Pilar Braga: “Para fazer carreira internacional é preciso algum desassossego interior”

Está há 25 anos no grupo Massimo Zanetti e hoje dirige a subsidiária britânica da marca, além de ser também membro do board. Pilar Braga conhece a indústria do café como poucos, liderou a Segafredo na Austrália, trabalhando com equipas multinacionais. Se hoje as pessoas são o maior desafio das empresas, aquilo que as move não difere assim tanto em todo o mundo, diz.

Pilar Braga é managing director da Brodies Segafredo Zanetti, no Reino Unido.

Quando Pilar Braga se propôs para um desafio de carreira internacional contava ficar por Espanha a liderar as operações da Segafredo Zanetti. Em vez disso ofereceram-lhe o desafio enorme de se mudar para o outro lado do mundo. E aquilo que inicialmente estava previsto ser um período de transição de cerca de dois anos transformou-se numa temporada de 7 anos na Austrália, para onde se mudou de armas e bagagens, em 2008, com o marido e as filhas pequenas. 

Hoje, Pilar é a managing diretor da Brodies Segafredo Zanetti no Reino Unido, subsidiária do grupo Massimo Zanetti, chefiando as operações a partir de Edimburgo. É ainda administradora não executiva no board desta multinacional italiana ligada à indústria do café, um produto que continua a achar fascinante e desafiante, mesmo ao fim de 25 anos de carreira no grupo. 

Licenciada em Economia pela Faculdade de Economia da Universidade do Porto, e com um MBA pela Porto Business School, Pilar Braga começou a carreira em auditoria, onde se apaixonou pelo grande consumo e se apercebeu da realidade empresarial, mas que, diz, começou a achar uma atividade “mais parecida com uma autópsia”. Queria estar a fazer as coisas acontecer, do outro lado. Entrou na Segafredo Zanetti Portugal em 1994, chegou a administradora delegada nacional; depois dirigiu a filial australiana e neozelandesa da marca e em dezembro de 2016 foi a vez de aceitar o desafio do cargo de managing diretor no Reino Unido. Acredita que para fazer a carreira internacional é preciso, acima de tudo, muita adaptabilidade e algum espírito aventureiro, mas também um parceiro que seja um pilar no apoio familiar, e não hesita em afirmar que, para si, “o verbo ir é o mais importante”.

Quais eram os seus planos de carreira quando se licenciou?
Para ser sincera, acho não tinha uma ideia muito clara do que iria fazer. Tirei Economia e achava que iria trabalhar em algo nessa área ou numa ONG. Quando cheguei ao 5.º ano, ofereceram-me trabalho em auditoria e aí trabalhei muito na área de food and beverages (laticínios, queijos, café). A Segafredo Portugal estava à procura de um controler interno porque estava a crescer bastante naquela altura. No fundo sempre me interessei por produtos de grande consumo e sempre achei que o setor do marketing e vendas era muito dinâmico. Mas a verdade é que a auditoria não me satisfazia e para mim era um bocado como uma autópsia (risos). Queria estar do outro lado, a fazer coisas muito rapidamente, porque sempre tive um certo desassossego interior. No entanto, aprendi imenso em auditoria e foi uma porta que se abriu para mim, porque não temos a mínima noção do que é o mundo empresarial, quando acabamos a faculdade. A auditoria dá acesso a vários níveis da empresa, setores e a realidades e é realmente uma escola fantástica.

Sempre quis fazer uma carreira internacional ou foi mais uma questão de aproveitar as oportunidades que iam surgindo?
Sempre me propus para projetos em outros países: estive envolvida em implementações de sistemas informáticos em Espanha e França, fiz auditorias a empresas no Brasil. O privilégio de falar tantas línguas dava-me uma certa flexibilidade e como era uma multinacional relativamente pequena, quem se propusesse ir e fazer tinha logo imensas oportunidades. As oportunidades surgem, mas isso também tem muito a ver com a pessoa e eu sou uma pessoa muito desassossegada. Para mim, o verbo ir é o mais importante.

A Segafredo desde há muito tinha uma série de projetos em diferentes países. Estava em Portugal, a certa altura estive envolvida num projeto em Espanha. Propus-me mudar para Madrid porque estava a viajar quase todas as semanas do Porto para lá. Disseram-me que em Madrid não tinham oportunidades mas tinham em outro sítio: na Austrália. Estava a oferecer-me para trabalhar num local a 50 minutos de voo de casa e acabei no outro lado do mundo. (risos) É claro que este também foi um grande projeto familiar, porque na altura já tinha duas filhas com 5 e 8 anos. Mudar para o outro lado do mundo não é fácil e não há como não ver isto também como um grande projeto familiar. Saí de Portugal com 38 anos e 14 de experiência na Segafredo. Já era administradora delegada em Portugal e, portanto, já tinha uma responsabilidade muito significativa mas achei que ser diretora-geral na Austrália era uma oportunidade única. A ideia seria a de ir por 2 ou 3 anos, fazer uma transição aquando da saída do então diretor-geral, mas acabei por ficar lá 7 anos. Os projetos vão aparecendo, acabámos por fazer uma aquisição, abrimos filiais em outras cidades, depois abrimos na Nova Zelândia e no turbilhão a vida toma conta de nós. 

No meio disto, a nível familiar, as minhas filhas tiveram a sorte de crescer na Austrália e terem tido uma infância fantástica, porque é um dos melhores países do mundo para se ser criança. Quando cheguei, em 2008, sabia pouco do país e percebi que o mercado do café era um dos mais excitantes do mundo. A equipa era multicultural e só tinha 2 australianos. Como colónia inglesa, historicamente é um país de chá. Foi muito lenta a evolução do café por lá. Com os Jogos Olímpicos do ano 2000, o país começou a desenvolver o café expresso de forma extraordinária com o aparecimento de pequenas torrefações em cidades como Sydney e Melbourne, um café com outras características e sempre bebido com leite, relativamente caro, visto como um produto para se apreciar em bebida longa e de take away.

Chegar e criar o meu network também foi um desafio: associei-me a grupos de mulheres empresárias ou executivas, de forma a poder ter uma base e isso foi muito importante também. No mundo anglo-saxónico, o networking é fundamental porque nos sentimos mais isolados e fora do mercado. 

“Em termos de cultura de trabalho, identifico-me mais com a anglo-saxónica. Tenho um total fascínio por reuniões de 30 minutos e telefonemas de 15. Mas por outro lado, quem é que resiste a uma boa discussão italiana?”

Com qual das culturas em que já trabalhou se identifica mais e o que absorveu de mais importante em todas elas?
Para mim, viver em países diferentes é como viver várias vidas porque cada um tem os seus prós e contras. É como ter vários filhos: não há um de que gostemos mais e todos têm maneiras de ser diferentes. Mas em termos de cultura de trabalho, identifico-me mais com a anglo saxónica. Tenho um total fascínio por reuniões de 30 minutos e telefonemas de 15. Mas por outro lado, quem é que resiste a uma boa discussão italiana? Reconheço muitos pontos fortes na nossa maneira latina de lidar com as situações. Os portugueses e italianos conseguem, muitas vezes, soluções mais criativas e mais rápidas quando há problemas ou imprevistos. Temos uma grande flexibilidade mental.

Quais as lições mais importantes que a sua carreira internacional lhe ensinou?
Em primeiro lugar, que a única forma de levar uma organização para a frente, quando se está na liderança, é envolver as pessoas e as equipas, saber escolhê-las bem e motivá-las. São as pessoas que têm de estar sempre em primeiro lugar, porque independentemente da sua cultura, nacionalidade e background, são muito parecidas em todo o lado, nas suas motivações, naquilo querem fazer da sua vida e carreira – e isso é tranquilizador, de certa forma. O importante é tentar perceber o que está por trás de um comportamento de uma pessoa proveniente de uma cultura diferente, por exemplo, que não consigamos entender inicialmente. A nível de negócio puro e duro, foi perceber que o café, aquela bebida que nós tomamos ao balcão a correr, em Portugal, pode transformar-se num ato social importante e que as formas de relacionamento das pessoas com ele são diferentes em todo o mundo.

Quais os desafios que hoje se põem à indústria do café?
Acho que, no grande consumo em particular, o café é um produto muito interessante. Desde já, porque é um produto agrícola, natural, cultivado numa zona específica no mundo, que fica entre o equador e os trópicos, e que depois é consumido por todo mundo, com incidências nos países ocidentais, mas agora também muito popular na Ásia. Aliás, os países produtores de café, que não eram consumidores de café de qualidade, agora são-no. E é um produto especial porque junta as pessoas, dá energia e acompanha o nosso percurso de vida. As pessoas têm uma relação diferente com ele e que não é a mesma que teriam com uma marca de detergente. Cada país o consome de maneira diferente e isso é fascinante.
No que respeita às empresas, hoje em dia, o maior desafio são as pessoas, neste setor ou em qualquer outro. A nova geração que agora entra no mercado de trabalho tem uma perspectiva muito diferente da que tinha a minha geração e acho que temos muito a aprender com eles. Querem um equilíbrio maior entre a vida profissional e familiar e por isso exigem das empresas maior flexibilidade. É uma geração móvel, que gosta mais de trabalhar ao seu ritmo, que não é necessariamente o das 9h às 17h. Acho ótimo, porque as empresas têm mesmo que se adaptar à nova realidade. Por outro lado, esta é uma geração que consome menos, mas produtos de maior qualidade. Com tudo isto, vem a realidade do mundo digital e dos data analytics. Tem que se experimentar 100 coisas para uma funcionar: publicidade, para chegar aos consumidores de outra maneira, bloggers, etc. 

Outra questão, da qual acho que nenhuma empresa pode passar ao lado, é a das alterações climáticas e do ambiente. A geração Z já traz esta preocupação da escola, que nos faz pensar, e nas empresas temos que começar a perceber que temos que mudar também nas pequenas coisas. Estamos a tentar desenvolver produtos sempre com o clima e as questões ambientais em mente, sobretudo quando trabalhamos com um produto agrícola como o café. As questões da utilização da água, por exemplo, estão sempre muito presentes.

Realmente nunca mudei de grupo, mas acho que diversifiquei bastante até. Trabalhar na mesma empresa, em vários países, é como trabalhar em empresas diferentes, sobretudo se tivermos em conta as equipas.”

Que factores contribuíram para se manter tanto tempo no grupo Massimo Zanetti?Realmente nunca mudei de grupo, mas acho que diversifiquei bastante até. Trabalhar na mesma empresa, em vários países, é como trabalhar em empresas diferentes, sobretudo se tivermos em conta as equipas. Em Portugal éramos 100% de portugueses. Quando cheguei à Austrália, a minha equipa tinha 2 australianos, italianos, neozelandeses, chineses, indianos, norte-americanos… Não é a mesma coisa. O produto e a marca continuam a ser os mesmos, mas a forma de vender é muito diferente. Comecei na área financeira mas passei por várias áreas: administrativa, sistemas… Depois, quando cheguei à Austrália como diretora geral, envolvi-me na parte comercial e de marketing, nas vendas online e no desenvolvimento de um website. Agora, no Reino Unido, estou envolvida com produção e desenvolvimento de produto, pela primeira vez – fazemos café e chá. Penso que tive o privilégio de trabalhar em quase todas as áreas da empresa, em equipas multidisciplinares e multiculturais.

Quais são as suas responsabilidades e desafios enquanto membro do board do grupo?
É muito interessante porque fui nomeada 20 anos depois chegar ao grupo, em 2014. Sou administradora não executiva do board e as minhas funções passam por garantir que os interesses dos stakeholders estão assegurados. Quando fui nomeada, já tinha um conhecimento muito bom do negócio. Penso que posso dar uma visão diferente das coisas, por causa da minha experiência internacional, até porque é importante que o board esteja a par do acontece em várias geografias, em termos de comportamentos de consumo, da forma de lidar com clientes ou das tendências. Como é uma empresa cotada, a sua realidade de compliance faz com que tenha que estudar os dossiers e perceber o que está em causa. Na minha atividade, é uma das coisas que mais prazer e mais realização profissional me dá. 

Há outras mulheres no conselho de administração, que parece bastante próximo da paridade. Vêm essa diversidade no board como um fator competitivo?
Tudo na vida funciona melhor em equilíbrio e é assim que vejo também a questão da paridade de género. Acho fundamental haver igualdade de oportunidades. Penso que nos últimos anos temos assistido a uma revolução num desequilíbrio que havia nas empresas, governos e instituições relativamente ao peso das mulheres. E é, de facto, uma vantagem competitiva porque somos 51% da população, vemos as coisas de maneira diferente e de uma forma que acredito que é muito complementar. Há uma questão prática, o facto de sermos capazes de fazer tanta coisa na vida, do trabalho à logística familiar, que é super importante para as empresas.

Quais as características essenciais para se ser boa profissional na sua área?
Em termos de hard skills, uma boa base financeira é essencial e dá muita flexibilidade a todas as áreas de negócio. Em termos de soft skills, e tendo em conta a mudança é uma constante no mundo de hoje, é fundamental ter adaptabilidade a ela, no sentido de pressentir e antecipar determinadas situações. Empatia, persistência e resiliência são também muito importantes.

E que características pessoais são necessárias para se fazer carreira internacional?
Aquele desassossego de que falava e a adrenalina que se sente perante o desconhecido, um espírito mais aventureiro e que gosta de mudar. Quem entra em stress com a mudança provavelmente não será a pessoa certa para uma carreira internacional. Penso nas novas gerações, que são muito móveis, e já não acho que a questão seja se vão sair de Portugal, mas quando irão fazê-lo. Hoje, toda a gente quer não apenas viajar a lazer, mas ter a experiência de viver num país e cultura diferentes para experimentar como é. As gerações mais jovens estão muito mais preparadas mentalmente para esses desafios.

“As mulheres têm que se propor mais, porque nem sempre é claro que estejam de facto disponíveis para uma carreira internacional. Se tiver filhos, essa mudança terá necessariamente que ser um projeto familiar, com um apoio muito maior por parte do cônjuge.”

Que conselhos daria a uma jovem que ambiciona fazê-lo?
Tem que se ter flexibilidade e adaptabilidade. Na minha opinião, as mulheres têm que se propor mais, ou pelo menos dizerem que estão disponíveis para os cargos. Nem sempre é claro que estejam de facto disponíveis para uma carreira internacional. Se tiver filhos, essa mudança terá necessariamente que ser um projeto familiar, com um apoio muito maior por parte do cônjuge porque a rede familiar não existirá. Conheço muitas famílias expatriadas pelo mundo e o cônjuge tem um papel muito mais ativo a nível familiar e, na maior parte das vezes, não consegue uma carreira equivalente porque é muito difícil fazê-lo.

Do que sente mais falta em Portugal?
Do que sinto mais falta é da família e dos amigos, embora agora, a viver em Edimburgo, seja muito mais fácil vir a Portugal do que quando estava na Austrália. Do que sinto muita falta também é da praia de Moledo do Minho. Já vi muitas praias muito bonitas no mundo inteiro, mas aquela tem um encanto especial porque passei lá a minha infância e continuo a ir lá de férias todos os anos. Para mim, mais do que um sítio, a palavra “casa” é um sentimento. E eu acho que a minha casa é ali.