Rita Nabeiro,
gestora de mãos na massa

Aposta no trabalho em equipa e na qualidade e consistência do seu vinho É uma pessoa do terreno que faz um pouco de tudo: é diretora-geral da Adega Mayor, participa na colheita das uvas, ajuda nas trasfegas na adega, e também veste o papel de comercial.

Rita Nabeiro deita mão a qualquer tarefa na Adega Mayor e ainda ajuda em outras áreas do negócio familiar

Rita Nabeiro cresceu no meio industrial e do café. Neta do fundador do Grupo Nabeiro, Rui Azinhais Nabeiro, é diretora-geral da Adega Mayor, negócio de vinhos lançado há pouco mais de 10 anos pela família. A área atual de vinha da empresa é de 120 hectares, maioritariamente plantados com castas portuguesas. As uvas são vinificadas em duas adegas, a original, do arquitecto Siza Vieira, uma das suas imagens de marca, e a da Herdade das Argamassas, construída no ano passado, em poucos meses, para responder ao aumento das referências da empresa. “Apesar de comprarmos algumas uvas fora, principalmente na região de Portalegre, queremos vinificar todos os vinhos que colocamos no mercado para garantir a sua qualidade”, explica Rita Nabeiro, que dedica a maior parte do tempo a este negócio, embora apoie outras áreas do grupo.

Durante a sua infância, nos anos 80, a indústria do café, o principal negócio da família, não era o que é hoje. A gestora recorda-se de ser miúda e passear de bicicleta pelo monte alentejano da família, que tinha galinhas, vacas, etc, antes da fábrica atual de café ser construída.

Quando chegou a altura de entrar na universidade optou pela formação em design, embora o histórico familiar pudesse apontar para outro caminho, o da indústria. “A minha família sempre me deu a liberdade de decidir o futuro, e é uma área que junta arte à técnica e à tecnologia que pode ser usada na indústria. A conjugação que contribuiu para a minha opção”, explica. Foi assim que entrou na Faculdade de Belas Artes, cujo curso terminou em 2003. Fez posteriormente um pequeno estágio em Parma, Itália, e outro em Barcelona, Espanha. “Quando regressei estive pouco mais de um ano na agência Brand New, em Lisboa”, revela.

Decidiu integrar o negócio familiar porque queria trabalhar e aprender com o avô

O edifício de Siza

Em 2004 o grupo Nabeiro começou a produzir os primeiros vinhos, apesar de ainda não ter adega. “Nessa altura criei umas peças de design em regime de outsourcing para a Adega Mayor, para serem usados em feiras”, conta a executiva. Pouco depois decide integrar o negócio familiar. “Gostava do que fazia, mas queria trabalhar e aprender com o meu avô”, explica. Sentia um carinho especial pelo negócio dos vinhos, talvez por ter sido construído no terreno que percorria de bicicleta durante a infância. Por isso, acompanhou de perto o projeto. Viu os alicerces a serem fundados e as paredes do edifício idealizado pelo arquitecto Siza Vieira a serem erguidas até se tornar no que é hoje, o símbolo da Adega Mayor, com a sua envolvência de vinhas.

Foi primeiro integrada no departamento de Marketing do Grupo Nabeiro, onde acompanhou alguns projectos da marca Delta e também dos vinhos. “Nessa altura trabalhei com o enólogo Paulo Laureano, que foi fundamental para a minha formação inicial”, diz a gestora, acrescentando que é uma pessoa curiosa, que procura sempre aprender. Faz perguntas aos enólogos da sua equipa, troca informações com outros produtores portugueses e estrangeiros e tem feito diversas formações em gestão na Universidade Católica. Mas diz que ainda tem um longo caminho no percurso do conhecimento.

Desmultiplicar-se em funções torna o seu trabalho mais interessante e desafiante

Com o tempo, Rita Nabeiro sentiu que tinha de aumentar a sua dedicação ao sector de vinhos, apesar de, ainda hoje, continuar a acompanhar outros projectos do Grupo Delta. É, desde 2012, a diretora-geral da Adega Mayor.

Como qualquer gestora, procura ser organizada e manter-se focada em objetivos, não deixando, no entanto, de ser criativa e construindo, à sua volta, um ambiente de cooperação, porque “é fundamental o trabalho de equipa”. Como gosta de ser uma “pessoa de terreno”, participa na colheita das uvas, no campo. Também integra a equipa da mesa de escolha das uvas, ajuda nas trasfegas ou remontagens, na adega, ou veste, entre outros, o papel de comercial para visitar clientes. Essa necessidade de se desmultiplicar em funções “torna o trabalho no setor dos vinhos mais interessante e desafiante”, revela Rita Nabeiro, que se considera uma gestora de “mãos na massa”.

Um dos seus primeiros desafios foi legitimar uma empresa de vinhos de um grupo reconhecido pelo seu negócio de cafés. Era preciso entrar num mercado saturado, com muitas marcas, onde não basta produzir bons vinhos para ter sucesso. “Acompanhar de perto os clientes e ouvi-los ajudou-nos a consolidar o negócio”, diz.

Rita fez uma edição especial em homenagem a Siza Vieira, que construiu a Adega

Rita fez uma edição especial em homenagem a Siza Vieira, que construiu a Adega

As edições especiais

O lançamento de edições especiais, uma ideia que Rita partilha com o pai, João Nabeiro, contribuiu também, pela sua mediatização, para o desenvolvimento do negócio. A primeira foi a 7, série limitada produzida com uvas da colheita de 2007, ano em que o planeta conheceu as maravilhas do mundo moderno. Depois vieram o 8 e o 9, o Vitorino Salomé, dedicado ao cantor alentejano, e o Siza, o último, da vindima de 2009. Vinho da casta Alicante Bouschet, lançado no ano passado, homenageia o arquitecto e a paisagem de vinha e adega que inspirou.

Para além de provar muitos vinhos, Rita Nabeiro gosta de se deslocar aos vários mercados onde a Adega Mayor comercializa os seus. Diz que conhece praticamente todos e todos os distribuidores. “É diferente ir lá, conhecer e compreender, e depois decidir o que se tem de melhorar”, explica, acrescentando que o único que lhe falta é o francês.

Quando tem dúvidas Rita não hesita em recorrer a quem tenha mais experiência

Também procura visitar produtores portugueses e de outros países para estabelecer relacionamentos e alargar conhecimentos. Este ano esteve em Napa Valey, na Califórnia, e nas regiões de Pfalz e Rheingau, na Alemanha. Lá fora, como em Portugal, a troca de informações entre empresas do sector é fácil e aberta. Por isso, “sempre que tenho dúvidas em relação à implementação de uma plataforma tecnológica, por exemplo, para melhorar o trabalho na adega, tento falar com outras pessoas que tenham experiência na área, que nos possam aconselhar, mesmo cá em Portugal”, exemplifica.

Atualmente a Adega Mayor vende vinhos em Portugal, no Luxemburgo, Alemanha, Inglaterra, Suíça, Moçambique, Estados Unidos, Canadá e Angola, onde tem uma operação direta.

A Angonabeiro, que começou por produzir café, tem mais de 10 anos de operação neste mercado. Nos anos mais recentes passou também a comercializar café e outros produtos em Angola, mesmo de fornecedores fora do grupo. São os casos das as águas do Vimeiro, sumos Hero, chás Tetley e da cerveja Cintra. Em Portugal o Grupo Nabeiro está a comercializar, entre outras, a marca Blue, originária de Angola.

No Brasil, o excesso de procura originou problemas de escassez na oferta dos seus vinhos

A entrada dos vinhos da Adega Mayor no Brasil, um dos principais destinos das empresas do sector, com Angola, tem sido adiada. Neste país o negócio do café do grupo tem uma operação direta, a Delta Foods Brasil. Segundo Rita Nabeiro, está a ser estudada a distribuição directa, operação que faz sentido por muitos clientes retalhistas e de restauração de café coincidirem para o vinho.

Porque não surpreender?

O projeto era para ter sido iniciado, no ano passado, nos estados de S. Paulo e Vitória. “Mas o excesso de procura originou problemas de escassez na nossa oferta de vinhos” explica Rita Nabeiro, acrescentando que o avanço não foi concretizado para não deixar de responder às solicitações dos clientes actuais. É, por isso, que a empresa continua a investir no alargamento da sua área produtiva. É também a razão da construção da nova adega. São investimentos que visam garantir a capacidade de resposta às solicitações do mercado, mantendo as melhores condições de trabalho.

O projecto da Adega Mayor foi pensado para se tornar numa empresa de referência nacional. O percurso tem sido dado com passos curtos, mas firmes, porque uma marca de vinhos não se constrói em dois dias. É esse o mote daquilo que a empresa procura fazer, “procurando sempre subir a fasquia e surpreender as pessoas”, diz ainda Rita Nabeiro.

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