O que precisa de saber sobre o cancro de mama

O especialista em Oncologia Paulo Cortes esclarece as suas dúvidas sobre este tipo de cancro. Todos os dias surgem 11 novos casos em Portugal, por isso é tão importante saber quais os fatores de risco e os principais sintomas e sinais de alerta.

Esta é uma doença que afeta cada vez mais mulheres. Aprenda a proteger-se e fique alerta.

Por Paulo Cortes, consultor em Oncologia Médica, coordenador da Unidade de Oncologia do Hospital dos Lusíadas Lisboa, vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Oncologia, membro da direção da Sociedade Portuguesa de Senologia e representante de Portugal na ESMO (Sociedade Europeia de Oncologia).

 

O cancro da mama é um problema de saúde pública e apesar de não ser dos mais letais tem uma alta incidência e uma alta mortalidade, sobretudo na mulher (apenas 1 em cada 100 cancros se desenvolvem no homem). Em Portugal, com uma população feminina de 5 milhões, surgem cerca de 6 mil novos casos de cancro da mama por ano. Todos os dias surgem 11 novos casos e morrem 4 mulheres com esta doença.

Temos registado avanços importantes quer no diagnóstico, com exames cada vez mais sofisticados e precisos, quer no tratamento, nomeadamente na individualização da terapêutica de acordo com subtipos biológicos. Com estes avanços conseguimos curar cada vez mais cancros da mama, sobretudo se diagnosticados numa fase precoce.

Quais os factores de risco?

Embora não sejam conhecidas as causas exatas deste tipo de cancro foram identificados alguns fatores de risco para o seu aparecimento. No entanto, é importante salientar que ter um ou mais fatores de risco não implica o desenvolvimento de um cancro, significa apenas que se pode ter uma maior probabilidade de desenvolver a doença.

Alguns dos factores de risco identificados para o cancro da mama:

Idade: a possibilidade de ter cancro da mama aumenta com o aumento da idade. Na realidade, a maioria dos casos são diagnosticados depois dos 50 anos e são menos comuns antes da menopausa.

Alterações genéticas: as alterações em determinados genes, (BRCA1, BRCA2, entre outros), transmitidas pelos pais, estão na origem de cerca de 5 a 10% dos casos. Famílias onde muitos familiares tiveram doenças oncológicas, nomeadamente cancros da mama ou do ovário, podem ter indicação para fazer testes genéticos. Estes testes podem demonstrar a presença de alterações genéticas específicas, que necessitam de acompanhamento especializado. Em muitos casos, são aconselhadas medidas para reduzir o risco de desenvolvimento de cancro da mama ou ovário e melhorar a deteção precoce da doença

História pessoal de cancro da mama: pessoas que já tiveram cancro da mama têm maior risco de voltar a ter cancro, na mesma ou na outra mama.

História familiar: o risco de se desenvolver um cancro da mama está aumentado se houver história familiar de cancro da mama, particularmente em familiares de primeiro grau, mãe, tia ou irmã, sobretudo em idades mais jovens (antes dos 40 anos) ou no sexo masculino.

Algumas alterações da mama: Alguns tipos de tumores benignos como a hiperplasia lobular (aumento do tamanho dos lóbulos), a hiperplasia ductal atípica (aumento do tamanho dos ductos) ou o carcinoma lobular in- situ, podem aumentar o risco de desenvolver cancro da mama.

Exposição prolongada ao estrogénio: Em muitos casos, o cancro da mama necessita de estrogénio para se desenvolver, e quanto maior e mais prolongada for a exposição a esta hormona, maior é o risco de desenvolver a doença. Mulheres com a primeira menstruação precoce (antes dos 12) e menopausa tardia (após 55 anos), que não tiveram filhos ou que foram mães depois dos 30 anos apresentam um risco aumentado.

Por outro lado, a utilização da pilula contracetiva, particularmente antes da primeira gravidez, ou de terapêutica hormonal de substituição após a menopausa, pode também aumentar a possibilidade de desenvolver cancro da mama.

O consumo de álcool e de tabaco está associado ao desenvolvimento de vários cancros, incluindo o cancro da mama. Por seu lado, a actividade física pode ajudar a diminuir o risco de desenvolvimento de cancro da mama, através da prevenção do aumento de peso e da obesidade.

Alguns dos factores de risco enumerados podem ser evitados, no entanto, outros, como a idade ou a história familiar, não podem ser evitados. Por isso é tão importante a adesão aos programas de rastreio e estar atenta ao aparecimento de alguns sintomas e sinais.

Como se faz a detecção? 

É muito importante fazer exames de rastreio, antes de surgirem quaisquer sinais ou sintomas. Na realidade, se o cancro for detectado precocemente, a probabilidade de cura pelo tratamento é muito mais elevada.

Os exames de diagnóstico por imagem que permitem fazer um diagnóstico precoce e vigilância da mama são a mamografia e a ecografia mamária. A idade a partir da qual e a regularidade a que estes exames devem ser realizados pode variar consoante o país e normas estabelecidas. Em Portugal, de acordo com as normas da Direcção Geral da Saúde, a mamografia deve ser realizada a cada 2 anos a partir dos 50 e até aos 69 anos. Nas mulheres com densidade mamária elevada ou próteses mamárias, a ecografia pode complementar a mamografia. Por outro lado, o programa de rastreio do cancro da mama da Liga Portuguesa Contra o Cancro preconiza que este seja feito a cada 2 anos, a partir dos 45 anos e até aos 69 anos. Deve falar com o médico acerca do seu risco pessoal para ter cancro de mama pois, se apresentar um risco aumentado de desenvolver cancro da mama, pode ter necessidade fazer uma primeira mamografia mais cedo e com periodicidade diferente.

A realização do autoexame mamário e o exame mamário clínico não substituem as mamografias e ecografias mamárias mas podem ser importantes na detecção de lesões que possam surgir no intervalo entre os exames de imagem de rastreio.

A mamografia pode mostrar um nódulo na mama, antes que este possa ser sentido ou palpado. Pode, também, mostrar uma agregação de pequenas partículas de cálcio que se designam por microcalcificações. Tanto os nódulos como estas microcalcificações podem ser sinais de cancro e originar a necessidade de se fazer uma biópsia. Só após a realização de uma biópsia se consegue ter a certeza do diagnóstico.

O exame mamário clínico faz parte do exame físico realizado pelo médico assistente. Em mulheres saudáveis, entre os 25 e 40 anos e sem risco acrescido para cancro da mama, deve ser efectuado cada 1 a 3 anos e nas mulheres com 40 ou mais anos anualmente.

Sabemos actualmente que o auto-exame da mama não tem impacto na sobrevivência mas poderá ser feito mensalmente, para avaliar quaisquer alterações nas mamas. Quando faz este exame, é importante lembrar que as mamas são diferentes, de mulher para mulher, e que podem surgir alterações, devidas à idade, ao ciclo menstrual, gravidez, menopausa, ou à toma de pílulas anticoncepcionais, ou outras hormonas. Se notar algo não usual, durante o auto-exame da mama ou em qualquer outra altura, deve sempre contactar o seu médico.

Numa fase inicial, o cancro da mama não causa quaisquer sintomas.

A realização do autoexame mamário e o exame mamário clínico não substituem as mamografias e ecografias mamárias mas podem ser importantes na detecção de lesões que possam surgir no intervalo entre os exames de imagem de rastreio.

Quais os principais sintomas e sinais de alerta?

Numa fase inicial, o cancro da mama não causa quaisquer sintomas. Por outro lado, os sinais e sintomas a seguir descritos podem estar presentes noutras condições clínicas que não cancro, como por exemplo em tumores benignos. O que é importante salientar é que, na presença de qualquer um destes sintomas ou sinais, deve consultar o seu médico:

. Qualquer alteração na mama ou no mamilo, quer no aspecto quer na palpação;

. Qualquer nódulo ou espessamento na mama, perto da mama ou na zona da axila;

. Sensibilidade no mamilo;

. Alteração do tamanho ou forma da mama;

. Retracção do mamilo (mamilo virado para dentro da mama);

. Pele da mama, aréola ou mamilo com aspecto escamoso, vermelho ou inchado; pode apresentar saliências ou reentrâncias, de modo a parecer “casca de laranja”.

. Secreção ou perda de líquido pelo mamilo.

Como é feita a avaliação de uma doente com o diagnóstico de cancro da mama?

Como vimos, a realização de exames de diagnóstico para detecção de cancro da mama pode ser feita quer por rastreio, quer por palpação de nódulo ou outra alteração na mama.
O diagnóstico e estadiamento, ou seja a análise da extensão e disseminação da doença, é definido através de uma avaliação que inclui o exame físico e uma série de exames de diagnóstico. Estes exames incluem exames de imagem dirigidos à mama, como a mamografia, ecografia e ressonância mamária e outros, como a cintigrafia óssea, a ecografia, a TAC ou a PET-TC, que estão indicados em casos seleccionados e que permitem a avaliação da extensão da doença. A avaliação rigorosa e criteriosa por anatomo-patologista dedicado, da biópsia mamária e das características biológicas das células tumorais é fundamental, para a confirmação do diagnóstico e para auxiliar a decisão do melhor tratamento a implementar.

As mulheres com cancro da mama têm várias opções de tratamento. Estes tratamentos incluem cirurgia, quimioterapia, radioterapia, terapêutica hormonal e terapêuticas dirigidas.

Quais são as opções de tratamento para o cancro da mama?

As mulheres com cancro da mama têm várias opções de tratamento. Estes tratamentos incluem cirurgia, quimioterapia, radioterapia, terapêutica hormonal e terapêuticas dirigidas.

As opções de tratamento do cancro da mama, dependem do estadio da doença (a extensão e disseminação da doença), da dimensão do tumor relativamente à dimensão da sua mama, do resultado da avaliação biológica do tipo de células tumorais, da situação relativa à menopausa, do estado geral de saúde da pessoa e das suas preferência individuais. Actualmente e em casos seleccionado, dispomos de testes genómicos que podem auxiliar na decisão do tratamento, sobretudo na indicação de quimioterapia.

A proposta do melhor tratamento é sempre uma decisão individual, tomada por uma equipa multidisciplinar de especialistas, mas tendo sempre em consideração as opções da mulher, que tem que estar informada, desde o início do processo, das várias possibilidades de tratamento e suas implicações. As associações de doentes desempenham um papel importante no suporte aos doentes com cancro da mama.

O tratamento para o cancro pode ser local ou sistémico. A cirurgia e a radioterapia são tratamentos locais pois removem ou “destroem” as células do cancro na mama. Os tratamento sistémicos englobam a quimioterapia, terapêutica hormonal e terapêuticas dirigidas.

O tratamento para o cancro pode ser local ou sistémico. A cirurgia e a radioterapia são tratamentos locais pois removem ou “destroem” as células do cancro na mama. Se o cancro da mama tiver metastizado (disseminado) para outras partes do corpo, a terapêutica local pode ser usada apenas para controlar a doença, nessa área específica, mas em mais nenhum local.

Os tratamento sistémicos englobam a quimioterapia, terapêutica hormonal e terapêuticas dirigidas, também chamadas terapêuticas alvo. Estes tratamentos circulam na corrente sanguínea e destroem ou controlam as células cancerígenas, em todo o corpo.

Algumas mulheres com cancro da mama e com tumores de maiores dimensões, ou com tipos biológicos mais agressivos, podem receber terapêutica sistémica antes da cirurgia ou da radioterapia. Os objectivos desta modalidade de tratamento, que se designa por terapêutica neoadjuvante, consistem em diminuir o tamanho do tumor para permitir uma intervenção cirúrgica menos extensa e mutilante e actuar mais precocemente no resto do corpo, destruindo células tumorais.

Outras, recebem terapêutica sistémica após a cirurgia e/ou radioterapia, para prevenir que alguma célula cancerígena que tenha permanecido seja responsável pelo retorno do cancro (prevenção de recidivas).

Os tratamentos sistémicos também são usados quando o cancro está disseminado pelo corpo ou seja, quando está metastizado.