Paula Rios: A doença mental não é um bicho-papão

Paula Rios sobre o que cada um de nós pode fazer para desmistificar a doença mental e ajudar quem realmente precisa.

Paula Rios é jurista e profissional de seguros.

Texto de Paula Rios, jurista e profissional de seguros

Era uma amiga próxima, alegre e cheia de vida. Susceptível, é certo: por vezes reagia mal a simples brincadeiras. Mas era inteligente, desperta e com sentido de humor. Travava as suas batalhas, como todos nós – no seu caso, contra um pai dominador que praticamente a forçou a escolher o curso de Direito em vez do de Belas Artes, que era a sua vocação. Acabou por, contrariada, estudar Direito e dar aulas numa escola secundária, com uma imensa frustração.

Um dia ao telefone achei-a estranha, estranhíssima. Disse-me que ouvia vozes a todo o momento, que a perseguiam e avisavam sobre perigos e coisas que iam acontecer. No início, achei que estava a brincar, mas rapidamente percebi que ela não estava bem. As suas descrições eram tão reais que quase acreditei no que me dizia, mas pela forma como falava percebi que não era o caso. Soube pouco depois que lhe tinha sido diagnosticada esquizofrenia.

A partir daí a vida da minha amiga foi uma espiral de infortúnio: seguida no SNS, foi medicada e, como consequência da medicação, engordou muito. Com a medicação, os acessos ficavam controlados. Mas não queria engordar e deixava de tomar a medicação, pelo que sofria recaídas. E foi assim a sua vida ao longo dos anos. Não sei se fez alguma psicoterapia mas se o fez, terá sido reduzida. Reformou-se por invalidez, uma reforma mínima, conseguiu manter-se no apartamento onde sempre tinha vivido com uma renda antiga, pese embora os esforços titânicos do senhorio para a despejar, vai pintando uns quadros quando tem disposição para isso e vive uma vida triste, sem esperança, uma vida desperdiçada.

A doença escondida

A sociedade tem sempre lidado muito mal com a doença mental, talvez porque seja menos visível e aparentemente menos fatal (mas a verdade é que os números do suicídio são assustadores);  provavelmente devido aos preconceitos que foram sendo construídos ao longo dos séculos enquanto a ciência e o conhecimento do adoecer mental eram escassos, e iam enraizando em cada um de nós o medo de perder a razão e o auto-controlo, levando-nos a querer fugir dessa realidade a todo o custo. Tem sido um termo tabu – quem é a pessoa que, sofendo de ansiedade ou depressão, o admite facilmente? Não, escondemos do mundo, vamos tomando os anti-depressivos ou ansiolíticos às escondidas e sorrimos ao mundo lá fora, fingindo que tudo está bem. Quantas vezes ouvimos “Eu, ir ao psiquiatra ou ao psicólogo? Não estou maluco”, e esta afirmação é simplemente prova de ignorância, ignorância sobre o que é a doença mental e como se pode, e deve tratar.

Só quando, por motivos profissionais, me cruzei com a Encontrar+se, associação para a promoção da súde mental que, entre outras actividades, se dedica a apoiar pessoas com doença mental e os seus familiares, é que me apercebi com mais clareza do drama que é efectivamente, na nossa sociedade, viver com uma doença mental. A sua presidente, Filipa Palha, que admiro muitíssimo porque é uma mulher com uma missão de vida, ensinou-me que as doenças mentais são como quaisquer outras, que na maior parte dos casos podem ser tratadas e mesmo curadas. No caso da minha amiga, sei hoje que um doente com esquizofrenia tem disponível um conjunto de intervenções que, se disponibilizadas atempadamente, podem contribuir para uma recuperação que conduz a uma vida completamente normal. Também aprendi que temos todos que ajudar nesta luta contra o estigma das doenças mentais – as pessoas com esquizofrenia ou depressão não são “loucas” nem “fracas de espírito”, apenas estão doentes – no entanto, a sociedade despreza-as. Começando pelo SNS, não está garantido o acesso a cuidados integrados e continuados, alinhados às boas práticas actuais, comprometendo o potencial de recuperação de milhares de pessoas, a sua vida, o seu futuro e afectando a sociedade em geral. Quanto às consultas, são escassas, senão inexistentes. A título de exemplo, a psicoterapia, intervenção considerada fundamental nos guidelines de boas práticas de tratamento de várias doenças mentais (em complementaridade, ou não, com a farmacologia), raramente é disponibilizada pelo SNS. Se alguém sofrer de um problema cardíaco ou de cancro, será tratado. Se tiver uma doença mental, mesmo uma das mais graves, será visto como uma não entidade, esquecido, e a família terá de se encarregar dele muitas vezes em circunstâncias dificílimas, como é o caso dos doentes com esquizofrenia, porque o sistema nacional de saúde lava daí as mãos. Cruel, mas verdadeiro.

Os números

Os números, esses, são assustadores. Em 2016, segundo um relatório da OPP – Ordem dos Psicólogos Portugueses, foram vendidos 20 milhões de psicofármacos, nos quais os portugueses gastaram € 216 M, tendo o SNS comparticipado em 56% deste valor – nada menos de € 122 M.

Segundo um Estudo Epidemiológico em Saúde Mental de 2010, conduzido pela FCM-UNL, envolvendo 3849 indivíduos adultos de 258 localidades, 43% dos portugueses sofrem de perturbações mentais ao longo da sua vida. 23% sofreu duma doença psiquiátrica nos doze meses que antecederam o estudo (dos quais 16% ansiedade, 8% depressão e quase 7% depressão grave). Infelizmente, apenas 1,7% destas pessoas recebe tratamento. Portugal é o país da União Europeia com maior prevalência de doença mental, a seguir à Irlanda. Entre a manifestação e os primeiros tratamentos decorrem, em média, entre 1 a 4 anos e 1 em cada 6 trabalhadores sofre de perturbação mental e estudos mostram que, para uma empresa o ROI (Retorno Sobre Investimento) das empresas que optam pela prevenção dos riscos psicosociais face àquelas que preferem o tratamento, é de € 13 para 1€. Fica claro, então, que as empresas têm um contributo relevante a dar nesta área, para além do Estado, e dos cidadãos.

É preciso mudar

A Encontrar+se tem lutado, ao longo destes anos, para que o Estado assuma a sua responsabilidade, que é a de garantir o direito ao mais elevado padrão de cuidados de saúde, e o cumprimento das promessas que fez quando assumiu o Plano de Saúde Mental como um dos prioritários. Quanto ao papel que cada um de nós, cidadãos, pode desempenhar, é essencial educar, partilhar informação, compreender. Deve ser possível, finalmente, que a ciência e o conhecimento tomem a dianteira face ao estigma e à discriminação. A Encontrar+se tem procurado sensibilizar as empresas para o muito que podem fazer, já que também no local e trabalho o tema da saúde/doença mental tem sido tabu, contrastando com a forma como hoje se procura promover a saúde e o bemestar dos trabalhadores. É hoje consensual que o silêncio que permanece tem graves consequências a nível individual, nas relações laborais, na produtividade e na satisfação com o trabalho, entre outras.

Quando na MDS, consultores de Seguros e Risco, conhecemos a Encontrar+se, assumimos a doença mental como a nossa causa de responsabilidade social. Desde então, sob a liderança da área de Recursos Humanos, foi estabelecido um conjunto de princípios:

  1. Na MDS, não há qualquer problema em assumir-se que se tem uma doença mental. Queremos falar da doença mental com a mesma naturalidade com que falamos da doença física. Sem tabus, sem estigmatizar, e sobretudo sem excluir.
  2. Promover a literacia – os líderes/responsáveis da empresa têm de ser capazes de reconhecer os primeiros sintomas de doença mental, em si ou nas suas equipas e são os primeiros a prestar apoio às pessoas em questão, sabendo que a doença mental não é “contagiosa” e tem tratamento e que quanto mais cedo se iniciar o tratamento, mais eficaz será. Para tal, foi realizado o curso “Ouvir o que não é dito. Primeiros socorros na Doença Mental” que, à semelhança dos cursos de suporte básico de vida, permite identificar sinais de alerta e adoptar acções/comportamentos com vista à procura de ajuda.
  3. A medicação para a doença mental não é perturbadora da funcionalidade da pessoa. Na MDS as pessoas não precisam de esconder os medicamentos com medo da discriminação.
  4. Promover a responsabilização individual. Cada pessoa é responsável pela sua saúde, incluindo a mental. Estar alerta e actuar de imediato é da responsabilidade do próprio.

Foram ainda levadas a cabo várias iniciativas, entre as quais acções de in/formação sobre a Doença Mental e a forma como detectá-la nos colaboradores da empresa; acções de divulgação e desmistificação, por exemplo através de postais com ilustrações a acompanhar com figuras coloridas, em que cada uma diz uma frase como “a doença mental não é um bicho papão” e “ a doença mental é uma doença como todas as outras”.

A Encontrar+se tem vindo a desenvolver estas acções junto de outras empresas e entidades, públicas e privadas, implementando programas diversificados que envolvem desde sessões de esclarecimento; avaliação e riscos psicossociais; rasteios de saúde mental; desenvolvimento de materiais informativos; workshops sobre temas diversos com impacto na saíude/doença mental; e o curso de “Primeiros socorros na doença mental, entre outros”.

Diria que, quer a MDS, que estas empresas, dão um exemplo de pioneirismo neste campo, mas deverão ser seguidas por muitas outras. Ao contrário do momento em que a MDS iniciou este projecto, já há três anos, hoje fala-se muito mais da doença mental, nomeadamente devido ao crescente envolvimento de figuras públicas em acções de sensibilização e combate ao estigma, como é o caso dos príncipes William e Harry de Inglaterra, que assumiram desassombradamente terem sofrido de problemas mentais após o falecimento da mãe, a Princesa Diana. É disto que precisamos. De partilhar, desmistificar e apoiar. De mostrar que todos somos afectados, directa ou indirectamente, pela doença mental.

A este respeito gosto de recordar uma figura desconhecida, pelo menos entre nós, mas que fez muito pela causa da doença mental: trata-se de Nellie Bly, uma corajosa jornalista do séc. XIX – mulher muito “à frente do seu tempo” – que aceitou ser internada numa instituição mental verdadeiramente Dickensiana (com o apropriado nome de “Asilo para Mulheres Lunáticas”) para poder vivenciar, em primeira mão, as condições medonhas de tratamento das mulheres que aí estavam internadas.  Durante dez dias esteve no inferno, mas o artigo que escreveu denunciando a brutalidades e abuso a que as pacientes eram submetidas levou a uma considerável melhoria das condições do internamento no local. Se é certo que os pacientes hoje já não serão tratados assim, a verdade é que são ostracizados, esquecidos, e não recebem o tratamento adequado.

Felizmente, hoje erguem-se muitas vozes para que a doença mental mais não seja esquecida.  Hoje, Filipa Palha e a sua equipa prosseguem o trabalho de Nellie Bly. Prosseguem uma batalha que é épica, contra um sistema que muitas vezes não as quer ouvir. Quantas mais vozes se unirem às suas, mais fortes serão. E a nós, pessoas e empresas, cabe ajudar. E por cada reacção positiva que tivermos, de colaboradores que viviam calados e de repente se sentem com coragem para falar, o esforço terá valido a pena. Como quando um dia vi uma colega com um dos cartões com as figuras coloridas com mensagens sobre a doença mental. Quando lhe perguntei se tinha gostado do cartão, respondeu: ”Mais do que gostar, foi muito importante para mim. Estou a lutar contra uma grande depressão, e este cartão mostrou-me que a minha empresa está ao meu lado, a apoiar-me nesta luta. Para mim, faz toda a diferença”.

São pequenas vitórias como esta que nos fazem concluir que esta luta não pode parar. Por cada pessoa com doença mental que tocarmos, atingimos uma vitória. Afinal, a doença mental não é um bicho papão – é uma doença como as outras, com tratamento e cura. Só poderá assumir essa forma monstruosa e assustadora se a deixarmos continuar a ficar no escuro, se não a enfrentarmos e lhe dermos voz. Afinal, ninguém merece sentir vergonha por estar doente. Deve, sim, ser tratado com o carinho e atenção que todo o doente merece. Nem mais, nem menos.