Paula Rios: “Yold” ou os novos seniores

Paula Rios sobre o que é preciso mudar para aproveitar ao máximo o potencial dos "young old" na sociedade.

Paula Rios é jurista e profissional de seguros.

Texto de Paula Rios, jurista e profissional de seguros

 

Até há bem pouco tempo, nunca tinha ouvido falar nos “yold”, os “young old”, como os japoneses chamam as pessoas que estão entre os 65 e os 75 anos de idade. Num artigo desafiante mas animador (especialmente para quem faz parte do grupo, ou se aproxima dele, como é o meu caso), na edição especial que The Economist faz todos os anos dedicada ao ano que está a chegar “The world in 2020”, o autor, John Parker, diz-nos que este fenómeno está associado à aproximação à idade da reforma dos baby boomers, nascidos entre 1955 e 1960 do século passado, que se dará, previsivelmente, entre 2020-2025. Mas, acrescenta, este grupo etário não vai ter o comportamento esperado, ou, melhor dizendo, o das gerações que o antecederam. Não vão para casa calçar as pantufas e ver televisão, vão querer manter-se ativos, até porque fisicamente estão em melhor forma, têm um espírito mais jovem e também, em geral, dispõem de mais dinheiro. Em vez de encararem a reforma como “o princípio do fim”, vêem-na como o princípio de uma fase em que podem desenvolver outros interesses, e sobretudo ter tempo para fazer coisas para as quais antes não tinham o tempo que desejariam, como viajar, ter atividades culturais ou, porque não, até estudar ou desenvolver novos projetos profissionais, que nada tenham a ver com aquilo que fizeram durante as suas carreiras, mas que lhe permitam manter-se intelectualmente ativos.

Um novo olhar

John Parker refere, e concordo totalmente, que os “yold” vão obrigar a sociedade a ter um novo olhar sobre esta faixa etária, quantas vezes objeto de desprezo pelos mais novos. Em Portugal, a palavra “velho” assumiu um sentido tão pejorativo que foi substituída por “idoso”, uma solução igualmente infeliz, de tal modo a palavra carrega em si o peso da solidão, incapacidade, vulnerabilidade e dependência. Em qualquer local, basta dizer que se é “reformado” para suscitar um olhar de desprezo, como se já “não se prestasse”. Para não falar na forma como vemos, por exemplo em estabelecimentos de saúde, algum do pessoal dirigir-se aos doentes mais velhos como se estes fossem crianças ou, pior, retardados.

Tudo isto vai ter de mudar. A muitos níveis, e começando pelas empresas. Enquanto que no mercado  de Londres, por exemplo, assistimos a profissionais conceituados, com 50 anos e mais, que mudam de emprego sem dificuldade, em Portugal a partir dos 40, 45, parece que carregamos um estigma – já ninguém nos dá emprego! Numa sociedade onde se prevê que o ser humano vá viver até aos 100 anos, ou mais, não haverá apenas um ciclo de carreira, como até agora, mas vários, exigindo uma reinvenção permanente, mas não só dos profissionais – também, e muito, das empresas.

Troca de experiências

As empresas têm de começar a preparar-se para esta realidade. Por um lado, olhando para os “yold” que têm dentro delas e tentando perceber até que ponto eles querem manter o ritmo frenético dos últimos anos. Podem querer trabalhar a tempo parcial, permitindo assim o recrutamento  de mais jovens com talento a quem esses “yold” passem know how, não se assistindo assim à terrível perda de conhecimento que se tem dado em certos sectores nas últimas décadas, nomeadamente  no  setor segurador. Por outro, fazendo aquilo que nos é mostrado de forma extraordinária no filme “O estagiário”, com Robert de Niro e Anne Hathaway, em que a empresa desta, uma start  up de grande êxito de venda de roupa pela internet, super tecnológica, contrata um reformado com 70 anos como estagiário, no âmbito de um programa criado pelo governo para incentivar a troca de experiências entre gerações. É interessantíssimo ver, ao longo do filme, como se desenrola essa troca, como o personagem interpretado por Robert de Niro (igual a si próprio, pelo que brilhante) transmite a sua experiência e capacidade de organização, temperados de bom senso, aos colegas mais novos, enquanto que eles o ajudam a familiarizar-se com as novas tecnologias, que ele aliás aprende com rapidez. Esta é uma solução que, felizmente, está a ser adotada em vários países, e até por algumas empresas em Portugal, mas ainda de forma tímida. Atrevo-me a dizer que as empresas que optarem por esta solução, mas também pelo trabalho a tempo parcial ou outras soluções que permitam a coexistência de gerações e a passagem do conhecimento, estarão a abrir novos caminhos; não esquecer que muitas empresas se gabam de ter uma grande diversidade ao nível dos seus colaboradores, esquecendo-se de que essa diversidade não abrange só género, raça ou credo, mas também idade, um dos fatores atualmente causadores de maior discriminação, que urge combater.

Ativos, inquietos e sonhadores

Mais ano menos ano, farei parte do grupo dos “yold”. Na realidade, já me sinto assim. Ainda hoje comentava com o meu filho mais novo que não sinto os meus 57 anos, mas bem mais jovem. Apesar de alguma “marretice” e resmunguice que às vezes me atingem, continuo a ter um espírito aberto e a manter algumas ideias disruptoras que defendo desde a minha juventude. Gosto de viajar, dançar, ir à praia e divertir-me com os meus amigos, como sempre gostei. Adoro novos projetos, novos desafios intelectuais, como os que desenvolvi recentemente após ter chegado a um acordo de trabalho parcial com a empresa na qual estou há quinze anos. Onde também desenvolvo projetos ligados a temas apaixonantes, que me permitem conhecer desde cientistas que me falam sobre a já não tão distante ciborguização do ser humano até às mais recentes descobertas sobre como lidar com a crise climática, só para citar alguns.

Muito há a fazer, mas acredito, como John Parker defende no The Economist, que os “yold” vão mudar muita coisa. Desde logo, mentalidades. Os “yold” vão mudar o paradigma até agora vigente, de que os “mais velhos” são um bando de inúteis, que só servem para dar despesa à Segurança Social e trabalho às famílias. Os “yold“ vão estar atentos, ser intervenientes, disfrutar da vida, ajudar com os netos, cuidar da sua saúde de forma preventiva, estar em forma, ter um papel relevante enquanto consumidores, e, porque não, ditar algumas regras. Porque vão ser cada vez mais numerosos.

Last but not least, acho que os “yold” vão recuperar algo que estava perdido na apatia e desinteresse pela vida das gerações mais velhas que os antecederam – a capacidade de continuar a sonhar. Porque enquanto sonharmos, estaremos plenamente vivos. E, como diz António Gedeão no seu lindíssimo poema “Pedra Filosofal”: “Eles não sabem, nem sonham/ que o sonho comanda a vida/ que sempre que um homem sonha/ o mundo pula e avança/ como bola colorida/ entre as mãos de uma criança”.