Paula Rios: Sozinhos em casa

Paula Rios salienta as mudanças de hábitos que o coronavirus pode introduzir nas nossas vidas.

Paula Rios é jurista e profissional de seguros.

Texto de Paula Rios, jurista e profissional de seguros

 

Estes últimos dias tenho-me lembrado do filme de 1990, que todos teremos visto vezes sem conta, em que um miúdo de oito anos é esquecido em casa pela família, no meio da confusão da partida para a viagem de férias de Natal. Sozinho em casa, ele tem uma série de aventuras divertidíssimas que deliciaram adultos e crianças ao longo dos últimos 20 anos.

Diferente é a situação em que nos vemos estes dias. Muito de repente, vemo-nos “sozinhos em casa”, numa espécie de “quarentena preventiva” que, esperamos, irá contribuir para a contenção do Covid-19, esse vírus que há bem pouco tempo ainda era algo remoto, na distante China, e hoje, graças à globalização, galgou fronteiras e se instalou entre nós, trazendo com ele o pânico, e também ao de cima o pior dos seres humanos, como o açambarcamento, a falta de civismo, e o egoísmo. Entre outros atributos.

Se é certo que o pânico não resolve nada, bem pelo contrário, não estar preocupado, para não dizer assustado, seria não ser humano. A frase que mais tenho dito, e ouvido nos últimos dias, tem sido “Não pensei viver para ver isto” e é fácil constatar que governos e serviços de saúde (com honrosas excepções como Macau, por exemplo) estavam totalmente impreparados para o que nos atingiu, está a atingir e atingirá, ninguém sabe até quando.

Entretanto, como na gestão de qualquer risco, mitigação e adaptação são palavras chave. Mitigamos através das precauções recomendadas, das mil lavagens de mãos, da desinfecção,  de nos fecharmos em casa apenas saindo em casos essenciais… e vamos ter, creio, que fazer muitas, mas muitas adaptações. No nosso estilo de vida, e também na forma como trabalhamos.

Veja-se, por exemplo, o teletrabalho; algo a que várias empresas já aderiram, mas a que muitas têm vindo a resistir heroicamente, agora vai assumir um papel importantíssimo, impedindo que uma esmagadora maioria de negócios pare. Já há muito se falava nas grandes vantagens do teletrabalho: a possibilidade de redução de espaços no escritório – não estando os trabalhadores todos os dias não existe a necessidade de cada um ter o seu posto de trabalho fixo; o aumento de qualidade de vida para aqueles que vivem longe e passam muito tempo em deslocações; a possibilidade de introdução de alguma flexibilidade nos horários. Apenas um exemplo, neste caso parcial: uma jovem mãe que trabalha na área financeira duma empresa. Desde que a filha nasceu, acordou com a empresa sair todos os dias às 15 h para ir buscar a filha à escola, trabalhando as duas horas restantes a partir de casa, normalmente à noite, depois de a filha estar a dormir. Não tenho dúvidas de que a abertura da empresa para este tipo de solução não só a motivou muitíssimo, como também a terá fidelizado, e permitido aproveitar os primeiros anos da filha sem descurar as suas obrigações profissionais e prejudicar a sua carreira. Obviamente soluções deste tipo nem sempre são possíveis, como por exemplo quando há atendimento presencial ao público, mas muitas vezes não o são apenas porque as empresas não têm essa flexibilidade.

Atrevo-me a dizer que, quando isto passar as empresas terão constatado que o teletrabalho não é o “bicho papão” que pensavam ser.

Tudo vai mudar com o coronavírus e com esta “avalanche” súbita de teletrabalho. Atrevo-me até a dizer que, quando isto passar – e que seja tão cedo quanto possível – as empresas terão constatado que o teletrabalho não é o “bicho papão” que pensavam ser; que os colaboradores são responsáveis e que a flexibilidade permitida pelo teletrabalho, aliada ao  facto de não terem de suportar o longo caminho de e para o trabalho os tornará mais felizes, e até, acredito, empenhados em tornar o teletrabalho num sucesso. Por outro lado – e falo por mim – quantas vezes trabalhar em casa é bem mais tranquilo do que no escritório, podendo estar mais concentrados, sem conversas de corredor ou os inevitáveis minutos na copa, a tomar café e a conviver…e porque estes também fazem parte, e o relacionamento entre colegas é importante, deverá haver pelo menos um ou dois dias por semana em que se possa ir ao escritório, sendo, às vezes até necessário. Isto num cenário pós-coronavírus, obviamente.

Estamos num momento de grande disrupção. Esta pandemia vai trazer – já está a trazer – grandes mudanças para as nossas vidas. Se é provável que voltemos a uma maior proximidade social, também poderá acontecer perdermos alguns hábitos, como o dos beijos por tudo e por nada – ou talvez não. Acredito que vamos adquirir alguns salutares hábitos de higiene, que serão de manter, como uma mais frequente lavagem de mãos. Finalmente, acredito que o teletrabalho chegou para ficar, e que será algo incontornável no futuro mais próximo. Para quem já o estava a implementar, e para quem não estava, porque as suas inegáveis vantagens – entre as quais a poupança, em termos de instalações, como já vimos – se vão impor. Também creio que alguma parcimónia irá resultar desta crise, no que respeita a viagens em trabalho, muitas das quais, como se está a ver, podem ser eficazmente substituídas por conference calls ou videochamadas, permitindo às empresas poupar milhares em viagens, hotéis e ajudas de custo.

Como sempre ouvi dizer, por detrás de uma crise há sempre uma oportunidade. Esta, acredito que vai trazer oportunidades de mudança a vários níveis, nomeadamente os que apontei. Até lá, resta-nos aguentar este período difícil da melhor forma, adoptando os comportamentos mais seguros para contenção do vírus e nossa protecção. Certamente, nesta fase iremos passar muito mais tempo, como o herói do filme que referi, sozinhos em casa.