Rita Sousa Coutinho: “Na vida, o maior risco é não arriscar”

A trabalhar na Walmart na China, depois de oito anos no Brasil, como gestora e empreendedora, Rita Sousa Coutinho defende que a carreira internacional não é necessariamente um risco. Sente-me mais exposta a oportunidades, mas também a riscos, mas garante que isso lhe garantiu um crescimento profissional mais acelerado do que se tivesse ficado em Portugal.

Rita Sousa Coutinho lidera diversos projetos estratégicos da Walmart na China.

A vontade de fazer carreira internacional já estava presente quando Rita Sousa Coutinho se licenciou em Administração e Gestão de Empresas na Católica. O objetivo de começar numa multinacional em Portugal que lhe abrisse as portas do mundo concretizou-se logo no primeiro emprego, na Jerónimo Martins. O Grupo fundado em Portugal no século XVIII estava a dar os primeiros passos para a Polónia e para o Brasil, e foi precisamente neste mercado que Rita Sousa Coutinho fez a sua estreia internacional. Foi uma experiência curta, tal como acabou também por ser a segunda vez que voou para o Brasil com a Jerónimo Martins em 2011. Nesta altura o Grupo queria voltar à América Latina, mas quando a opção foi entrar no mercado da Colômbia, a executiva decidiu, por razões familiares, sair do Grupo, mas ficar no Brasil. Rita Sousa Coutinho garante que a sua carreira internacional tem sido feita tendo sempre como prioridade conciliar a vida familiar com a profissional.

A experiência seguinte foi no Grupo Pão de Açúcar e, em finais de 2014, lança-se por conta própria. Com dois fundos de investimento torna-se acionista maioritária e CEO de um negócio de padarias, que começou com 2 lojas e, quatro anos depois, contava com 44 espaços. No final de 2018, Rita Sosua Coutinho sai novamente da zona de conforto e aceita uma proposta da Walmart, a maior empresa de distribuição do mundo, para liderar diversos projetos estratégicos na China.

A experiência internacional de uma década faz de Rita Sousa Coutinho um dos elementos do Conselho da Diáspora Portuguesa, órgão composto por portugueses e luso-descendentes (residentes fora do país há mais de três anos), que procuram contribuir para a melhoria da imagem e credibilidade de Portugal no estrangeiro, dando a conhecer as suas potencialidades nos países onde trabalham.

 

Quando terminou a licenciatura na Católica quais eram as suas ambições profissionais?
Quando terminei a licenciatura em Administração e Gestão de empresas na Católica queria trabalhar numa empresa multinacional, onde pudesse iniciar em Portugal com possibilidade de carreira internacional. Considerei consultoria estratégica, banca e bens de consumo. Atraiu-me a proposta do Grupo Jerónimo Martins que já estava presente em diversas geografias.

O sector da distribuição é muito interessante e dinâmico e, conseguiria desde logo, ver o impacto das minhas ações. Entrei como trainee e após um período de seis meses de estágio, assumi a função de Merchandising Manager da categoria de congelados no Pingo Doce.

Como surgiu a primeira experiência internacional? E o que equacionou na altura?
Após dois anos no Pingo Doce, tendo passado por mais de uma categoria na Direção Comercial, em 1999 surgiu a oportunidade dentro do Grupo Jerónimo Martins de ir para a operação do Sé supermercados no Brasil. Considerei ser uma ótima oportunidade para iniciar uma experiência internacional.

Conseguia conciliar a minha vida familiar com a profissional e o Brasil é um País com uma dimensão enorme e diversas afinidades com Portugal. Por outro lado, esta experiência no estrangeiro seria também importante para uma futura candidatura a um MBA fora de Portugal, com o qual eu sonhava.

Fazer o MBA no INSEAD foi uma aposta numa carreira internacional? Qual o principal impacto que teve na sua carreira?
O Jerónimo Martins foi uma boa escola, tanto em Portugal, como no Brasil. O MBA no INSEAD permitiu-me o desenvolvimento pessoal e profissional noutras áreas e dimensões. O programa proporcionou uma troca de experiências e partilha de conhecimento únicas. Foi lá também que tive os primeiros contactos com o mundo do empreendedorismo e com o continente asiático, pois fiz parte do programa em França e outra em Singapura. Éramos 7 portugueses, e eu a única mulher.

Logo após o MBA, em finais de 2001, regressei a Portugal ao Jerónimo Martins como Diretora de Marketing do Pingo Doce, o que considerei uma ótima oportunidade. O desafio de reposicionar a marca foi um trabalho de equipa extraordinário. Passados dois anos, acumulei com a Direção Comercial e assumi a Direção de Desenvolvimento de Novos Negócios em 2008. Penso que os resultados obtidos ao longo dos anos, o MBA no INSEAD e, por ser uma pessoa curiosa, sempre com vontade de aprender, tudo contribuíu para a minha evolução de carreira.

Por acreditar que a formação é sempre necessária ao longo da vida, em 2012 fiz o Advanced Management Program da Harvard Business School; um programa verdadeiramente único, transformacional e contínuo de oito semanas que gostei especialmente mas, que foi muito duro, por ter de estar longe da família. Nos únicos 3 dias de intervalo que havia, fui de Boston a São Paulo e regressei para continuar o curso.

Nos primeiros dias como CEO do “Benjamim a padaria” não sabia se deveria rir ou chorar, com os episódios que vivi. Tínhamos de contar o dinheiro para depois o depositar no banco e os padeiros tinham as receitas e não utilizavam qualquer medidor para garantir a uniformidade do produto final.

Quando saiu de Portugal em 2011 já tinha claro que não seria uma estadia tão curta como fora a anterior?
Há uma imprevisibilidade grande na vida. Nunca tive muito claro quanto tempo seriam as estadias fora. Sempre tive como prioridade conciliar a vida familiar com a profissional e, havia gostado muito da primeira experiência internacional.

Como se desenrolou a sua carreira no Brasil?
Em 2011, o Grupo Jerónimo Martins estava a avaliar opções de investimento na América Latina e eu fui para São Paulo nessa equipa. No segundo semestre, perante a decisão de investimento na Colômbia, e a minha vontade de ficar com a família no Brasil, saí da empresa.

No começo de 2012 aceitei a proposta do Grupo Pão de Açúcar, detido pelo francês Casino Groupe, na época o maior da distribuição na América Latina, como CEO da Business Unit de supermercados de proximidade/conveniência no Brasil. O desafio foi muito interessante, o negócio cresceu de 60 para 265 lojas, mais do que multiplicando por 5 as vendas em apenas dois anos, criámos novas marcas e formatos com grande sucesso.

Foi um dos meus melhores momentos de carreira fora de Portugal. Gostei muito da cultura do Casino e do Pão de Açúcar, a economia do Brasil crescia muito, como eu nunca tinha visto em nenhum país da Europa e, sentia-me muito bem a trabalhar na equipa de brasileiros e franceses. Por um bom tempo fui a única mulher e estrangeira, não brasileira nem francesa, na Comissão Executiva.

O que a levou a lançar-se como empreendedora e como selecionou as áreas de negócio?
Em finais de 2014 apareceu a oportunidade de, junto com dois Fundos de Private Equity brasileiros, adquirirmos um pequeno negócio familiar de padaria. O mercado de padarias no Brasil é muito grande, tradicional e fragmentado, são mais de 60 mil padarias independentes e, por isso, bastante atrativo para se começar a organizar em cadeias ou redes profissionais, à semelhança do que existe em outros Países.

Começámos a operação da “Benjamin a padaria” com 2 lojas e alguns quiosques e eu como maior acionista e CEO do negócio. Nos primeiros dias, não sabia se deveria rir ou chorar, com os episódios que vivi; por exemplo, tínhamos de contar diariamente o dinheiro que chegava até mim em sacos pretos semelhantes aos de lixo, para depois o depositar no Banco, víamos os padeiros que faziam as receitas há anos e tinham tudo na cabeça, não utilizarem qualquer medidor para garantir a uniformidade do produto final. A informalidade no negócio era muito grande e, tivemos de colocar normas e controles em toda a empresa. No início, havia apenas 2 computadores. Foi um enorme desafio, um trabalho muito gratificante onde precisei de grande paciência, humildade e de saber ouvir.

Continua ligada a estes negócios mesmo depois de ter saído do Brasil?
A Benjamin cresceu muito e depressa, terminando 2018 com 44 pontos de venda na cidade de São Paulo. Tive uma janela para saída do investimento, a qual aproveitei, vendendo a minha participação aos fundos brasileiros em finais de fevereiro de 2019, já depois de ter saído do Brasil.

A experiência na China tem sido incrível. Nunca assisti a tamanha velocidade de execução.

Como surgiu a proposta para trabalhar na China e o que levou a aceitá-la?
No final de 2018 e após 8 anos no Brasil, os últimos dos quais compatibilizando o investimento na cadeia de padarias Benjamin com Advisory e Consultoria a algumas empresas multinacionais na área de bens de consumo e distribuição, chegou o momento de abraçar um novo desafio.

Por motivos também familiares, a China surgiu como uma boa oportunidade. Recebi o convite do Walmart, a maior empresa de distribuição do mundo, para liderar diversos projetos estratégicos no País, o que aceitei com muito gosto e tem corrido muito bem. E a família está a gostar bastante da experiência.

Esta vivência na China tem sido incrível. Tenho tido a oportunidade de aprender muito sobre a dinâmica de mercado, das marcas e, sobre o consumidor chinês, trabalhando com a digitalização do negócio em diferentes fases da cadeia de valor e em diversos formatos. Nunca assisti a tamanha velocidade de execução. Por outro lado, é a primeira vez que trabalho com uma empresa americana e tenho-me identificado muito com os valores e a cultura da organização, pelo que a adaptação foi fácil.

Quais as implicações que estas mudanças de países tiveram na sua vida pessoal e profissional?
As mudanças de países foram sempre equacionadas no âmbito do enquadramento familiar e, por isso, correram bem. Mas, houve momentos difíceis. Aprendi a encará-los com calma e, nunca me esqueço do que aprendi no Brasil: “Viver um dia de cada vez.”

A nível profissional considero que têm sido desafios aliciantes e muito enriquecedores e, que potenciaram um desenvolvimento pessoal e crescimento profissional mais acelerados, do que teria tido se tivesse ficado em Portugal.

Em que medida o seu dia típico é diferente do de uma executiva em Portugal?
Como executiva de uma empresa multinacional acredito que haverá grandes semelhanças. As maiores diferenças estão na dinâmica do País e do mercado da distribuição e, de como a envolvente externa nos desafia. Estou permanentemente fora da zona de conforto, mais exposta a oportunidades, assim como a riscos.

Tanto no Brasil, como na China, vivo num ambiente com uma diversidade cultural muito maior do que vivia quando estava em Portugal. O Brasil é um país com a dimensão de um continente e São Paulo é um pólo muito atrativo para as diversas pessoas de outros Estados se reunirem, na tentativa de encontrarem um emprego e melhores condições de vida. Na China, isso acontece nas quatro principais cidades do País, nas quais Shenzhen está incluída, e que recebem muitas pessoas das províncias mais longínquas. Esta realidade é acrescida pelo movimento migratório de outros países asiáticos, como Coreia ou Singapura.

Em Portugal e fora, sempre consegui levar as crianças de manhã à escola e, raramente faltei a alguma apresentação. Por vezes, é um desafio conciliar os horários, sobretudo pelo trânsito de São Paulo e de Shenzhen, que são cidades com mais de 20 milhões de habitantes, quando comparadas a Lisboa.

Quais os seus skills mais valorizados nas empresas onde tem trabalhado?
A diversidade de experiência profissional, a perspectiva global e multicultural de liderança, para entender, atrair, desenvolver e inspirar as equipas, têm sido muito valorizadas desde que saí de Portugal. Além disso, a compreensão dos mercados, dos consumidores e das tendências futuras, num mundo físico e digital cada vez mais integrados, a criatividade e a integridade e identificação com os valores da empresa.

As empresas globais procuram pessoas com facilidade de adaptação a novos ambientes e culturas, com capacidade de comunicação e escuta ativa, que saibam colaborar e trabalhar em equipa. A mudança é constante e, nas diversas geografias onde tenho trabalhado, a flexibilidade e inteligência emocional são características importantes nas lideranças. Sou uma pessoa curiosa, simples, que gosta de aprender continuamente.

Empreender no Brasil no momento de maior recessão da economia brasileira nos anos mais recentes, foi de longe o desafio mais difícil que enfrentei. Uma experiência que me marcou de forma muito positiva para o futuro.

Qual a experiência profissional que mais a marcou?
Empreender no Brasil, sendo a Benjamin pioneira na profissionalização de um sector enorme e informal, como é o das padarias naquela geografia e, tendo acontecido em 2015, no momento de maior recessão da economia brasileira nos anos mais recentes, foi de longe o desafio mais difícil que enfrentei. Uma experiência única, que me marcou de forma muito positiva para o futuro. A Benjamin tornou-se na maior cadeia de padarias do Brasil.

O que de mais importante aprendeu em cada uma destas culturas?
No Brasil, vivi num ambiente de volatilidade e imprevisibilidade constantes, com oportunidades e riscos muito maiores que Portugal pela dimensão e enquadramento e, aprendi como nesta cultura as relações humanas são mais importantes que os processos e normas estabelecidos. O foco no curto prazo é muito evidente.

Na China encontro grande velocidade e competição e uma economia com uma estratégia bem definida a longo prazo. Uma sociedade muito pragmática e trabalhadora, com ambição de melhoria e crescimento permanentes. Aqui, seguindo processos e normas na execução, geram-se melhores resultados e de forma mais rápida.

Qual a cultura com que mais se identifica? Porquê?
Mantenho as raízes e valores europeus com os quais cresci, característicos de uma família tradicional portuguesa, cristã e católica praticante.

Frequentemente desafiada a estar fora da zona de conforto, em grandes economias mundiais e em ambientes bastante competitivos, considero que as relações humanas que se constroem ao longo do tempo são muito importantes. E este aspecto identifiquei nas diversas culturas, apesar de forma diferente.

No Brasil, sempre gostei da criatividade e da paixão com que se vive a vida, a emoção com que as pessoas se unem e fazem acontecer, quando o tema toca o coração.

Na China, fascina-me sobretudo a história e cultura milenares do País. Sempre gostei muito e tenho respeito pela história de todos os países. De Portugal, o período que mais gostei foi o dos descobrimentos. No ambiente de trabalho chinês gosto do pragmatismo na execução, pois isso contribui bastante para o alcance de bons resultados

Como vê a questão da igualdade de género na liderança nos mercados com que tem trabalhado?
Tenho convivido em ambientes de empresas que valorizam a igualdade de oportunidades e têm presente a meritocracia. Acredito que em Portugal, no Grupo Jerónimo Martins e, na China, no Walmart, foi onde convivi com maior igualdade de género na liderança. Em Shenzhen encontrei as executivas e executivos com melhores qualificações, formação e motivação nos diversos níveis dentro da organização.

No Brasil, a igualdade de género na liderança é ainda menos evidente.

Que características considera necessárias para fazer carreira internacional?
O espírito empreendedor, a vontade de sair da zona de conforto, ter ambição de desenvolvimento pessoal e profissional e, maior abertura para aceitar as oportunidades e os riscos. É importante ter também uma base sólida de formação e qualificação, curiosidade e gosto constante em aprender, pois dada a dimensão de Portugal, o mercado fora é quase sempre maior e, por natureza, muito mais exigente.

Ao longo da carreira e da vida, seja ela em Portugal ou no estrangeiro, vivemos sempre em ciclos, com fases de crescimento, de alguns solavancos e tropeções, de grande crescimento em seguida, que fazem parte da experiência. É importante ser-se resiliente e nunca desistir.

Qual o balanço que faz da sua experiência em trabalhar no estrangeiro?
Extremamente positivo. Tem sido um percurso feito sempre equilibrando a vida familiar e profissional, com constante formação no estrangeiro, partindo de uma base sólida com educação e experiência profissional em Portugal.

Ao longo da carreira e da vida, seja ela em Portugal ou no estrangeiro, vivemos sempre em ciclos, com fases de crescimento, de alguns solavancos e tropeções, de grande crescimento em seguida, que fazem parte da experiência. É importante ser-se resiliente, acreditar que o futuro será melhor e nunca desistir.

Que conselhos deixaria a uma mulher que ambicione fazer carreira internacional?
Quem sente, tem vontade e acredita na carreira internacional, deve seguir o seu coração e instinto. É uma escolha, tão válida quanto outra.

Acredito que a mulher deve ser confiante no seu papel e ser ela mesma. A quem me diz que fazer carreira internacional é um risco muito maior do que ficar em Portugal, eu digo: “ Na vida, o maior risco é não arriscar. “

Nós vivemos num mundo global. É fundamental pensar e decidir com calma, em cada momento da vida, onde é melhor estar a trabalhar, se em Portugal, se fora. Para mim, o mais importante é a própria pessoa e a sua família serem felizes onde estiverem.