Precisamos de mais do que apenas uma celebração anual

A propósito do Dia da Internacional da Mulher, Inês Santos Silva, diretora executiva da Aliados Consulting e co-fundadora da comunidade Portuguese Women in Tech, alerta que a diferença entre os géneros está, na realidade, a aumentar e não a diminuir.

Inês Santos Silva é fundadora e diretora executiva da Aliados Consulting e co-fundadora da comunidade Portuguese Women in Tech.

No passado dia 8 de Março, celebrou-se o Dia Internacional da Mulher com demonstrações e iniciativas de apoio à igualdade de género. Desde que este dia foi celebrado pela primeira vez, na Rússia, em 1917, muito mudou para as mulheres na sociedade. Hoje, em todo o mundo, as mulheres têm direito ao voto. Na maior parte do mundo, as mulheres podem aceder a qualquer profissão, conduzir, estudar, viajar e escolher com quem querem casar.

Os trabalhos realizados por mulheres estão a ser automatizados a um ritmo mais acelerado, as mulheres ainda representam uma pequena percentagem dos profissionais que trabalham em tecnologia (em Portugal, apenas 14,4%) e as mulheres têm dificuldade em aceder ao capital, que lhes permite criar empresas (na Europa, por cada 100 euros investidos em startups, 92 euros vão para empresas cujos fundadores são homens).

Mas quando analisamos o Global Gender Gap Report 2020, publicado pelo World Economic Forum, percebemos que ainda precisamos de 100 anos, para reduzir o fosso económico, entre homens e mulheres. E percebemos também, que a diferença entre os géneros está, na realidade, a aumentar e não a diminuir. Este aumento deve-se a três razões principais: os trabalhos realizados por mulheres estão a ser automatizados a um ritmo mais acelerado, as mulheres ainda representam uma pequena percentagem dos profissionais que trabalham em tecnologia (em Portugal, apenas 14,4%) e as mulheres têm dificuldade em aceder ao capital, que lhes permite criar empresas (na Europa, por cada 100 euros investidos em startups, 92 euros vão para empresas cujos fundadores são homens).

Com o trabalho que temos desenvolvido na Portuguese Women in Tech, temos lutado para aumentar a visibilidade das mulheres na tecnologia, para aumentar o número de mulheres empreendedoras e temos trabalhado com empresas e governos locais para quebrar o ciclo vicioso que ano após ano, expulsa as mulheres desta área. Já implementamos várias iniciativas para garantir que mais mulheres estejam representadas em conferências e eventos (PWIT Speakers List), criamos livros e outros conteúdos (EDP Booklet, Pioneers Report) para partilhar a realidade das mulheres em tecnologia e as suas histórias inspiradoras, trabalhamos com escolas e empresas para aprenderem a identificar e combater a desigualdade de género, entre muitas outras iniciativas. Ainda na semana passada, lançamos o PWIT Mentorship Program, para apoiar 50 jovens estudantes e recém graduadas, e esperamos lançar em 2020, mais algumas iniciativas.

25 anos depois que Hillary Clinton ter dito, em Pequim, na IV Conferência Mundial sobre a Mulher da ONU, “Os direitos das mulheres são direitos humanos”, ainda temos um longo e difícil caminho a percorrer.

Mas muito mais tem que ser feito e não só na área tecnológica. Quando analisamos os números chocantes da violência doméstica, vemos a falta de participação das mulheres na vida política, analisamos a diferença salarial entre homens e mulheres e vemos a falta de mulheres em posições de liderança, compreendemos que, 25 anos depois que Hillary Clinton ter dito, em Pequim, na IV Conferência Mundial sobre a Mulher da ONU, “Os direitos das mulheres são direitos humanos”, ainda temos um longo e difícil caminho a percorrer. E esse caminho, depende do envolvimento de todos, homens e mulheres. Vamos continuar a celebrar o Dia Internacional da Mulher, mas vamos acima de tudo agir!