Profissão: Carla Caramujo, cantora lírica

O trabalho de um cantor lírico, em termos de estudo e treino, é como o de um atleta de alta competição, diz-nos Carla Caramujo. A soprano, em cena no Teatro Nacional de S. Carlos até dia 6, com a ópera “L’Enfant et les Sortilèges”, de Ravel, desvenda-nos os bastidores da ópera e de uma exigente carreira.

Carla Caramujo fala-nos dos desafios da sua carreira, que vive na dicotomia entre o lado realista e exigente da profissão e o ideal máximo de "tocar o sublime com a voz".

Ia ser engenheira química, mas aos 15 anos mostraram-lhe um vídeo do Rigoletto de Verdi e a paixão pelo canto foi gradualmente tomando terreno às ciências até fazê-la trocar de curso, anos mais tarde. Soprano formada pela Guildhall School of Music and Drama, em Londres, e mais tarde mestre pelo Conservatório Real da Escócia, estreou-se há 14 anos, em Inglaterra, na “Flauta Mágica” de Mozart, onde interpretava o papel de Rainha da Noite. “É o preço a pagar quando se tem uma voz muito aguda”, diz. A estreia em Portugal, no Teatro de S. Carlos, aconteceu num dos seus papéis e óperas de sonho – a Gilda de “Rigoletto”.

Hoje, aos 38 anos, casada e mãe de um rapaz de 6 anos, Carla Caramujo é um dos grandes nomes do canto em Portugal. Com um repertório que vai do final do período barroco até à transição do séc. XX, já conta com vários prémios no currículo, como o Concurso Nacional de Canto Luísa Todi, o Musikförderpreis der Hans-Sachs-Loge (Alemanha) ou Ye Cronies Awards (Inglaterra).

Este ano traz-nos projetos musicais interessantes, como a ópera de Ravel, “L’Enfant et les Sortilèges”, em cena até dia 6 no Teatro Nacional de S. Carlos, sob a direção da maestrina Joana Carneiro; “A Criação”, de Haydn, que será o concerto de abertura do Festival Dias da Música, e duas gravações com obras de compositores portugueses. Fora de portas, irá até à Colômbia e ao Brasil, para o Festival Internacional de Música do Pará. Uma carreira muito exigente em dedicação e trabalho, que a cantora nos deu a conhecer em entrevista.

“Nunca tinha ido à ópera e lembro-me de ver um vídeo do Rigoletto, com a Edita Gruberová e o Pavarotti e de pensar como era possível um ser humano produzir aquele tipo de som e beleza.”

Antes de seguir a formação em canto lírico ainda estudou Engenharia Química. O que a fez mudar?
Em Portugal não somos educados para prosseguir uma carreira nas Artes. A música era encarada na minha família como uma paixão a continuar, mas não como uma carreira e também não tínhamos tradição familiar musical. Tive a sorte de os meus pais me terem posto, aos 8 anos, no Conservatório de Coimbra a aprender violino, onde a minha irmã mais velha já andava. No ensino secundário estava em Ciências, uma área de que sempre gostei imenso, e por isso escolhi a Química como parte do processo natural de quem vai para a universidade. Mas dececionei-me com o programa do curso e a forma como era lecionado e, além disso, estava cada vez mais envolvida com a música e o canto em particular.

E como se apaixonou pelo canto?
A minha professora do Conservatório era muito entusiasta e, logo no primeiro ano em que mudei de violino para canto, começou a trazer-me cassetes de vídeo com óperas para eu ver. Nunca tinha ido à ópera e lembro-me de ver um vídeo do Rigoletto, com a Edita Gruberová e o Pavarotti e de pensar como era possível um ser humano produzir aquele tipo de som e beleza. À medida que fui descobrindo a minha voz, fui-me descobrindo a mim mesma também. O canto ajudou-me muito a solidificar a minha personalidade e a construir uma autoconfiança que não tinha.

Foi estudar para a Guildhall School of Music and Drama. A formação que era oferecida cá não era suficiente?
Aquilo que era oferecido por cá só chegava até um determinado patamar, mas depois precisava de desenvolver determinadas capacidades e disciplinas que não existiam ainda em Portugal. O ensino do canto evoluiu imenso em Portugal, entretanto. Fui para Inglaterra em 2001 e foi muito bom estar numa escola que me dava a oportunidade de ter uma disciplina de cada género musical que abordávamos – ópera, chanson française, lieder alemão, oratória – prática de composição e línguas – inglês, italiano, francês e alemão, com aulas específicas de pronúncia, trabalhando textos antigos. O currículo é muito prático e muito virado para performance. Foram seis anos difíceis, mas generosos porque aprendi imenso, evoluí muito e conheci pessoas fantásticas, colegas e professores que ainda hoje tenho como amigos. Tive momentos difíceis como toda a gente, muitas saudades de casa e alturas em que me apeteceu chorar, mas muita gente me acarinhou e me ajudou a consolidar enquanto artista e pessoa. Uma das minhas grandes referências foi a minha professora de canto, Laura Sarti. Não só é uma professora com a velha escola italiana, que se coadunava muito bem com a minha voz, como é uma pessoa extremamente apaixonante.

O ambiente era muito competitivo?
É extremamente competitivo, mas quanto maior a escola, mais cantores há e mais saudável é a competição, muito mais do que num ambiente onde só há meia dúzia de pessoas. Além disso, as pessoas estão demasiado ocupadas com os estudos.

“A técnica vocal e a prática do canto exigem-nos um trabalho de atleta de alta competição, com disciplina e trabalho constantes.”

Como é a sua agenda de trabalho, quando prepara um espetáculo?
A técnica vocal e a prática do canto exigem-nos um trabalho de atleta de alta competição, com disciplina e trabalho constantes. A preparação de repertório é outra fase de estudo – da música, do texto, das línguas – de forma a chegar ao primeiro ensaio bem preparada. Normalmente há rotinas diárias de exercícios, para manter a voz flexível e saudável, mas que não devem exceder uma hora. O estudo daquilo que estamos a preparar varia muito com a dificuldade do repertório, da dimensão do papel ou da obra que estamos a abordar. Quando estou em ensaios de produção, ensaio das 10h à 13h e das 15h às 18h. Normalmente, ensaiamos 3 a 4 semanas, embora nesta produção, “L’Enfant et les sortilèges”, só tivemos 2 semanas. Começamos por fazer ensaios musicais com um maestro preparador que prepara todos os cantores musicalmente até entrarem em ensaios de cena, nos quais se dá primazia ao encenador. Há um momento em tudo tem que se juntar, porque ópera é teatro e música e uma não vive sem a outra. Depois fazemos ensaios de cena com orquestra, onde é o maestro que manda novamente. A partir daí partimos para o ensaio geral e estreamos.

Como Gilda na ópera Rigoletto, de Verdi, no Teatro Nacional de S. Carlos. Foto: Alfredo Rocha.

Mesmo quando não tem espetáculos, o estudo continua em casa. Como divide o seu tempo nessas fases?
Em casa, os meus horários são os da minha família: levanto-me às 7 horas para preparar o meu filho para o colégio, fico sozinha em casa e cuido das minhas coisas. Por volta das 9h estou no meu escritório, ao piano, a estudar até que o tempo me permite, até às 17 ou 18h, quando o meu filho regressa. Normalmente deito-me cedo, pouco depois de o deitar a ele.

Que tipo de repertório lhe dá mais gozo fazer?
O que me dá mais gozo fazer, em termos vocais, e repertório clássico e de bel canto mas gosto de explorar o repertório de transição para o século XX – gosto muito de Richard Strauss e de Zemlinsky. Faço muita música do final do período barroco, pelas características da minha voz – Mozart é um deus para mim; canto todos os papéis de soprano compostos por ele. Tenho feito imensos papéis e obras de compositores contemporâneos, um repertório que também me fascina porque, aí sim, posso criar. Muitas são obras de portugueses e estreias mundiais.

Quais são os seus compositores preferidos?
Tenho alguns compositores preferidos e óperas preferidas de compositores que não são os meus favoritos, curiosamente. Adoro Monteverdi, Gluck e Mozart; no bel canto adoro Bellini; depois, Verdi, Richard Strauss e Debussy. Gosto muito dos compositores da transição do século XIX para o XX, sobretudo franceses.

Quais os papéis em ópera que sonha fazer?
Tenho alguns sonhos que vou concretizar parcialmente nesta temporada: sonho em fazer “Lucia de Lammermoor” (Donizetti) e este ano vou poder fazer a grande cena de loucura da Lucia no Teatro Mayor de Bogotá – não é o papel todo, mas vou fazer a maior e mais emblemática cena da ópera. No mesmo espetáculo, vou fazer três cenas de loucura de três das minhas óperas de sonho – a de Lucia, a de Elvira, na ópera “Os Puritanos”, de Bellini, e a Ofélia do “Hamlet” de Thomás. Se fizesse esses três papéis em ópera, já morria satisfeita. A Violetta, de La Traviata, é um papel que me marcou muito e que já fiz, apaixonante pela diversidade do trajeto emocional da personagem.

“Sinto-me numa fase de vida muito feliz porque já não levo as angústias do trabalho para casa. Consigo controlar muito melhor a minha agenda, o tempo em que estou nos ensaios e as horas de estudo que dedico em casa e não misturar as duas realidades.”

Quais os aspetos mais desafiantes da sua profissão?
Do ponto de vista positivo, é o facto de nunca ser monótona. De cada vez que fazemos uma ópera nova há um novo universo que se nos abre, estamos constantemente a evoluir enquanto profissionais. Trabalhamos sempre com colegas diferentes, maestros e encenadores novos. Nada se repete, já que a mesma ópera pode ser feita em produções muito diferentes. Por outro lado, exige uma concentração enorme, uma disciplina constante que, às vezes, até torna difícil conseguirmos lidar com a realidade fora de palco e ensaios, porque o nosso trabalho nos consome tanto. Nesta profissão trabalhamos com música e textos ao mais alto nível e, quando conseguimos tocar o sublime com a nossa voz, é muito difícil sair desse estado. O problema é que a profissão também tem um lado muito realista, que não é fácil. Por isso é sempre uma dicotomia viver estes dois lados, mas é necessário descermos à terra, caso contrário tornamo-nos seres insuportáveis e sem vida própria.

Sinto-me numa fase de vida muito feliz porque já não levo as angústias do trabalho para casa – “hoje o ensaio não correu muito bem, a minha voz não saiu bem”. Consigo controlar muito melhor a minha agenda, o tempo em que estou nos ensaios e as horas de estudo que dedico em casa (e que são mesmo muitas) e não misturar as duas realidades.

Que grandes mitos o público ainda tem sobre as cantoras líricas?
Há aqueles estereótipos patéticos de que um soprano tem de ter mais de 100kg, o que não é verdade. As pessoas têm que estar o melhor possível fisicamente. Mas, mais do que estereótipos, as pessoas não fazem ideia da disciplina e formação que um cantor requer e que, antes de ser cantor, é um músico. Por isso, adoraria que os teatros de ópera fossem mais abertos às visitas do exterior e aos ensaios, por parte de escolas e pequenos grupos. Mas é difícil porque mesmo as escolas artísticas não frequentam o S. Carlos.

O que faz antes de entrar em cena?
Tento chegar bastante cedo para poder caracterizar-me e depois estar meia hora, pelo menos, em concentração total.

No ensaio geral de “O Morcego”, de Johann Strauss, no Teatro Nacional de S. Carlos. Foto Alfredo Rocha

Que cuidados tem com a voz?
Não fumo, não bebo bebidas alcoólicas, mas também nunca quis fazê-lo mesmo que não fosse cantora. Nem devo beber bebidas muito quentes nem muito frias, protejo-me bem do frio e do calor – que é o que toda a gente deveria fazer. E, obviamente, não faço noitadas.

“Existe um pouco ainda o preconceito de que a cantora vai estar menos disponível, menos atenta e menos em forma depois de estar grávida. Não é verdade.”

Já disse que, neste meio, existe algum preconceito com a disponibilidade da cantora depois da maternidade. Ser mãe e cantora lírica é um duplo desafio?
Existe um pouco ainda o preconceito de que a cantora vai estar menos disponível, menos atenta e menos em forma depois de estar grávida. Não é verdade; isso parte da motivação, do interesse e da seriedade com que a cantora encara a sua profissão e a sua família. O meu filho foi planeado, muito desejado e foi já numa fase de maturidade da minha voz e enquanto cantora. Eu sabia o que tinha que fazer para voltar a estar em forma depois de ele nascer. Mas passei um bocadinho pelo processo de ter de dar a entender que estava disponível novamente e que nada ia mudar enquanto profissional. O período de amamentação é mais complicado porque a criança tem de andar sempre connosco. Quando o meu filho tinha 6 meses ainda o amamentava e estava a fazer La Rondine, de Puccini. Trouxe-o, mas não perturbei em nada o normal curso dos ensaios. Não tenho sentido que seja mais difícil conseguir um papel. Acho que, depois de ser mãe, sou muito mais disciplinada, chego aos ensaios muito melhor preparada porque sei que o tempo para estudar é muito mais limitado.

Que conselhos daria a uma jovem que quer seguir esta carreira?
Que seja extremamente disciplinada, com os pés na terra; que procure estudar e aperfeiçoar-se ao máximo, abrir os horizontes sem deixar de ter vida própria. Que consiga construir uma personalidade forte e generosa; temos que ser generosos para saber ouvir e receber, quer os colegas com quem contracenamos, quer os comentários que nos possam magoar. É muito importante estarmos de antenas ligadas a tudo o que nos rodeia.

Que projetos a esperam em 2018?
Em fevereiro tenho um concerto no Teatro da Trindade, para o festival Antena 2, no dia de Carnaval. Em Março, tenho “A Criação de Haydn” no concerto de abertura dos Dias da Música. Mais tarde irei para Bogotá, onde farei as três grandes cenas de loucura da história da ópera. Irei novamente ao Festival Internacional de Música do Pará, onde farei uma ópera de câmara, “Domitila”, do João Guilherme Ripper. Tenho duas gravações a sair: Il Mondo della Luna, do português Pedro Avondano, com os Músicos do Tejo, com etiqueta Naxos, em que faço o papel de Flamínia. Entre janeiro e fevereiro vou estar a lançar um projeto que me é muito querido e que foi alvo de muito trabalho, pesquisa e muitos ensaios, com o maestro João Paulo Santos (S. Carlos) ao piano: a obra integral da canção de António Fragoso, que morreu prematuramente aos 21 anos, em 1918. É um álbum muito especial que evoca o centenário da sua morte. Vão se ouvir canções do compositor que não se conheciam e outras vão poder ouvir-se como nunca foram feitas. Estou orgulhosa do nosso trabalho.