Paula Rios: Do paraíso ao inferno

Paula Rios expressa a sua surpresa e impotência perante as cenas de desespero em Cabul e a sua apreensão pelo futuro daquelas mulheres.

Paula Rios é jurista e profissional de seguros.

Texto de Paula Rios, jurista e profissional de seguros

 

Todos os anos nas férias deste mês de Agosto, nesta silly season tão europeia, enquanto nos preocupamos com a temperatura da água do mar, com a nortada que não abate, com a impossibilidade de reservar o restaurante de que tanto gostamos e se ainda podemos vestir aquele biquini que tão bem nos ficava, ou se já estamos a passar da idade, somos confrontados com mais ou menos desgraças pelo país e pelo mundo fora. Por cá são os eternos incêndios, os números da pandemia e das vacinas, algum ou outro crime que chama a atenção… Lá fora, o drama anual dos migrantes que arriscam a vida para chegar a uma Europa que não os quer, não os pode receber e não sabe como descalçar essa bota. E este ano foi mais um terramoto no já tão flagelado Haiti, e a tudo resistimos, imperturbáveis neste nosso cantinho do mundo tão privilegiado. Viramos a página, pomos o telefone de lado ou fazemos zapping, e já está.

Esta última semana eu não fui excepção, e estava no meu cantinho do paraíso — uma Madeira estranhamente quente mas com a água do mar a uns deliciosos 25 graus — quando, de repente, me apercebi, suponho que como tantos outros cidadãos do mundo, que os talibãs tinham retomado o poder no Afeganistão, esse país que já há algumas décadas entrou no nosso imaginário pelas piores razões. Primeiro, em 79 e nos anos 80, por ter sido invadido pela então União Soviética e, depois, por ser governado por um regime fundamentalista islâmico, os talibans, que chocaram o mundo pelos castigos medievais infligidos aos seus detractores, e por obrigarem as mulheres e meninas a cobrirem-se com as burcas, uma espécie de véu integral de tecido grosso com uma rede na zona dos olhos, símbolo da prisão a que o género feminino é votado por aquele regime, sendo negada às mulheres e raparigas o acesso à mais básica educação e ao trabalho, ou até a cuidados de saúde.

Aliviados que ficámos quando os Estados Unidos, à boleia do 11 de Setembro e do combate ao terrorismo, invadiram aquele já tão massacrado país e libertaram a sociedade dos talibans, percebemos no entanto que estes não tinham sido totalmente vencidos, aguardando por melhor momento, que pelos vistos agora chegou, com a retirada por Joe Biden das tropas norte-americanas que, agora se conclui, asseguravam a precária sobrevivência de um governo preso por alfinetes.

E, de repente, em pleno Agosto, depois de um belo dia de calor em que me deliciei nas águas tépidas do maravilhoso mar madeirense, eis que depois do jantar nos invadem imagens de horror: no aeroporto de Cabul, um avião militar norte americano tenta descolar com dezenas de afegãos agarrados aos trens de aterragem, tentando desesperadamente marinhar por ali acima até alguma porta ou janela que lhes permita fugir do seu país, para onde e como como não sabem, nem querem saber; só se vê o desespero de querer fugir, sair dali.

A imagem  do avião, e das centenas de pessoas em pânico a galgar os muros e arame farpado do aeroporto, lembraram-me os meses de terror que vivemos  em Moçambique após o 25 de Abril, particularmente quando a cidade de Lourenco Marques — hoje Maputo — foi cercada, em 7 de Setembro e 21 de Outubro de 1974, por uma  multidão enlouquecida que massacrava, com  requintes de crueldade, todos os que tivessem a desgraça de se atravessar no seu caminho. Sentimentos de medo, de impotência, de querer fugir mas não ter como, nem para onde, ficaram-me gravados na memória desde então, e talvez por isso as imagens de Cabul me tenham afectado tanto, doído tanto, e mesmo no meu cantinho do paraíso não consiga deixar de as passar uma e outra vez na minha cabeça, um filme novo mas já visto de alguma forma. Pensar nas mulheres e meninas daquele país, que vão voltar a viver dentro duma prisão ambulante, deixar de poder ir trabalhar ou à escola, serem forçadas a casar com quem não querem, escravizadas, enfim, arranca-me da agradável modorra estival e faz-me pensar o que posso fazer, o que podemos, todos, como sociedade, fazer para que isso não aconteça.

E,  como honestamente, não sei o que nesta história está certo ou está errado, como não tenho o conhecimento suficiente dos factos políticos para opinar sobre se a decisão de Joe Biden de retirar do Afeganistão é ou não a mais adequada, lembrei-me de escrever. Não servirá de muito, mas se todos dissermos o que pensamos talvez alguém nos oiça, e quem tem poder para fazer alguma coisa o faça, e talvez a vida dessas mulheres e meninas, e desses homens também porque eram eles que víamos a fugir em desespero, possa ainda vir a ter alguma esperança. Simplesmente, não podia, não conseguia estar no meu cantinho do paraíso, a ver o inferno de outros seres tão humanos como eu, e não chorar por dentro, e não dizer nada.

 

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