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O poder do “não”

Aprender a dizê-lo assertivamente pode ser a sua melhor arma de autodefesa e a melhor forma de fortalecer a sua autoestima.

Saber dizer não é muitas vezes fundamental para manter a qualidade do seu trabalho.

O “sim” tem sido suficientemente celebrado nos últimos anos. Com ele vem a coragem de assumir riscos, o compromisso e a abertura de espírito para alcançarmos os nossos objetivos, para aceitarmos os outros e a sua influência nas nossas vidas. Mas numa cultura em que somos ensinados, desde crianças, a agradar aos outros, a corresponder às suas expetativas, a sermos bem-educados, o “não” ganhou uma aura de negativismo, má vontade, egoísmo e até falta de confiança em nós e nos outros. Estaremos a ser demasiado duros com o papel do “não” nas nossas vidas?

Saber dizer “não” é diferente de ser negativo

O negativismo é uma atitude crónica, explica a psicóloga Judith Sills num artigo para a Psychology Today. “As pessoas negativas podem apagar o entusiasmo dos outros, mas raramente os inspiram a agir. A negatividade certifica-se de que não vai sentir-se satisfeito com nada. Mas também não fará de si uma pessoa poderosa.”

Por contrapartida, o ‘não’ corresponde a um momento de escolha pessoal clara. Implica sentido de responsabilidade, aprender a estabelecer barreiras necessárias (para nós e para os outros), a certeza de que, apesar de amarmos e respeitarmos os outros, não podemos ser completamente influenciados ou até manipulados por eles. Um “não” pode ser uma escolha adulta e solitária, diz ainda a psicóloga. Provavelmente vai doer dizê-lo, mas sempre que o fazemos em consciência, ficamos mais fortes.

Manual de autodefesa

Como animais sociais, concordar com os indivíduos que compõem a nossa “tribo”, o nosso grupo direto, comprovou ser, na maioria dos casos, a melhor estratégia adaptativa. Por isso, ainda hoje o desejo de agradabilidade é tão poderoso nas mentes de grande parte das pessoas.

Dizer sim pode até ser mais fácil, mas tem um custo pessoal alto. Acontece sempre que aceita o pedido do chefe para ficar mais duas horas no escritório, quando ele nunca o faz aos seus colegas — até porque ele sabe que nunca se recusa a nada, apesar dos compromissos familiares e de isso nunca lhe ter trazido qualquer recompensa ou reconhecimento. Ou quando alguém aceita mentir para encobrir um amigo que traiu a mulher. Ou quando deixa um colega de faculdade assinar o trabalho de grupo, apesar de, mais uma vez, ele não ter feito nada.

Saber dizer não nestas ocasiões defende-nos da exploração amigável, feita com uma palmadinha nas costas, e da sensação amarga de estarmos a trair os nossos valores e princípios. Ou até do abuso verbal e moral por parte de familiares, companheiros, superiores hierárquicos. Mais do que uma manifestação de individualismo, pode aumentar a nossa autoestima e ser o melhor aliado da nossa saúde mental e segurança.

Estabelecer barreiras de forma assertiva

Certas culturas dizem “não” de uma forma mais confiante do que outras. A língua sueca, por exemplo, é muito direta nas suas expressões, evitando perder tempo com palavras irrelevantes e com muitas justificações, observa Lola A. Akerstrom em “Lagom, o segredo sueco para viver bem”. Uma franqueza linguística que se reflete nos comportamentos e na forma de encararem o não nas suas vidas. “As pressões que exercemos sobre nós geralmente nascem do excesso de compromissos. Temos dificuldade em dizer não aos amigos, família e colegas. Com a nossa recusa em assumir essas tarefas parece que os rejeitamos pessoalmente, em vez de rejeitarmos simplesmente os seus pedidos inconvenientes. Eles também podem jogar a carta da culpa e registar as nossas recusas como maliciosas. Mas para um sueco que foi criado na arte do lagom [palavra que significa moderação, equilíbrio], o ‘não’, geralmente, não tem segundas intenções. Isto ajuda a gerir as expetativas e liberta-nos emocionalmente…”

O “não” que dizemos a nós próprios

Mas esta pequena palavra também tem um importante papel de controlo dos nossos impulsos imediatos e pouco saudáveis. Ganhamos poder de resistência ao nosso lado menos equilibrado — e, muitas vezes, mais autodestrutivo — sempre que dizemos “não” ao cigarro, a mais um copo de vinho, a uma compra desnecessária, a ter um ataque de fúria no trânsito, a procrastinar mais um dia aquele relatório importante. É uma recompensa a médio ou longo prazo, que nos vai trazer paz de espírito, mais equilíbrio, produtividade.