temos de ser capazes de nos colocarmos numa situação de desconforto confortável. Tentar calçar os sapatos dos outros. Ver o mundo pelos seus olhos. Afinal de contas são esses os olhos que melhor nos podem dizer como é que somos vistos e percepcionados. Os olhos que nos fazem melhorar e evoluir.

Capacidade de adaptação

Sempre tive alguma facilidade em adaptar-me às situações, às realidades, às adversidades. Hoje, percebo que essa capacidade foi determinante para me ajudar a alcançar os objectivos a que me fui propondo pelo caminho. Mais, é a diferença entre triunfar, cair, levantar-nos de novo ou desistir com vergonha de falhar.

Na China tive oportunidade de trabalhar em ambientes com características semelhantes ao das startups que hoje conhecemos, que assumimos serem maioritariamente tecnológicas. Quando as empresas são jovens, a crescer exponencialmente, tecnológicas ou não, há muita improvisação, muitas decisões que são tomadas in loco, a seguir o instinto. Sabemos que tomar uma decisão errada é melhor que não tomar nenhuma, e esse risco tem de ser considerado.

A maioria das empresas não tem procedimentos definidos e perfeitamente elaborados como uma P&G, por exemplo, onde tive oportunidade de aprender, e que me deu uma bagagem muito grande, sobretudo no início de carreira.

O truque é “lateralização”: sermos capazes de pegar nas aprendizagens duma situação e transformá-las e aplicarmos noutras.

Por isso acredito que é fundamental que sejamos capazes de nos inserir na cultura, imergir nas várias circunstâncias, perceber como funcionam os costumes e os princípios, de forma  a compreender o mercado, as pessoas e a forma como se comportam.

Para além disso, ser flexível e capaz de mudar rapidamente a agulha é uma característica apreciada em qualquer parte do mundo, quanto mais não seja porque revela humildade e vontade de aprender e de conhecer melhor o sítio e as pessoas que lá vivem.

Resiliência e paciência são fundamentais

Ser-se resiliente vai muito além da aceitação das coisas que nos acontecem de bom grado. É aceitá-las e reconhecer que, independentemente do que quer que tenha acontecido, poderemos sempre retirar alguma aprendizagem para o futuro.

Alguns nascem com esta qualidade, outros desenvolvem-na ao longo das suas vidas através das experiências. A meu ver, existem algumas qualidades que contribuem para que nos tornemos mais resilientes e todas elas são qualidades com as quais a carreira internacional acaba por nos capacitar. O otimismo é uma delas: conseguirmos ver o copo meio cheio, apesar das adversidades. A empatia é outra: a capacidade de percepcionarmos e sentirmos o que os nossos semelhantes estão a sentir. Por último, a capacidade de procurarmos soluções em vez de nos focarmos no problema.

Acredito sinceramente que a felicidade está onde menos se espera e que só ao sairmos das nossas zonas de conforto é que descobrimos a nossa capacidade quase infinita de superação.

 

Estes são os conselhos que gostaria de ter recebido antes de sair do país para embarcar numa aventura que, na altura, nunca pensei que durasse tanto tempo.

Por isso, já sabe: não deixe de ser quem é, trate os outros como eles gostam de ser tratados, preste muita atenção à cultura dos sítios para onde vai, sinta-se confortável com o facto de estar em minoria, procure aproximar-se das pessoas e, por último mas não menos importante, seja resiliente. Sempre.

Boa viagem e… coragem!”